Ferreira Gullar: a pluralidade da poesia

A pluralidade, subversividade e abrangência da poesia de Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, nome artístico de José Ribamar Ferreira. Foto: Folha de S.Paulo/Divulgação.

Uma parte de mim é permanente

Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem

Outra parte linguagem

– Traduzir-se, de Ferreira Gullar

Hoje Ferreira Gullar completaria 90 anos caso estivesse vivo. Ferreira Gullar… Por um bom tempo carreguei esse nome com certo conhecimento e desconhecimento ao mesmo tempo. Isso porque não conhecia a fundo quem foi, o que tinha feito ou mesmo sequer havia lido algum poema seu consciente de que se tratava de uma obra do Gullar.

Ao mesmo tempo, é um nome conhecido, importante e, sobretudo, poético. Não somente por ser o nome de um poeta, mas por ser inventado e, como o próprio José de Ribamar Ferreira – nome de nascimento de Gullar – afirmava, a poesia e a própria arte inventam novas realidades. Por isso poético, ou seja, inventado pela e para a poesia inventiva.

Vim conhecê-lo um pouco mais nesse período de quarentena em virtude da pandemia do novo coronavírus, momento em que chega a mim a frase dita por Gullar de que “A arte existe porque a vida não basta”. Frase esta que poderia muito bem ser usada como resposta sucinta do aumento do consumo de arte desde que se iniciou a decretação de isolamento social em março. Foi esta frase que me levou a buscar responder: quem afinal é o sujeito cujo nome eu carregava em meu esquecimento?

A pluralidade poética

Além de poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor, Gullar foi um subversivo. Não só por assim ser considerado durante o regime de ditadura militar, mas também assim o foi na poesia. Ele mesmo falava que era contra a maré da vez. Assim, pelo caráter revolucionário, Gullar possui em sua obra poética diferentes estilos e até mesmo obras com a ausência de um estilo específico.

O poeta iniciou sua produção com textos sob influência do simbolismo e parnasianismo presentes no seu primeiro livro: “Um pouco acima do chão” (1949). O lançamento do livro se deu antes de Gullar se deparar com a fase modernista, que a primeira impressão lhe causou rejeição, e num segundo momento, a aceitação.

Bebendo do modernismo e da quebra de padrões poéticos que o caracterizou, Ferreira começa um processo de contestação não apenas dos padrões da poesia, mas até mesmo dos padrões da linguagem. Tal conflito chega a um momento em que Gullar diz ter desintegrado a linguagem e a partir daí a reconstruído, de uma forma que possibilitasse o surgimento da linguagem ao mesmo momento em que nascia o poema. O resultado desse processo foi o seu segundo livro: “A luta corporal” (1954). Essa foi uma das obras que marcaria o início do movimento Concretista brasileiro, um movimento de vanguarda artística da época que tinha influência direta da arte visual concreta.

Porém, revolucionário poético que era, Gullar rompe tempos depois com o concretismo ao julgar que os padrões desse modelo de poesia, construída visualmente e sem discurso, estavam tomando caminhos deveras racionais e objetivos. Isso estava se dando de tal forma que parte do movimento concretista chegou a cogitar que a poesia seria feita a partir de então sob a influência de fórmulas matemáticas, o que de fato nunca chegou a acontecer segundo Gullar. Dessa forma, ele torna-se um dos precursores do neoconcretismo, que foi um movimento artístico iniciado no final da década de 50 que tinha influências no concretismo, mas que permitia espaço para a subjetividade e rejeitava a racionalização extrema da arte.

Posteriormente Gullar explorou também a poética do cordel e, entre os cordéis escritos por ele, destaca-se “João Boa-Morte cabra marcado para morrer” (1962), cujo título inspirou o clássico documentário brasileiro Cabra Marcado Para morrer (1984), dirigido por Eduardo Coutinho.

Poema Sujo

Apesar da qualidade dos poemas de diferentes estilos explorados pelo poeta, o seu poema/livro mais conhecido e ao qual foi atribuído mais importância social foi aquele que não obedecia a nenhum estilo especificamente. A obra em questão é “Poema Sujo”, longo poema escrito durante os meses de maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, período da ditadura militar em que Gullar se encontrava em exílio.

