Fevereiro sem frevo: aglomeração de lembranças

Sobre um fevereiro sem frevo que Pernambuco não reconhece: o não-movimento das ruas, saudades e a aglomeração de lembranças

Em registro audiovisual e em uma Olinda desconhecida por fevereiro, Wagner Duarte executa ao saxofone o célebre frevo “Hino do Elefante de Olinda”. Foto: Diego Nigro

De Colombina o infantil borzeguim

Pierrot aperta a chorar de saudade.

O sonho passou…

Manuel Bandeira

O mês de março já é visto na próxima curva da estrada e acabamos de passar pelo Carnaval a uma velocidade de 10 Megabytes, 15 MB, 3 ou 4G. O vi rapidamente pela janela cibernética. Olhei suas ruas estreitas e vazias e seus habitantes: senhores de idade olhando de seus portões o não-movimento das ruas, como se vissem caminhar suas próprias lembranças, suas próprias saudades, sem se reconhecer. Afinal, todos mudaram muito no último ano, pois nada como tempos difíceis para envelhecer o ser humano, para a criança crescer, à força, deixando para depois pequenos sonhos e grandes reencontros.

Eu sou um observador e ao mesmo tempo um desses habitantes olhando para minhas lembranças nessa cidade do espaço-tempo pernambucano chamada Carnaval. Boa parte do meu tempo dessa época passei em Caruaru, onde nasci, um dos pontos mais importantes no mapa carnavalesco até a primeira metade do século XX. Depois disso, declínio devido a evasão de parte da população pro litoral durante as festas e à diminuição do patrocínio dos clubes da elite para os blocos. Isso culminou no esquecimento da tradição carnavalesca por lá, de tal forma que boa parte dos mais novos habitantes nem sequer fazem ideia da história carnavalesca local. Como qualquer outra dessas terras brasileiras, herda do país o problema com a história cultural, tanto que se perguntar quem é o caruaruense Carlos Fernando poucos saberão quem é e o tamanho de sua importância para o frevo. Eu mesmo não sabia até um tempo atrás. Mas o espírito de Carnaval tem sido renovado por lá, desde quando, em um dia desses, um tal Bar Confraria da Sucata deu o pontapé inicial no processo de reciclar a festa.

Também passei pelo bairro de Bezerros da cidade Carnaval, com seus papangus fazendo as papagaiadas que os tornaram símbolos do carnaval no Agreste. Vivi boas e loucas tardes por lá. De Bezerros, seguindo o rastro do sol nascente durante o equinócio, chega-se a Recife, outro ponto importante para a festa e cujo silêncio de agora no Marco Zero seria irreconhecível nas Condições Normais de Aglomeração e Frevo – uma expressão cultural que nem rima, nem faz par com o isolamento social. O Rio Capibaribe não reconhece o reflexo que cria. As pontes do Antigo não reconhecem sua vaziez. O asfalto se desanima com tão poucos passos apressados para o show que acabaria de começar. E o ar chora um assovio que imita a última nota tocada no último frevo do último bloco de rua que por ali passou no ano passado.

Porém o caso é mais grave em Olinda. Lá o vento chora seco, o silêncio é o eco de outros silêncios, as ladeiras estão pra baixo e nos 4 cantos ninguém chegou. O sítio histórico parece mais histórico que de costume. Nele, há mais passado que presente, e nenhum futuro que se possa afirmar.

Até que um saxofonista aparece. Não é uma lembrança. É todo o bloco da saudade em um homem só e em um só instrumento. O ladrilho anda com ele e as ladeiras se inclinam no grau de costume. A música rasga o silêncio educadamente, pedindo licença, e o silêncio canta com ela, o vento canta com ela, e é até possível ouvir o coro da multidão que ali se encontrava no ano passado.

Aliás, que ano passado?! Viramos a curva do ano, passamos por janeiro como quem passa por um sonho, sem saber ao certo se realmente foi curto ou se apenas passou rápido, e cá estamos em fevereiro sem frevo e sem freio. 2020 não acabou. O ano novo não começou. Enquanto o frevo não for dançado pelas ladeiras, as marchinhas não forem entoadas nos blocos por multidões, os papangus não tomarem as ruas do Agreste e os tambores dos maracatus não ecoarem pelas ruas do Recife Antigo, o começo do ano para o folião pernambucano será apenas uma formalidade, e não um sentimento.

Leia mais do mesmo autor aqui.

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp