Intimidade e alheamento em “Maboque”, de Tina Vieira

Reflexões sobre a relação entre o livro "Maboque", de Tina Vieira, e temas como a morte, o desterro e a memória

Livro “Maboque” de Tina Vieira, editora Quelônio. Foto: Divulgação.

Ao lado de Encarna, Leonor vai à Ribeira. Faz tempo que a primeira não vê o rio Douro e, diante dela, a segunda não consegue, com certa culpa, não ver um “sonho roto”  — uma senhora cheia de achaques que precisa dela mais pela companhia que pelo cuidado e que teima a continuar vivendo, mesmo tendo envelhecido “sem cruzar a linha de chegada”. Então, paga um táxi para que ela veja mais uma vez a paisagem de sua juventude. Já sob a brisa do rio, entre algumas lojas de souvenirs, Leonor compra um azulejo com um poema de Fernando Pessoa: “Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão entrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos”. Leonor, enfermeira, vive de meter-se na intimidade dos outros, uma privacidade puramente superficial, que nada diz demasiadamente, apesar da ilusão de transparência. Logo, ela, uma profissional em espiar pelo “buraco da fechadura” de seus pacientes, não sabe quem é o próprio pai, com quem conviveu por toda a vida. 

É assim que, a protagonista de “Maboque” (2020), primeiro livro de Tina Vieira, publicado pela editora Quelônio, percebe-se ainda mais alheia à tudo, quando precisa enterrar seu pai. Depois de uma cerimônia estranhamente vazia, de gente e sentido, Leonor entra na casa de sua família, aparentemente repleta apenas de memórias dos outros, mas que não deixam de dizer algo sobre ela, alguma coisa, porém, quase inalcançável. No centro dessa incógnita, está o pai, recentemente falecido; um parente que jamais conseguiu, de fato, entender em sua sisudez, doença hereditária. E, consequentemente, como tudo que se torna enigma, ele também se transforma em fascinação e mania — Leonor é uma personagem edipiana que, na ausência do pai, involuntariamente, deixa o seu subsolo na esperança de aproximação com qualquer figura remotamente paterna: em dado momento, o autoritário amigo/namorado Fernando e, em seguida, até mesmo, o velho Joaquim, esposo de uma de suas pacientes. Porém, o pai biológico continua à espreita, como um espectro fundamental que a persegue e, no entanto, quem era? 

À essa pergunta, ele mesmo responde. A narrativa em primeira pessoa de Leonor é, esporadicamente, interrompida pela interferência de Carlos, o pai, que diante da iminência da morte escreve uma espécie de diário epistolar à filha, na tentativa de finalmente existir para ela ao contar-lhe sobre si, uma vez que, “uma história sem contar, é uma história que não existe”. Antes das cartas, ela sabe sobre ele apenas o captável à observação: um homem nascido em Portugal, nos anos 40, viúvo e austero demais – jamais a tinha abraçado. Paradoxalmente, chorava assistindo novelas da Globo, em cenas tristes e felizes. Também chorava em companhia de animais e, às vezes, parecia chorar sem motivo algum, ainda que disfarçadamente; um fenômeno chamado labilidade emocional, que Leonor prefere denominar como “angústia de viver em estado bruto”. 

Carlos, entretanto, é português, angolano e brasileiro. Nascido em Portugal, é obrigado a sair de casa para trabalhar cedo demais, um abandono que não esquece e também não perdoa; durante toda a juventude odeia os pais, mas depois, na velhice, culpa-se por isso: “tudo correu conforme a ordem natural das coisas, tão natural que chega a ser estúpida: cada um faz o que pode, com a certeza de que está a fazer o melhor. Ou, pelo menos, o melhor naquela altura. Eu não fui diferente deles”. Mais tarde, vai tentar a vida em Angola, quando prova, pela primeira vez, a fruta que dá nome ao livro: “Sentado naquele quintal em mangas de camisa, descalço, na companhia de pessoas que nada sabiam da minha infância, com um maboque aberto nas mãos e o caldo amarelinho a escorrer pelos cantos da boca, senti que tudo me seria permitido”.  E Leonor que acreditava serem os figos sua fruta preferida!

