Estamos Vivos: O grito autobiográfico de Isabela Moraes

Entrevista com a cantora e compositora Isabela Moraes que lançou seu primeiro disco recentemente, "Estamos Vivos".

Por Sarah Coutinho e Dyego Mendes


Ensaio produzido produzido para o disco de Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Os editores do Café Colombo, Sarah Coutinho e Dyego Mendes realizaram uma entrevista com a cantora e compositora pernambucana Isabela Moraes que lançou no dia 22 de maio, o seu primeiro disco “Estamos Vivos”. Com um misto de incertezas ocasionados pela quarentena e a poesia nos versos que revelam suas vivências, Isabela descreve com certeza os caminhos que a trouxeram até aqui e os sentimentos envoltos pela arte que a acompanha desde a infância. Confira: 

Como foi seu processo enquanto artista? 

Eu comecei a escrever quando aprendi a ler. Tinha curiosidade e muita sede pela leitura. Sempre fui muito apaixonada. Tenho uma lembrança do dia que juntei as palavras e aprendi a formá-las. Meu pai também colecionava livros de literatura de cordel. Esses livrinhos de literatura de cordel foram as minhas primeiras diversões na leitura, eu me viciei neles. Quando a gente lê uma poesia, automaticamente, cantamos ela. Você lê porque ela rima, há uma melodiazinha ali. Eu acredito que de tanto ler esses livrinhos, meu cérebro começou a fazer música. Escrevendo as minhas canções, meus primeiros exercícios — que eu chamo de exercício — , percebo que é algo que vou exercitar até o fim da minha vida. Criei o meu mundo dentro do meu quarto através da escrita. Um mundo paralelo onde eu era totalmente livre. 

Antes da música, houve outra área que te interessava? 

Eu dizia que queria ser jornalista ou psicóloga, sempre falava essas coisas. Entrei depois na faculdade de jornalismo em Recife, e fui tentando levar esse sonho adiante até que a música me fisgou. Eu comecei ensaiando em bandas de garagem e me apaixonava cada vez mais. Eu era muito tímida e não tinha coragem de botar minha cara para cantar, dizer que era cantora. Só que nesses ensaios, as coisas foram ficando mais sérias. Tinha 16 anos, quando recebi um convite profissional para começar a cantar numa banda de baile. Meu irmão me acompanhava sempre. Até que da banda de baile, eu saí e fui fazer com uns dos componentes dessa banda voz e violão. Nessa época, fui inserindo minhas composições para ver se as pessoas se identificavam com minhas músicas. 

Como foi o processo de sair da área do jornalismo para a música?

Eu comecei a fazer música que era algo que já vinha fugindo. Fui me apaixonando, me entregando cada vez mais, e vendo que era isso que me tomava por inteira. Eu tinha 18 anos quando recebi um convite para cantar nos Emirados Árabes e foi meu primeiro emprego recebendo. Voltando dos Emirados, fiquei em Recife durante 15 anos e não voltei mais à Caruaru. Em Recife, fazia a faculdade e cantava à noite. Fiz muitos shows em Recife, rodando por Pernambuco. Os professores foram tomando conhecimento dos motivos das minhas faltas, começaram a ir aos meus shows, e perdoavam. Conversei com a minha mãe sobre me entregar inteiramente para música e ela não concordou  na época. E não é que estudando, você não pode cantar, mas eu decidi me entregar a música como quem se entrega ao vestibular, a uma faculdade da vida. 

Como foi a experiência em São Paulo? Expandiu os horizontes? 

Fui para São Paulo com a intenção de passar duas semanas e passei 7 anos. Conheci muitos produtores, inclusive, os meus que são os mesmos de Almério, Tadeu e Andrea. Ele também foi a São Paulo, passou alguns meses morando comigo, gravou o disco dele e músicas minhas. Nesses tempos, conheci Mariana Aydar, que gravou músicas minhas e Dani Black. Fiz vários projetos por lá e abri algumas portas maravilhosas. Fui galgando esses espaços através da batalha árdua do dia a dia. Sou muito apaixonada por essa coragem e esse ímpeto que me deu. Agradeço demais a essa luz divina e ao sofrimento que me permitiu ir à cidade; Também passei por festivais em São Paulo que me amadureceram muito como intérprete porque eu sempre valorizei muito mais esse meu lado compositora, por ter isso comigo desde criança. Nunca tinha participado de festivais, não gosto da competitividade, acho que na música você não precisa dizer quem é melhor. Tem gosto para tudo no mundo.  

Como foi lançar um disco durante nesse período de isolamento social atravessado por tantas incertezas?

