Escavação e a outra face do machismo em Hollywood: mulheres podem envelhecer?

Filme acende novamente a discussão da invisibilização das mulheres de meia idade nos materiais audiovisuais

Carey Mulligan está concorrendo ao prêmio de melhor atriz por Bela Vingança (2020) no Oscar, filme produzido por Margot Robbie, que aborda temas que fazem parte da vida das mulheres: o estupro e a quase certeza de impunidade. Apesar de muito bem dirigido e envolvente, essa matéria não é sobre um dos favoritos do Academy Awards, mas, sim, sobre outro filme estrelando Mulligan que ficou de fora da premiação. Trata-se do longa da Netflix, A Escavação, lançado em janeiro de 2021.

A Escavação é uma produção britânica, que retrata fatos reais. O longa acompanha a história de Edith Pretty, que acreditando que seu terreno seja um sítio arqueológico, contrata um escavador para explorá-lo e acaba fazendo uma das descobertas mais importantes do século 20. Baseado no romance de mesmo nome, o filme da Netflix não causou desgosto na crítica e recebeu opiniões positivas, mas não passou no corte do Oscar, sendo descartado das categorias e tendo indicações apenas no British Academy Film Awards (BAFTA).

Apesar das críticas positivas, o filme não deixou de causar polêmica. A escolha da atriz ocasionou uma questão que permeia a indústria cinematográfica: o chamado ageism (preconceito de idade). A personagem vivida por Carey Mulligan, 35, na época em que a história se passa tinha 56 anos de idade. A atriz foi escolhida pela produção depois que Nicole Kidman recusou o convite. Mas será que não haveria outras  opções de atrizes com mais de cinquenta anos? Ainda mais num mercado de atores tão extenso e rico, como o mercado britânico? 

A ONG britânica Behind The Woman, que levanta a bandeira do empoderamento das mulheres de meia idade, publicou em seu Twitter uma opinião que mostra a exaustão de não se ver representada: “É uma pena pensar nas mulheres incríveis com mais de 50 que poderiam ter interpretado a Sra. Pretty. Enquanto mulheres de 30 interpretarem mulheres de 50, ficaremos invisíveis.”

Situações como essa são reflexos de nossa sociedade machista. Por que temos cremes, produtos e processos estéticos, para frear algo que é natural e acontece com todos? Por que envelhecer é ruim e por que é ainda pior para a mulher? Atrizes que foram sinônimos de beleza como Catherine Zeta Jones, Demi Moore, Geena Davis, hoje se encontram fora do cinema. 

Enquanto Harrison Ford, George Clooney e outros atores que envelheceram, continuam com seus empregos e com a posição de galãs. Tom Hanks e Meg Ryan, atores queridos dos anos 90 e que já contracenaram juntos, são um exemplo dos dois pesos e duas medidas dessa conta. Tom Hanks continua fazendo filmes como herói e protagonista (Relatos do Mundo, 2020), mas onde está a Meg Ryan?

A própria Geena Davis, que alcançou o estrelato com o filme Thelma e Louise (1991), hoje luta contra o ageism em Hollywood. Seu instituto, o Geena Davis Institute on Gender and Media, lançou em 2020 um estudo baseado em dados de 2019 sobre os papéis que pessoas com mais de 50 anos ocupam nos filmes. As análises englobam filmografias não só dos Estados Unidos, mas também da Alemanha, França e Reino Unido. Os dados mostram que três em cada quatro (74.7%) dos personagens que têm acima de 50 anos são homens, enquanto um em cada quatro (25.3%) são mulheres. O que significa que quando a audiência vê personagens mais velhos na tela, estão vendo prioritariamente homens. 

O estudo também aponta, que quando as mulheres, de fato, aparecem nas telas, tendem a sofrer mais estereótipos de idade em sua caracterização. Como por exemplo: ser senil, mentalmente instável, retratadas como doentes, são mostradas fisicamente não atraentes (em comparação a personagens homens), assim como também são retratadas como mais solitárias e caseiras. 

Foto de Edith na época da escavação em seu terreno, em que se passa o filme. Foto: BBC/Divulgação.

Uma das questões que o estudo aponta e foi citada acima, é o fato de que quando há papéis de destaque para mulheres com mais de 45 anos, elas são em sua maioria retratadas com alguma problemática. São colocadas em um papel de poder no começo do filme, mas algo acontece que a deixa frágil. Muitas vezes, leva à sua morte ao fim da obra, em razão de doenças, perda de memória, problemas mentais, até abuso de substâncias.  

Depois de anos sumida, a atriz da comédia romântica O Diário de Bridget Jones, Renée Zellweger, ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2020, por interpretar a atriz e cantora Judy Garland que faleceu por overdose aos 47 anos.

