Godard – 10 filmes do iconoclasta do cinema

Godard

Se a realização é um olhar, a montagem é um batimento do coração. Antever é próprio de ambos: mas o que uma procura antever no espaço, a outra procura no tempo.

Jean-Luc Godard – Cahiers du Cinéma nº 65

No final da década de 40, um jovem intelectual e ávido leitor franco-suíço descobria nas salas escuras de Paris uma intensa paixão pela imagem em movimento. Em 1952, junto com seus amigos cinéfilos, conhecidos como “jovens turcos” por suas ideias radicais, Jean-Luc Godard passou a escrever para a revista Cahier du Cinéma onde publicava textos críticos nos quais atacavam o chamado “cinema de qualidade” francês e defendiam e glorificavam o cinema clássico americano baseado na sua tese de “cinema de autor”, no qual o diretor é o artista principal, aquele que escreve com sua câmera. 

Essa fase crítica foi de extrema importância na obra de Godard como diretor. Mesmo em sua carreira de cineasta, ele nunca deixou de ser uma espécie de crítico, um artista que reflete sobre seu ofício. 

Nos seus filmes, Godard examina e comenta sobre o  processo de criação, a história e a mitologia do cinema. Seu espírito iconoclasta aparece em sua desconstrução da linguagem na qual o intuito é investigá-la, estudá-la através dos fragmentos captados por sua lente. 

Já no início de carreira surgiu como um dos promissores cineastas da Nouvelle Vague – famoso movimento do cinema moderno – no qual sua câmera funcionava como uma espécie de martelo usado para demolir a mise-en-scène clássica. Nessa fase, Godard buscou evidenciar a sujeira, romper com o cinema invisível, direcionar suas lentes para a costura do vestido, sobretudo com sua estilização da montagem fragmentada. Nesse sentido, grande parte da obra de Godard gira em torno de fazer um cinema consciente de que é cinema.  

Em uma difícil missão,  trago aqui dez filmes para iniciar na extensa filmografia deste que é um dos cineastas mais icônicos da história da sétima arte.

ACOSSADO (1960)

Esse é um dos filmes mais relevantes de Godard e seu primeiro longa-metragem. O filme acompanha um criminoso que mata um policial e foge para Paris, onde se encontra com uma mulher enquanto é perseguido pela polícia. A obra tem várias referências do cinema policial americano e possui um roteiro livre, com uma mise-en-scène quase documental, repleto de  improvisações dos atores, além da inovação nos diversos jump cuts (cortes em um mesmo plano) e na decupagem fragmentada. Acossado ficou conhecido como um dos filmes mais importantes da Nouvelle Vague e está presente em quase todos os almanaques de cinema.

VIVER A VIDA (1962)

Ao contrário de Acossado, essa obra possui um maior foco na narrativa e, através de doze contos episódicos, acompanhamos uma mulher parisiense em sua entrada no mundo da prostituição. Mesmo mantendo sua decupagem mais livre, os planos fixos e a direção mais formalista marcam uma abordagem mais metódica de Godard.

O DESPREZO (1963)

Paul Javal é um escritor que é contratado para refazer – com um toque mais comercial – o roteiro de um novo filme sobre Ulisses, que será dirigido por Fritz Lang – interpretado por ele mesmo. Porém, durante a produção, o casamento de Paul com Camille – interpretada por Brigitte Bardot – entra em crise e vai se desintegrando pouco a pouco, assim como sua consciência de artista. O filme discute a relação entre a arte como produto e como um movimento interior do ser, desse modo, Godard insere dentro da obra reflexões e questionamentos sobre o cinema. Nesse filme ele faz um movimento dialético, busca um realismo com planos sequências longos, mas, após estabelecer esse clima naturalista, ele rompe isso totalmente – em momentos pontuais – inserindo uma montagem estilizada, desconexa e irreal.

O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (1965)

Um dos filmes de Godard mais conhecidos pelo público geral, a obra acompanha Pierrot, um homem entediado com a superficialidade à sua volta, que foge de Paris com uma mulher perseguida por assassinos da Argélia, e vai até o Mar  Mediterrâneo onde levam uma vida afastados de regras e convenções. O filme gira em torno do movimento, de um certo escapismo e é caracterizado por sua montagem fragmentada. Ao contrário das obras anteriores, nesse filme a mise-en-scène possui uma estética bastante plástica e passa uma certa leveza juvenil, explorando uma grande riqueza visual através das cores, das panorâmicas da paisagem mediterrânea e da direção de arte. 

