Estou me guardando para quando o carnaval chegar: um filme sobre as transformações do mundo do trabalho


Marcelo Gomes, diretor de filmes  como “Cinemas, aspirinas e urubus” (2005) e “Era Uma Vez Eu, Veronica” (2012). Além de ganhar prêmios no Festival de Brasília e Gramado, recebeu Menção Honrosa na seção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián. 

Em seu mais recente trabalho, o documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (2019), Gomes mostra o cotidiano da população da cidade de Toritama, conhecida como a capital do jeans. O filme tem como foco principal o dia a dia de pessoas que trabalham assiduamente na fabricação de peças de roupas para serem vendidas nas feiras da cidade, e exportadas para todo o país. 

Segundo o diretor, que nasceu em Recife mas eventualmente ia à Toritama durante sua infância nos anos 1980, ele sempre teve o desejo de filmar a região e durante uma de suas passagens, cruzou com outdoors com modelos vestindo jeans. O motorista que acompanhava Marcelo contou que a população só para no carnaval, causando nele uma especulação interna acerca de coisas que ele não conhecia. Surge, a partir disso o interesse em fazer o documentário, um filme que o fizesse, de um jeito ou de outro, retornar para aquele lugar que ele conheceu na infância.

A cidade era tranquila e silenciosa,  anos antes do barulho de máquinas de costura de hoje.

Uma cidade de aproximadamente 40 mil habitantes, produz cerca de 20 milhões de peças de jeans por ano, um quinto da produção nacional. É neste cenário que o diretor se atenta e enxerga um novo modelo de produção, uma vez que, as pessoas que moram em Toritama trabalham 14 horas por dia em oficinas construídas em suas próprias casas, de maneira totalmente independente sendo, em alguma instância seus próprios patrões e que vêem o trabalho como aquilo que é fundamental para satisfazer suas necessidades. Carteira assinada não é uma prioridade, tampouco direitos trabalhistas, tais como: férias, décimo terceiro, seguro desemprego, mas sim produzir mais e mais peças. Quem faz pausa na produção não ganha, uma vez que se planejam o ano inteiro para quando o carnaval chegar, época em que a cidade fica vazia, pois os que trabalharam durante todo o ano vão à praia. Algumas pessoas chegam a vender seus bens materiais, como geladeiras e celulares. É, em suma, uma produção que questiona a nossa relação atual com o trabalho e o que fazemos com o nosso tempo. 

A produção frenética de calças jeans movimenta a economia de toda a cidade, gerações de famílias inteiras se dedicam ao trabalho sem parar, com pouquíssimas horas de descanso. 

O filme reflete muito bem as transformações da economia e da sociedade brasileiras e sobre o ser humano que está por trás daquela máquina, como ele encara a vida, como ele lida com o tempo, quais são os seus sonhos. O capitalismo nos coloca dentro de uma lógica específica: “Consuma, consuma, mas para isso, trabalhe, trabalhe, trabalhe!”. Onde fica a contemplação, o momento para você mesmo, onde fica a transgressão sobre a vida? Se você não tem esse momento para ficar consigo mesmo, você nem matura o sentimento da vida. A vida passa sem que você possa vivê-la.

A passagem da produção artesanal para a produção em série não é mais de acordo com as condições físicas e psicológicas de seus trabalhadores, mas sim uma forma de produção que visa o lucro. Há uma espécie de alienação, conceito marxista que de acordo com Karl Marx em Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), significa: “processo de exteriorização de uma essência humana e do não-reconhecimento desta atividade enquanto tal”.

Gomes faz um paralelo com o filme Tempos Modernos (1936), em que Charles Chaplin vivia o personagem Carlitos, em que era trabalhador em uma grande indústria, fazia em seu trabalho sempre a mesma coisa, diferenciando dos dias de hoje em que o mercado de trabalho quer profissionais polivalentes, mesmo realizando sempre a mesma atividade, o mercado exige que esse profissional conheça o produto final e outras diversas atividades dentro da indústria. Não só Carlitos, como muitos outros operários viviam a exploração dentro das fábricas devido à busca do lucro pelos proprietários, fazendo com que eles fizessem suas atividades muito mais rápidas para obter um produto final em menos tempo, fazendo seu trabalho de acordo com a máquina.

Mesmo sendo um tema pouco explorado no cinema, Gomes o fez com maestria. Um filme que fala muito sobre o Brasil e ao mesmo tempo toca em questões universais não foi merecedor de todo o hype de outros filmes contemporâneos a ele.

Ainda assim, fez parte da seleção oficial da Mostra Panorama do Festival de Berlim e recebeu Menção Honrosa do Júri Oficial e da ABD/SP, além do prêmio da crítica no Festival É Tudo Verdade 2019.

Posto no catálogo de filmes da Netflix no fim de 2019, vale a pena dar uma conferida!