Quando a continuação de Top Gun: Ases Indomáveis foi anunciada, Tom Cruise estava, sem dúvida, cotado para manter o seu papel na trama. Já seu par romântico, que na época do primeiro filme já era mais velha que o ator, a atriz Kelly McGillis, não foi cogitada por não estar em forma para o papel e não corresponder ao padrão de Hollywood. É claro, você não pode ter mais de 50 anos e aparentar ter 50 anos. 

Nosso país, machista como é, não foge dessa lógica. A atriz Cláudia Raia, 54, em uma entrevista à Revista Ela, comentou como o movimento de reconhecer o envelhecimento ainda é muito tímido no Brasil. “A verdade é que se você não tem mais 30 ou 40 anos e nem tem 80, você está num limbo”, comentou. 

Ela ainda frisou a importância da representatividade e como recebe comentários positivos sobre isso em suas redes sociais. “As mulheres também comentam muito nas minhas redes, falando que se sentem representadas, que gostam de ver o que eu posto. Elas vêm falar comigo sobre a importância da gente falar da mulher de 50+, de verem as questões sendo colocadas”.

Vera Fischer, outra grande atriz da teledramaturgia brasileira, foi criticada esse ano ao postar uma foto em seu Instagram, fruto de um ensaio sensual. A maioria dos comentários se referiam ao tratamento botox aplicado em sua face, o que a estava tornando, segundo os usuários da rede, “irreconhecível”. A pressão parece que se torna muito maior quando as atrizes já foram símbolos de beleza. É como se as pessoas esperassem que essas mulheres continuassem com o mesmo rosto que tinham aos vinte e poucos anos, mas sem procedimentos estéticos por que podem ficar muito diferentes. Algo impossível. Com ou sem plástica, a mulher que envelhece é criticada.

Há, claro, exceções como Viola Davis, Olivia Colman ou Meryl Streep, vivendo papéis de mulheres normais e poderosas fora dos seus 30 anos. Mas o problema é esse, são exceções. Frances McDormand, ganhadora de dois Oscars, aos 63 anos está concorrendo a mais um este ano: Melhor Atriz por Nomadland (2020), porém, McDormand nunca foi referência do padrão de beleza hollywoodiano, assim como Streep que tinha dificuldade de arranjar papéis por ser considerada “feia”. 

Atrizes com mais de meia idade não correspondem ao padrão de beleza hollywoodiano – que é bem questionável e irreal -, logo, podem contar só com seu talento e, mais ainda, com as oportunidades que o mercado oferece, que são poucas. Por isso são tão importantes iniciativas como a de Geena Davis ou da ONG Behind The Woman, em chamar a atenção para essa problemática. Se, como em A Escavação, há um papel para uma mulher de 50+ e se escolhe dá-lo para uma atriz de 30 anos, são apagadas todas as outras mulheres que trariam mais fidelidade à narrativa. Além de também apagar toda uma representatividade. Mulheres de 50 anos ou mais existem, e elas não correspondem a apenas uma coisa.

Séries e filmes com mulheres 50+ incríveis: 

Nomadland

Esse roadmovie (filme que se passa na estrada) é o favorito ao Oscar de Melhor Filme esse ano. Conta a história de Fern (Frances McDormand) que após uma perda, decide viver em um trailer, percorrendo o Oeste dos Estados Unidos.

Personagem anda em campo vasto durante o entardecer. Ele segura uma lamparina nas mãos. O rapaz é jovem e ao seu redor, existe um ponto de espera de ônibus e carro. É dirigido por Chloé Zhao, uma das mulheres que receberam prêmios no Oscar 2021.

Cena do filme Nomadland. Foto: Searchlight Pictures/Reprodução.

Grace and Frankie

Acompanha a história de duas mulheres na terceira idade que decidem morar juntas após seus parceiros pedirem o divórcio. A comédia a todo tempo quebra os estereótipos relacionados a pessoas idosas, sendo muito divertida e envolvente.

As duas protagonistas, mulheres na terceira idade, Grace e Frankie se entreolham e seguram as mãos enquanto estão sentadas na varanda em suas cadeiras em tons turquesa.

Cena da série Grace and Frankie. Foto: Netflix/Reprodução.

Mamma Mia! O Filme

O musical de 2008, inspirado no show da Broadway de mesmo nome, narra a história de Sophie (Amanda Seyfried) em busca da identidade de seu pai, que sua mãe Donna (Meryl Streep) insiste em esconder. Mamma Mia não é novidade pra ninguém, mas é um filme super divertido e que conta com outras duas atrizes 50+ de renome, Julie Walters e Christine Baranski. Além de ter os maiores sucessos do Abba, o que é decididamente um plus!

G1 > Cinema - NOTÍCIAS - Crítica: Musical 'Mamma mia!' leva canções do ABBA às telas de cinema

Cena do filme Mamma Mia. Fonte: Universal Studios/Reprodução.

Acesse o estudo do Instituto de Geena Davis

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp