“Estar nu diante do mundo”

Uma análise comparativa dos romances de Garth Greenwell e James Baldwin.

A busca por adequação diante dos estigmas que cercam a homossexualidade em “O que te pertence”, de Garth Greenwell, e “O quarto de Giovanni”, de James Baldwin


Foto divulgação

“Eu sou o homem, eu sofri, eu estava lá.” É esta a memorável frase de Walt Whitman no poema Canção de mim mesmo (1855) que serve de epígrafe a O quarto de Giovanni (1956), segundo romance de James Baldwin, uma das mais impressionantes obras da literatura estadunidense. Mais tarde, no seu primeiro livro O que te pertence (2016), Garth Greenwell escreve sobre o desejo de “estar nu diante do mundo”, sentimento de Whitman no mesmo poema usado por Baldwin, que seu inominado protagonista jamais entendeu, até estar em uma trilha em Blagoevgrad na Bulgária, “observando sementes que caíam como a neve, (…) o que eram essas sementes, senão o ímpeto procriador do mundo”. E, subitamente, sem que nunca antes tenha experimentado pela Canção uma ternura tão forte quanto seus alunos sempre sentiam, encontra-se ansiando pelas palavras do poeta: “Irei à margem junto ao bosque e ficarei sem disfarces e nu, Estou louco que ela entre em contato comigo.

Baldwin abre seu livro com Whitman porque, assim como ele, em O quarto de Giovanni também “canta a si mesmo”. A despeito da dissipação identitária que seus editores achavam que tinha sofrido ao escrever um romance sem personagens negros, quando era essa sua designada recognição e seu público, o autor, ainda sob os braços da ficção, narra um pouco de seu envolvimento com Lucien, um jovem sueco à quem dedica o livro. De maneira similar, o faz Garth Greenwell na narrativa do jovem americano expatriado na Bulgária, que tem um acentuado tom autobiográfico, e que depois entende-se a sua segunda obra, Cleanness (2020), uma característica literária na qual alguns vêem um toque proustiano. Não sei se vai tão longe, mas sua estreia como autor é excepcionalmente promissora e O que te pertence é considerado, por boa parte da crítica americana, o “romance gay dos nossos tempos”.

Reprodução: Capa do romance “O que te pertence”, Garth Greenwell, Todavia, 2019

O narrador, tal qual foi o próprio Greenwell, é professor, vindo do Kentucky para trabalhar no American College of Sofia na Bulgária. O autor não o nomeia, mas o faz ao garoto de programa búlgaro com quem o protagonista mantém uma intrincada relação de obsessão e dependência, Mitko, nome da primeira parte do livro, publicada como novela antes de Greenwell engrandecê-la ao nível de romance. E é, de fato, um processo de engrandecimento, pois a partir daí o livro desenvolve-se de maneira vertical: o que pode aparentar, inicialmente, concernir muito mais à atmosfera sexual, o famoso lugar comum da literatura LGBT, avança à uma construção tão bem sucedida da psicologia de personagens que me peguei pensando em Dostoiévski, Katherine Mansfield e, especialmente, James Baldwin. 

Evidentemente, as narrativas se assemelham, mesmo Greenwell admite a inspiração: o narrador de O quarto de Giovanni, o também americano David, muda-se para Paris onde envolve-se com um jovem italiano chamado Giovanni, e o relacionamento entre ambos tem muito da complexa fixação que vemos no romance de Greenwell. A começar por seus narradores, tanto o professor quanto David deixam a moderna America para partirem, o primeiro para a pobre e tradicional Bulgária, o segundo para a bela e libertária França. Perante a face do deslocamento de onde pertenciam, e talvez, como indica David ao questionar se nossa casa não é uma “condição irrevogável”, ainda pertençam, os dois personagens encontram-se deliberadamente desterrados. Mas, pensar na casa como determinante, esse espaço de onde Whitman diz nascermos “aqui, de pais nascidos aqui de pais daqui, e seus pais também”, é perceber David e o professor tal qual o eram em Nova Iorque ou no Kentucky: dois meninos vacilantes sob a exclusão que persegue a não-heteronormatividade. 

O quarto de Giovanni, James Baldwin, Companhia das Letras, 2018

Suas circunstâncias, no entanto, são distintas. David escolhe Paris pela aura de autonomia que acredita encontrar em tal lugar, vindo de um espaço em que a homossexualidade, percebida em si mesmo desde a adolescência, é ilegal. Já o professor, que cresce no sul dos Estados Unidos durante o surto de Aids, não fita o estigma de criminoso, mas da imoralidade, do que é sujo. Relembra a primeira vez que apaixona-se, ainda muito jovem, por um garoto com quem passa a noite abraçado em seu quarto na casa do pai, onde acorda com o odor vexatório do vômito de seu amigo. Mais tarde, o mesmo garoto encontra-se com uma repentina namorada sob a supervisão vergonhosa e, perturbadoramente, excitante do professor que, depois, encerra-se na “dor da exclusão” sem desistir da escassa “satisfação do desejo” que sente naquele momento, embora, diferente de David, seja abertamente homossexual. 

O professor não admite o “armário”, mas decide mudar-se para um país em que o armário, ainda aberto, é inevitável. Em diversos momentos, a sutileza da indignidade com a qual é tratado em certos ambientes o afeta. David, todavia, vai à Paris em busca de alforria, mas Paris só liberta os escravos à noite, o que não o livra da clandestinidade. “Estar nu diante do mundo”, portanto, acaba por ser apenas um exercício de palavras, já que David e o protagonista de Greenwell escolhem, de maneiras distintas, a contenção. Mas afinal, como afirma David, “as pessoas que julgam ter força de vontade e controlar o próprio destino, só conseguem continuar acreditando nisso tornando-se peritas em enganar a si próprios.” Ambos desfrutam de pouca possibilidade de escolha sobre eles mesmos, quando as narrativas que existem à seu respeito são extremamente limitadas: à um, o crime de pederastia, ao outro, à vergonha da doença. 

