Frevoguing: resistência e tradição

O bailarino Edson Vogue fala sobre a mistura do ritmo pernambucano com a dança inspirada nas revistas de moda
edson vogue
Edson faz parte do grupo de frevo Guerreiros do Passo e é mother da Kiki House of Guerreiras. Foto: Divulgação

Surgido entre o fim do século XIX e o início do século XX, o frevo é parte essencial do carnaval pernambucano. Desde 2016, o tradicional ritmo é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). 

Popularizado na década de 1980, o vogue (ou voguing) cresceu entre as comunidades negras e latinas LGBTQI+ de Nova York. Os movimentos, inspirados nas poses das modelos da revista Vogue, eram dançados nos balls, festas da comunidade queer voltadas às competições e apresentações.

E foi juntando esses dois ritmos que o bailarino Edson Vogue criou o Frevoguing. Sua paixão pela dança começou ainda na infância: “Desde criança eu gostava de me movimentar, dançar, imitar os movimentos de personagens e outros seres. Mas, quando vi Madonna na TV, foi que eu disse que queria fazer a mesma coisa.” Em 1990, a cantora lançou a música “Vogue”, que tornou a dança conhecida em todo o mundo.

“O Frevoguing surge de uma inquietação através da minha busca pelo movimento: no grupo Guerreiros do Passo, eu fui estimulado a misturar estilos e passos. É uma junção que fica no limiar entre as duas modalidades, utilizando as bases organizacionais, princípios de movimento, fluência dos passos e as historicidades do frevo e do voguing. Em 2014, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca falam comigo sobre um projeto de vídeo instalação que abordava esse processo de passistas de frevo que dialogavam com outras modalidades e surgiu o “Faz que Vai”, o vídeo instalação que foi tema do meu TCC e iniciou as minhas pesquisas para o surgimento do Frevoguing.”

Edson participou da videoinstalação “Faz que Vai”, obra dos artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca que aborda as novas roupagens do frevo.

Com a crise do coronavírus, as atividades culturais sofreram um grande impacto. Edson, que também é professor de dança, reflete sobre o período: “O isolamento nos mostrou como a arte é importante e como as pessoas profissionais da dança são necessárias. Eu, particularmente, não pude fazer nada online por vários fatores e a volta aos poucos mostra que, mesmo a internet sendo uma ferramenta que nos dá acesso ao conhecimento e ao mundo, ela também pode ser elitista, no sentido de que nem todes na periferia possuem uma internet veloz ou um espaço para continuar suas atividades.”

Comemorado no dia 14 de setembro, em homenagem ao jornalista Oswaldo Vieira, conhecido como o criador da palavra, o frevo é, assim como o voguing, sinônimo de resistência. E Edson resume: “O frevo, para mim, é uma dança urbana e popular que traduz bem o sentimento de pessoas fortes, que fazem a cultura permanecer e sobreviver mesmo com altos e baixos. Mesmo quando não estivermos mais aqui, o frevo vai continuar vivo e a gente vivo com ele”.

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