Na verdade, o disco estava sendo programado para ser lançado com todo calor humano possível, como sempre foi. Está sendo um desafio lançar o disco em plena pandemia, é tudo muito incerto. Mas eu confesso que tem sido uma fase muito boa para mim. Porque esse disco chegou nesse momento tão angustiante, e medo para a gente. Eu costumo dizer que as minhas palavras voltaram pra mim no momento que eu mais precisava delas. As entrevistas, a correria do disco estão me salvando. Me ocupam de uma maneira muito gostosa e eu espero que o disco esteja fazendo o mesmo bem para as pessoas que estejam ouvindo ele. Mas há o outro lado das coisas. O disco fala sobre esses assuntos essenciais da vida como a gente sentir o agora, celebrar, viver sem medo, dizer que ama, não esperar o amanhã porque vem um momento como esses e nos pega de surpresa. O título “Estamos Vivos” não é por um acaso. Eu já vinha brindado nos shows e pedindo que as pessoas não tivessem medo de viver com tudo que elas são. E sempre tirava um momento do show pra gente gritar “Viva, estamos vivos!”. Eu tô muito feliz e muito apaixonada pelo meu disco. 

Isabela Moraes. Foto: Leo Aversa/ Divulgação

Como se deu o processo de produção das músicas do disco?

Pouquíssimas canções são recentes. A maioria já caminha comigo ao longo dos anos nos shows ao vivo. Eu sempre fui uma pessoa muito do ao vivo, do aqui e agora. Como também sou compositora, gosto que outros artistas gravem minhas canções. Eu não tinha nenhuma ambição sobre o disco, sempre me realizei muito através de outras pessoas gravando minhas composições. São músicas com as quais eu já tenho grande intimidade. Escrevi essas canções no período em que morei em São Paulo. São canções que estão comigo há muito tempo. A maioria são autobiográficas, pouquíssimas coisas eu invento, grande parte são vivências mesmo. Naturalmente, algumas se tornaram mais íntimas minhas e, por isso, foram escolhidas para compor o disco. 

Como está sendo a divulgação do álbum?

Nós temos a assessoria da gravadora que é encarregada dessa parte. Eles contactam as pessoas, artistas e a impressa. É uma equipe grande, que é bem diferente da maneira com a qual eu vinha trabalhando, porque até então eu era uma artista independente. Por mais que tenha mudado a lógica da gravadora no Brasil, você continua sendo independente, mas se tem toda uma equipe que dá todo um aparato para que se consiga ir mais longe. Então, a gravadora tem esse papel. Eu fico muito aliviada porque foram 22 anos de carreira independente e agora eu consigo me preocupar com outras coisas, como ensaios, lives e outros processos, enquanto o pessoal cuida da parte de divulgação. Atualmente, eu conto a equipe da gravadora DeckDisc e meus produtores, Tadeu Gondim e André Brasileiro, que cuidam desse trabalho com tanto esmero. “Estamos Vivos” está em todas plataformas digitais e onde eles podem galgar espaço para o disco, eles o fazem com afinco e de maneira muito sábia. 

Tem previsão de alguma coisa para além das plataformas digitais?

Por enquanto é isso. Não sabemos quanto vai durar essa crise, então continuaremos pelas vias digitais. O show de estreia do disco ia ser no Teatro Santa Isabel, em Recife. Eu tinha ficado muito feliz com essa possibilidade tão desafiadora e ao mesmo tempo excitante, mas continua sendo desafiador e excitante, só que de outra forma. Vêm novidades por aí, os clipes de quarentena que estamos produzindo são uma delas. No São João, sairá o primeiro deles. É da canção “Do Contra” e também estamos trabalhando no faixa a faixa do disco que vai sair em breve. Mudou a forma, mas continuamos trabalhando bastante.

Atualmente você está morando em Caruaru?

Assim que soube da pandemia, eu corri para cá. Eu sou nascida e criada em Caruaru. É um lugar no qual me sinto segura. Minha família mora aqui, minha mãe, minha vó. Quando soube do isolamento, pensei: vou para o meu porto seguro. Eu tenho uma casa aqui, que é meu descanso, minha parada. A mente precisa desse lugar para dar vasão à escrita e, algumas vezes, apenas ao descanso. 

Além da pandemia que estamos vivenciando, soma-se a ela uma crise política. Com relação à classe artística e aos incentivos, qual tem sido a repercussão disso tudo?

Desde antes da pandemia, a classe artística já vinha sendo bastante prejudicada pelo Governo atual. Já havia um movimento de boicote à música, teatro, cinema e às artes plásticas que é anterior à Covid-19. Esse processo apenas foi intensificado. O Governo não tem intenção nenhuma de apoiar as artes no geral. O que tem acontecido são movimentos paralelos ao Governo. Os próprios artistas estão se juntando e se apoiando. Eu faço parte de um projeto lindo chamado Ágora Sonora. São lives que acontecem através da plataforma Zoom, nas quais as pessoas contribuem comprando seu ingresso para assistir ao show de um determinado artista. A iniciativa é encabeçada pela produtora e amiga querida Twilla Barbosa. Esse projeto tem salvado muitos artistas. Nós temos recebido muito mais do que recebíamos antes da pandemia. Claro que se tivéssemos apoio governamental seria muito mais fácil, mas, se esperarmos por ele, morremos de fome. É isso que tem acontecido. São esses projetos que os próprios artistas e produtores têm inventando para ajudarem a si mesmos e ajudarem os colegas que viabilizarão o enfrentamento dessa crise política.  

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