Um Espião Silenciado: livro sobre jornalista cearense assassinado ganha destaque e pode virar filme

Raphael Alberti, autor de livro sobre espião que atuava nos anos que antecedem a Ditadura Militar, fala ao Café Colombo sobre publicação

Raphael em entrevista sobre o Um Espião Silenciado na Rádio Cidade.

Raphael em entrevista para a  Rádio Cidade, em Caruaru. Foto: Arquivo Pessoal.

Raphael Alberti é carioca, professor da rede municipal de Caruaru, historiador e escritor do livro Um Espião Silenciado, que ganhou no dia 7 de março o 2° Prêmio Book Brasil, na categoria Melhor Ebook Crônica. A biografia, lançada pela editora Cepe, conta a história de José Nogueira, jornalista que trabalhava para o Centro de Inteligência da Marinha e  atuava  em organizações anticomunistas, passando informações para políticos de esquerda. O agente foi morto um ano antes do Golpe de 1964, que acarretou na Ditadura Militar. Raphael conta ao Café Colombo como foi o processo para documentar essa história que está rendendo muitos frutos como o lançamento de um futuro filme.  Confira a entrevista: 

Raphael, quem foi o José Nogueira, esse personagem que te cativou tanto?

Ele era um cearense, nascido em Mundaú, e morreu muito cedo,  com 29 anos. Ele foge totalmente do estereótipo do nordestino que vem ganhar a vida no Rio de Janeiro, era um cara de classe média, seu pai era delegado. Então, ele vem com outros propósitos para o Rio e começa a ganhar fama pelo seu faro investigativo.

José Nogueira foi um agente duplo da Marinha, do Centro de Inteligência da Marinha, Cenimar, que é o serviço secreto dessa força armada. Ele atuou tanto para organizações paramilitares de extrema direita, anticomunistas, quanto repassando informações dessas entidades para políticos progressistas, mais ligados à esquerda. Também foi jornalista do Diário da Noite e trabalhou no Diário Carioca. Era amigo pessoal do João Goulart e do ministro da Marinha, Pedro Paulo Suzano. 

Em meio a tantas histórias, de tantas pessoas que viveram os tempos da Ditadura Militar no Brasil, por que você escolheu contar a história do José Nogueira, que inclusive, aconteceu antes do golpe?

Eu não escolhi falar sobre o José Nogueira, ele me escolheu, eu o encontrei por acaso. Eu tinha uma necessidade de escrever algo diferente do que os historiadores geralmente publicavam nas suas monografias. Queria fazer algo original, algo que fosse pouco abordado e interessante ao mesmo tempo.

Me remeti a uma aula de História no ensino médio, do meu professor Márcio Rogério, em que ele falou sobre o Escândalo da Caixinha do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). O que foi isso? Várias multinacionais fizeram uma vaquinha de milhares de dólares para interferir nas eleições de 1962. Eleições para Governador, Senador, deputado federal e estadual. A intenção era desestabilizar o governo de João Goulart com propaganda anticomunista.

Eu fui pesquisar sobre esse tema e minha monografia no Rio de Janeiro foi sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do IBAD e do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Me dei ao trabalho de ler a ata inteira da CPI, no diário do Congresso Nacional. Letras bem miúdas, muitas páginas, em determinado parágrafo eu li que o Genival Rabelo, diretor de uma revista chamada Política e Negócios, acusava o IBAD de assassinar um jornalista. Era a única coisa que estava escrita e fiquei muito impressionado porque na bibliografia do IBAD só falava-se sobre corrupção eleitoral, mas não havia nada de homicídio. Então eu vi que havia um furo e corri atrás das informações para saber quem era esse jornalista, porque que tinham matado ele e para quem ele trabalhava. 

Carteira de trabalho de José Nogueira, espião nos anos que antecedem a ditadura militar.

Carteira de Repórter do Diário da Noite de José Nogueira. Foto: Extraído do livro Um Espião Silenciado.

Para criar Um Espião Silenciado foram muitos anos de pesquisa, ao todo foram dez anos para adquirir todo esse material que está presente no livro. Como foi esse processo pra você?