A partir da metade dos anos 60, Godard cria o Grupo Dziga Vertov junto com Jean Pierre Gorin com o intuito de fazer filmes  políticos. Mesmo nessa fase de militante, que dialoga com o momento vivido pela França com os protestos de jovens e trabalhadores, não há um apelo sentimental e panfletário em suas obras. Em vez disso, Godard propõe reflexões conceituais sobre os temas discutidos – sua lente ainda é dotada de um caráter ontológico.  Seus filmes são confusos e fragmentados – o que é motivo de crítica por muitos – porém ainda assim possuem uma evolução rítmica bem articulada e elementos que juntos criam um universo de possibilidades em seus significados.

A CHINESA (1967)

Um pequeno grupo de estudantes franceses estuda Mao com o intuito de descobrir sua posição no mundo e de como transformar o mundo em uma comunidade maoísta através terrorismo. Neste filme Godard explora uma mise-en-scène teatral a partir de cenários e atuações “artificiais”. Mesmo tratando de temas ideológicos como o maoísmo, não há um didatismo comumente visto em filmes desse gênero, e a desconstrução narrativa característica de seu cinema ainda está presente.

TUDO VAI BEM (1972)

Através da vida de um casal em Paris, essa obra reflete sobre relacionamentos e revoluções e aborda uma greve em uma fábrica e a situação dos trabalhadores nela. O filme possui um teor mais teatral, chegando até a mostrar cenários como palcos em momentos pontuais. Durante as filmagens, Godard sofreu um sério acidente que o deixou em coma, por conta disso o filme foi mais dirigido por Jean-Pierre Gorin do que ele.

Após sua fase política, Godard junto com sua esposa Anne-Marie Miéville, outra cineasta, fundaram um estúdio de experimentações audiovisuais chamado Sonimage, no qual produziram trabalhos para a televisão focado na experimentação digital. 

FRANCE/TOUR/DÉTOUR/DEUX/ENFANTS (1977)

Série produzida para a tv francesa, é uma das mais importantes desta fase. Nessa série, crianças são entrevistadas e dialogam sobre perguntas variadas, do cotidiano ao existencial. Através desse formato, há uma reflexão sobre elementos essenciais da linguagem e da comunicação Além disso, também há uma crítica ao ambiente urbano e à civilização.

Já na década de 80 Godard entra em uma fase na qual seu cinema mistura elementos das fases anteriores, como o narrativo, o político e da experimentação em vídeo. 

SALVE-SE QUEM PUDER (1980)

Primeiro grande longa de Godard após a fase política, é um exame das relações sexuais, em que três protagonistas interagem de diferentes maneiras e combinações. A obra é filmada em película, no entanto possui características da montagem em vídeo, como pausas nas imagens e slow motion. Além disso, também há um retorno à premissa da mulher que vende seu corpo, temática exibida em filmes da Nouvelle Vague.

PAIXÃO (1983)

Nessa obra, Godard nos insere em um set de filmagem e explora a natureza do trabalho, do amor e da produção cinematográfica.  Ele recria pinturas clássicas com os próprios atores e as coloca em outra dimensão, tendo um “filme dentro do filme” e reconstrói com fidelidade os elementos das pinturas de artistas como Rembrandt e Goya, principalmente com o uso da luz, que cria uma nova dimensão a essas obras . Também há um viés político e narrativo, sobretudo quando se foca na personagem de Isabelle Huppert, que interpreta uma operária.

Nos últimos anos Godard passou a fazer filmes mais ensaísticos, como documentários que misturam linguagem poética, cenas de ficção e imagens de arquivos. A obra que mais se destaca nesse período é:

ADEUS À LINGUAGEM (2014)

Filme experimental gravado em 3D, possui cenas de ficção – na qual apresenta um paralelo entre um casal e um cachorro-, no entanto, a beleza e riqueza do filme está na exploração imagética, no apuro sensível de misturar o ficcional e o documentário, de fundir linguagens totalmente diferentes em uma mesma obra. Podemos enxergar esse filme como uma síntese do cinema de Godard, no qual sempre busca explorar a riqueza do cinema, seu não determinismo, sua capacidade de, mesmo através do uso de diversos elementos à primeira vista excludentes, jamais perder sua essência sensorial e simbólica.

Godard

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