Essa gente do Brasil, nessa gente de Chico Buarque

De Welton Humberto, estudante de economia e um aficionado por literatura e música


Foto: Divulgação

É óbvio que o jovem Chico Buarque, compositor de “Pedro Pedreiro 1966”, envelheceu e provando que o amanhã ninguém sabe, deu-se também à prosa num caminho de sucessos e estranhezas por parte da crítica e dos leitores, e assim nos trouxe à sua última obra, Essa Gente (2019). Um romance, não de fato, mas de estética epistolar.

A personagem que narra o livro é Manuel Duarte, escritor outrora aclamado, mas que, agora falido, passa pelas amarguras e vexames de quem cava desesperada e inutilmente o poço da criatividade, de onde só minam angústias, mágoas e indignação. Para além de Manuel Duarte, do seu bloqueio criativo e dos seus tantos problemas pessoais, há várias personagens como a juíza federal Marilu Zabala; Fúlvio, o velho amigo de infância; O latifundiário Napoleão Mamede; Agenor, o sargento do corpo de bombeiros que mora na periferia do Rio de Janeiro e tantos outros, circulando de forma orgânica numa narrativa que tem como maior objeto de exposição o Brasil contemporâneo.  

A forma como as relações são tratadas na obra remete sutilmente ao arquétipo do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda. Onde o amor e ódio presentes na sociedade brasileira são sentimentos íntimos a cada indivíduo e caminham “con cordis”, embaralhados nas mais diversas formas de se relacionar socialmente. Sentimentos estes inflamados pelo que citava Marc Bloch ao dizer que somos mais filhos do nosso tempo do que filhos de nossos pais, afirmação que parece ser um dos fios condutores da narrativa.

Foto: Divulgação.

O contato inicial com o livro é marcado pela personalidade ranzinza de Duarte, cheio de falhas morais, contradições e alguma humanidade. O seu mundo é cinza e destoa do verde e amarelo que agora cobre a superfície da elite carioca, na qual ele sempre esteve inserido. Mas pairando entre o peso estético da visão de mundo do narrador e a primazia de Chico Buarque ante as letras, o livro corre rápido diante dos nossos olhos e cada página lida se torna uma página lamentada, uma página a menos.

Duarte ou Buarque? 

A semelhança fonética dos sobrenomes traz uma experiência maliciosamente engenhosa à leitura. Não dá para enxergar Chico Buarque na persona de Manuel Duarte, mas não são poucas as vezes em que nos pegamos a flanar pelas afirmações e ideias ali presentes, no curioso exercício de tentar entender onde um cala e o outro fala. O que traz mais sabor para este jogo é o último álbum lançado por Chico, sob a batuta do maestro Luiz Claudio Ramos, Caravanas (2017). São incontáveis os momentos do livro nos quais as músicas ecoam como trilha da narrativa. 

Como exemplo temos o próprio Duarte, que no seu mar de falhas não cansa de ser o homem de “Tua Cantiga”, disposto a disputar o amor de alguém comprometido, ou a largar mulher e filhos para de joelhos seguir a amada da vez. Há também os antigos amigos e fãs que entoam a música “Desaforos” e nas horas vagas rogam pragas a Duarte por aí, pelo seu posicionamento político. E o Fúlvio, ah o Fúlvio, a figura que representa um dos maiores problemas existentes na nossa sociedade, o amigo de Duarte que saindo do Country Club destila todo o ódio cantado na canção “As Caravanas” em um homem com feições indígenas que estava encostado no muro do clube.

Passando-se na maior parte do tempo em 2019 e citando alguns dos acontecimentos que estamparam as manchetes de jornais do Brasil real, a ficção apresenta uma narrativa fluida e até vulgar, mas que não entra em desafeto com a tão conhecida polidez de Chico sobre a língua portuguesa. Essa Gente, considera quem vos escreve, merece ser lida. Pois além de trazer a visão do autor sobre os rumos políticos e sociais que o Brasil tomou, em uma narrativa singular, a chegada da obra deixa no leitor o sentimento de que, apesar de tudo, flores ainda nascem no asfalto.