“O homem está na cidade como uma coisa está em outra

e a cidade está no homem que está em outra cidade”

Segundo o próprio poeta, é um livro diferente de tudo que ele havia feito, tanto pelas condições extremas na qual se encontrava devido ao exílio, quanto pelos padrões estilísticos da obra. Entretanto, não é um poema sobre exílio, mas um resultado do exílio, no qual o próprio Gullar tenta resgatar o país de origem no que ele tinha de mais afetivo, de mais próximo dele. Dessa forma, ocorre um mergulho num mundo de memórias tristes, dramas, miséria, sofrimento, coisas perdidas e ao mesmo tempo, de belezas pessoais e subjetivas.

Escrito como a última coisa que Gullar pensara que escreveria, Poema Sujo foi trazido por Vinícius de Moraes para o Brasil em uma gravação em áudio do próprio Gullar e, devido à repercussão que teve para os intelectuais no país, tornou possível as condições necessárias para que o poeta retornasse ao Brasil.

Foto do lançamento de Poema Sujo no Rio de Janeiro, sem a presença de Gullar devido ao exílio. Foto: site hypeness/Divulgação.

Para além da poesia

A obra artística de Gullar ecoou não somente pela poesia, mas, através dela, se fez presente também em outras vertentes artísticas. A primeira, cuja estreita relação já foi apontada aqui, é a arte visual. Essa relação se dá de uma forma de via de mão dupla, uma vez que foi bebendo das artes visuais que Gullar desenvolve sua colaboração nos movimentos concretista e neoconcretista e continuou exercendo uma importante função na inspiração do poeta. Tamanha era a influência que, em entrevista ao Roda Viva, programa televisivo da TV Cultura, em 2011, Gullar chegou a afirmar que lia mais livros sobre arte visual do que sobre literatura.

O próprio Gullar fez das artes visuais um hobby e chegou a fazer exposições com peças de sua autoria em 2014, chamada A revelação do avesso. A sua presença no mundo cinematográfico também já foi citada com o filme Cabra Marcado Para Morrer, no qual não apenas escreveu o cordel que inspirou o nome do filme como também é autor da narração.

Na vertente artística do teatro, Gullar ainda participou do grupo Opinião, durante os primeiros anos da ditadura. Foi nesse período que escreveu, junto a Oduvaldo Vianna Filho, a peça Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come, obra que através do humor contestava normas de conduta, valores e regras sociais.

Enquanto músico, talvez o espaço de repercussão de sua poesia que mais me chamou atenção foi na música. A primeira boa surpresa após começar a pesquisar sobre o poeta foi perceber o seu nome enquanto compositor de Borbulhas de Amor, canção gravada por Fagner e traduzida por Gullar da música espanhola, Borbujas de Amor, de Juan Luis Guerra. Entretanto, Fagner ainda gravou outros poemas de Gullar, entre eles Traduzir-se, que nomeia o álbum de 1981 daquele que ficou conhecido como um dos componentes do grupo Pessoal do Ceará; e Cantiga para não morrer talvez minha preferida das que foram musicadas pelo cantor e compositor cearense que na gravação de Fagner também é conhecida como Me leve

Além das músicas em parceria com Fagner, também vale destacar a presença da poesia de Gullar na meio musical através da canção Definição da Moça, feita em parceria com Adriana Calcanhotto e Onde Andarás, presente no primeiro álbum solo de Caetano Veloso. Outro célebre artista a cantar versos do poeta foi Milton Nascimento, que musicou e cantou trecho do Poema Sujo na música Bela, Bela.

Ferreira Gullar faleceu em 4 de dezembro de 2016 e deixou como legado a profundidade existencial, subversividade e abrangência de sua poesia, arte e intelectualidade.

“E na história dos pássaros

os guerreiros continuam vivos.”

Ferreira Gullar

Leia mais do mesmo colunista aqui.

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