Foi um turbilhão de emoções. Ao mesmo tempo que era muito instigante e desafiador, era também muito triste, desgastante e muito custoso, porque eu não tive qualquer tipo de ajuda financeira do Estado ou instituições privadas. Tudo que eu consegui do José Nogueira foi com recursos próprios ou da minha família. 

Não foram dez anos ininterruptos, sem parar, todos os dias estudando sobre o tema. Por conta da falta de dinheiro, eu fui morar em São Paulo para dar aula numa escola pública, e nesse processo, me distanciei das fontes. Depois que  retomei a pesquisa,  tive que ler tudo de novo, para ter vivo na minha memória aqueles nomes, aquelas informações. 

Acredito que tive acesso a todos os  documentos públicos que constam do nome de José Nogueira. Fui para a terra dele, em Mundaú, pesquisei no jornal que ele era redator chefe em São Paulo. Fui para Brasília pesquisar no arquivo pessoal do Carlos Lacerda e enquanto morava no Rio de Janeiro, pesquisei em vários lugares diferentes. A pesquisa foi bem intensa e eu fico muito feliz que tenha dado frutos, tanto com o livro e agora com o filme.

No livro você conta que houveram algumas intimidações. De onde elas vieram e como foi lidar com isso?

Eu arrisquei a minha vida em vários momentos enquanto pesquisava em arquivos das Forças Armadas, da Marinha, do Exército, na Aeronáutica também. Na Aeronáutica e na Policia Civil, eu fui muito bem tratado, eles foram bem transparentes.  Aqui, em Caruaru, aconteceu uma ligação meio estranha. Medo a  gente tem não é? É inevitável, não dá para gente bancar o corajoso e falar que não senti medo em nenhum momento. É óbvio que tive e tenho, mas eu nunca deixei o medo superar a vontade de fazer essa reparação histórica e realizar o sonho que era levar esse trabalho para a família dele, e também, publicar meu primeiro livro de destaque.

E como está sendo o feedback do público?

Está sendo maravilhoso. Desde o ano passado – quando o livro foi lançado –  eu consegui ficar algumas semanas entre os mais vendidos em biografia para adolescentes e jovens na Amazon ou ficar entre os três ou cinco primeiros nas vendas em geral. 

E também a repercussão que teve nos jornais pelo Brasil. Saiu uma resenha em uma  página inteira no segundo caderno do jornal O Globo. Também foram publicados conteúdos no Correio Braziliense, Diário do Nordeste do Ceará, na Revista 451, que é uma revista especializada em livros da Folha de São Paulo e na revista Carta Capital. Fora as lives com o cineasta Silvio Tendler, a jornalista Cynara Menezes da Revista Fórum e do site Socialista Morena. E também especialistas da área, como Paulo César Gomes, que ganhou o prêmio Jabuti em 2020. Com o Lucas Pedretti que foi o historiador que descobriu o documento do Caetano Veloso sendo preso durante a ditadura e deu origem ao filme Narciso em Férias.

Eu estou muito feliz com todo esse reconhecimento, tanto dos pares da Academia, quanto pelo público e por essa procura pelo livro. Estamos negociando com duas produtoras de filmes, até agora, então acho que diz alguma coisa. Acredito que é um registro histórico de qualidade, importante para entender  e mostrar uma figura esquecida de uma região tão pormenorizada no cenário nacional. Além de ser uma fonte documental para o público conhecer os bastidores do golpe e perceber como os serviços de inteligência das Forças Armadas já se articulavam antes de 1964.

Muito se fala sobre como a Lei da Anistia colocou panos quentes sobre toda a época da ditadura, não prendendo os responsáveis pelas torturas e mortes, tornando o assunto quase esquecível a um nível em que as pessoas pedem a sua volta. Você como historiador, percebe a falta de falar sobre isso, como uma das principais razões para os movimentos pró ditadura militar que temos hoje? Como combater essa noção que se tem hoje e mostrar o que a ditadura realmente foi? 