Logo, a clandestinidade se faz persistente nos dois livros e, é em cenários furtivos que o professor conhece Mitko e David, Giovanni. Os dois primeiros acham-se nos banheiros do Palácio Nacional da Cultura, ambiente sabidamente promíscuo. Mitko, no entanto, age com extrema desenvoltura e agrada de pronto ao professor, mais tarde,  de joelhos sozinho em um dos boxes: depois de pago, Mitko efetua a primeira de suas traições, finge um orgasmo e vai embora antes de satisfazer inteiramente seu cliente. Cliente ou priáteli, a ambígua palavra búlgara para amigo, que usa tanto com ele, quanto para designar a maioria dos homens com os quais negocia, sem deixar de conferir à mesma palavra um certo tom de maior intimidade quando refere-se ao americano. Este, bem como o livro de Baldwin, é um texto de linguagem, e a combinação de inglês e búlgaro, tal qual a de inglês e francês na narrativa de Giovanni, marca a comunicação nos dois romances e entre eles. 

Curiosamente, Giovanni é italiano. Contudo, o francês (não traduzido) está na maioria de suas falas e há sempre algo de afetação e magnetismo em todas elas, que fazem de David e dos outros rapazes no bar onde Giovanni trabalha e, pela primeira vez se encontram, instantaneamente encantados. “Vive L’Amérique”, diz com ironia em certo ponto da conversa inicial que os levará ao quarto. Saem do bar, para ir à outro, Giovanni, David e mais dois personagens, que ambos concordam serem desprezíveis, sendo um, o chefe de Giovanni e o outro, seu amigo. Lá um dos personagens secundários diz ao orgulhoso narrador: “Se você ficar se protegendo o tempo todo, vai acabar preso dentro do seu próprio corpo sujo, pra sempre, pra todo sempre – como eu.” Com efeito, a pretensa virilidade de David cessa e já naquele dia vai ao quarto de Giovanni, onde a saída é tão estreita quanto o recinto:  “Está mais do que claro que você ia ter que conhecer meu quarto mesmo, mais cedo ou mais tarde”.

Mitko jamais leva o professor à lugar nenhum que seja seu, porque não há lugar nenhum para Mitko, sua exclusão é tamanha que sua existência parece absurda. Chega a dizer: Men mé niama, esquisita expressão búlgara explicada pelo professor como “Estou acabado, ou Não estou aqui, literalmente Não existe nenhum eu”. Há o tempo inteiro grande mistério acerca do personagem que vemos em todos os momentos ao lado do narrador, de quem depende financeiramente inúmeras vezes, seja no quarto dele ou em um hotéis ou outros ambientes públicos. O espaço de Mitko é sempre noturno e urbano. A Bulgária é contexto essencial na narrativa e aparece o tempo todo com substanciais detalhes, numa empreitada de ser contradição e explicação a respeito do casal. Porém, gostaria de saber mais sobre como o professor chegou ao país, ainda que tenha esclarecido a escolha controversa de um lugar conhecidamente conservador: “Talvez fosse o caso, simplesmente, de eu querer que o mundo tivesse um sentido, e que o sentido que eu queria que ele tivesse fosse de castigo.”

Essa lógica de castigo também assombra David, a tal ponto que o quarto de Giovanni, onde passa a morar por um período, torna-se asfixiante e claustrofóbico. Giovanni, aflito em seu desamparo, sob a frequente ameaça da miséria e da prostituição (destino já certo de Mitko), o questiona: “Ça ne manques pas, les chambres. O mundo está cheio de quartos – quartos grandes, pequenos, redondos, quadrados, quartos bem altos e bem baixos -, tem quarto de tudo que é tipo! Em que tipo de quarto você acha que o Giovanni deveria morar? Quanto tempo acha que levei para encontrar o quarto onde estou? E desde quando, desde quando você odeia tanto o quarto? Desde quando? Desde ontem, desde sempre? Dis-moi.” Efetivamente, a frustração do desentendimento desemboca em violência nos dois relacionamentos. Mitko bate no professor quando este o manda embora pela primeira vez; Giovanni e David se martirizam de maneira mais sutil.

É desejo do próprio E. M. Foster que Maurice (1971), romance gay escrito em 1913, seja publicado postumamente, quando encontrará leitores mais novos que seu autor. Então, garante em seu posfácio ter sido uma escolha “vital” deixar que o livro se passe em uma “Inglaterra onde ainda era possível perder-se”, quando suas florestas não tinham perecido depois de duas grandes guerras, “não há floresta ou charneca para onde escapar hoje” e a natureza extensa e profunda era imprescindível a um final feliz para um casal homossexual, condição que Foster tinha ao escrever o romance. Certamente, a Bulgária ainda tem suas florestas, e é perante a relva quase erótica, para Whitman “a flâmula do meu ânimo, cerzida em esperançoso tecido verde”, que o professor faz a maioria das descobertas sobre si mesmo, ao ar livre, a despeito de sua “vida de inibição e chances perdidas”. É ao ar livre, do mesmo modo, que David vai ao encontro de sua própria casa numa manhã que lhe “pesa nos ombros” e abandona o que foi ali. Mas o que descarta, “o vento devolve”. Estar nu diante do mundo, seguramente, não inclui armários.

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