Acredito que a gente combate essa visão deturpada da Ditadura com informação e com paciência para o diálogo. Entendo que nem sempre a gente está num dia bom, com paciência, às vezes, as pessoas não ajudam também. Mas é preciso dialogar com as pessoas que divulgam fake news de que não houve corrupção e perseguição, que foi um tempo melhor, em que tudo ia bem. Eu acho que a primeira coisa é explicar cada argumento com fontes e dados, apesar de estarmos na época da pós-verdade, em que muitas vezes as evidências não são levadas  em consideração. O afeto do diálogo nunca sai de moda. 

Acontece que muitas pessoas com um conhecimento raso sobre os fatos, que não são especialistas em história e produzem esses tipos de argumentação, também se tornam mais incentivadas a reproduzir esses argumentos por conta do tratamento que  recebem, com a nossa falta de paciência em explicar os acontecimentos. Vários livros denunciam esses acordos de militares com empreiteiras, o livro do Pedro Campos fala muito bem disso. Houve muita corrupção na ditadura e muita perseguição a pessoas que tentavam dar um viés transparente nesses governos. Então eu acho que o segredo é esse. 

Histórias como a que você conta no livro são cruciais para manter a discussão sobre a Ditadura Militar no Brasil, trazer essa barbárie à tona. Você vê histórias como Um Espião Silenciado sendo a chave para a gente começar a lidar com esse pedaço da nossa história?

Acho que Um Espião Silenciado  ajuda no combate a esse tipo de visão, porque ele mostra que antes da Ditadura começar, os próprios agentes do anticomunismo também poderiam sofrer com isso, já que o José Nogueira também trabalhou para organizações anticomunistas. O livro mostra que além dos militantes que eram contrários a esse autoritarismo das Forças Armadas, aqueles que trabalham para esse serviço, também poderiam ter o mesmo destino por saberem muito, por desviarem a conduta que os militares esperaram. E ajuda a entender também a participação da sociedade civil no golpe, mostrar que ele foi militar e teve um viés civil.

Foto pessoal de Raphael Alberti comemorando a publicação de seu livro.

Raphael comemorando a publicação de seu livro. Foto: Arquivo Pessoal.

Qual é a sua sensação agora que o livro foi publicado?

Fiquei muito emocionado em saber que vale a pena a gente ser persistente, confiar nas nossas loucuras. Porque a maior parte desse tempo eram mais desmotivações do que motivos. Então eu fiquei muito emocionado de ver que eu virei uma ideia, que eu deixei um legado, se eu morrer hoje, essa ideia fica. 

Estou satisfeito por gerar jurisprudência para os historiadores, já que  processei a polícia por omitir o laudo cadavérico do José Nogueira e acabei ganhando, nas duas instâncias no Tribunal de Justiça do Rio, isso também foi contado no livro. Eu fico feliz em pensar que qualquer historiador que quiser usar a Lei de Acesso à Informação para conseguir algum documento, pode usar essa decisão judicial como parâmetro para a sua futura vitória.

Por último, realizado. Porque todo acadêmico tem uma vontade de que o seu estudo não seja em vão para as pessoas. Temos anos de solidão e pesquisa, muito trabalho, muita leitura, muita esforço e a sensação que fica é que o nosso trabalho vai ficar em uma estante de biblioteca de faculdade e ninguém vai ler. E quando eu cheguei em Mundaú e vi a satisfação da família dele sobre o que eu tinha feito. Todas as demonstrações de carinho que eles me deram.

O primo me escreveu cartas extensas de agradecimento, porque eles não sabiam absolutamente nada da vida do José no Rio de Janeiro. Eles só sabiam da vida dele em Mundaú, até os dezoito anos. A irmã dele, que tem 88 anos e tem parkinson, fala que me ama e por mais que ela ache forte o tema, tem dificuldade para ler até hoje, ela se sente muito grata pelo que fiz. Essas coisas não tem preço. 

Eu me sinto muito feliz com o livro publicado porque sua repercussão acabou desencadeando no filme, quando achei que ia acabar com a pesquisa.  Só espero não ficar mais 10 anos até o filme sair. Mesmo entendendo que é um processo demorado, a escrita de roteiro às vezes demora de 2 a 3 anos ou mais para ser feita.  Mas vai dar tudo certo! 

Um Espião Silenciado está disponível em ebook na Amazon por R$ 8,01.

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