Com efeito, depois que vai embora de Angola, Carlos nunca mais come maboques, uma dádiva angolana inacessível no Brasil e em Portugal, bem como a pretensa liberdade espiritual que, também, só experimenta nas ruas de Luanda. Pobre e insignificante a vida inteira, sua branquitude e nacionalidade faz dele gente no meio dos negros de um país colonizado em constante exploração. Porém, mesmo sob o julgo das diferenças sociais, Carlos faz um amigo angolano, o primeiro e o único. Portanto, começa a viver, de fato, em outro continente, com outro trabalho, outras relações, outra vida, uma que, fatalmente, é interrompida muito depressa: Carlos volta à Portugal e casa-se com a mãe de Leonor. A filha, no entanto, nasce somente no Rio de Janeiro, dois anos depois que o casal decide mudar-se para o Brasil, onde Carlos adquire nova pátria, ao encontrar outras paixões, que não o maboque, em terras brasileiras.

Embora o Rio se torne, para ele, uma casa, é apenas mais uma, dentre outras que, agora, não consegue mais esquecer. Assim, Carlos, meio português, meio angolano e meio brasileiro, não é, inteiramente, nada. Não obstante, vai esperar a morte em Portugal, num último ensaio de pertencimento — “pois aqui o tens, pai, o bendito solo português. De que te serve?”. E, antes do fim, no delírio que parece ser sempre precedente, chega a ver a mãe com um maboque na mão, como se ela a tivesse algum dia provado. Pois então, adianta pouco, a liberdade que Carlos busca no Brasil e em Angola, porque, no último minuto, sabe que é somente o nono filho, insubstancial, escravizado muito cedo, sem que, ainda, consiga livrar-se do que foi em Luanda e no Rio. Como bem disse Pessoa, de que adianta as paisagens, “se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma”?

Tamanho estrangeirismo, vivenciado por pai e filha, é essencial na narrativa e é, sem dúvidas, um dos fatores mais interessantes do livro, que mescla, em construção e linguagem, a cultura de três continentes. Tal qual o pai, Leonor é “portuga” para o Brasil e, “brazuca”, para Portugal, e, durante a infância, o aceita resignadamente, “sem ainda ainda ter consciência de não pertencer a nenhum lugar”. Quando a mãe morre, dois anos antes do pai, Leonor vai à Portugal e, mesmo depois que ele também falece, continua em Porto, adiando qualquer decisão permanente sobre onde ser “estrangeira de uma maneira menos nociva, na cidade onde nasci e meu sotaque não chama a atenção de ninguém, dando a ilusão momentânea de que pertenço ao lugar, ou no país de origem dos meus pais, onde ninguém me conhece e, portanto, não preciso ter vergonha de nada”. 

Logo, Leonor sabe que estrangeiro é uma colocação desfavorável, uma denúncia de incomunicabilidade, porque tudo que está fora de nós, nos é estranho. Todavia, o parentesco se coloca como paradoxo: Carlos é alheio à Leonor, mas se faz presença intrínseca e inelutável, “num quartinho discreto, sem se fazer notar, salvo quando assomava a cabeça na porta e surpreendia por não ter reparado na sua presença antes”. Conquanto o pai se faça mistério, este se mostra, curiosamente, parte fundamental de Leonor que, só de vez em quando, ela consegue vislumbrar, e não sem alguma inquietude: “preocupa-me a procissão que caminha por dentro”. Procissão essa que se configura do pai, tal qual dos pais dele, os avós indiferentes, que ele próprio passa a entender como semelhantes. Equitativamente, Carlos vê-se na filha em seu retraimento reflexivo. Aí está a herança paterna, esse estrangeirismo de tudo, inclusive de si mesmo. 

Em certo momento, Fernando, o namorado, diz que as pessoas têm uma determinada trilha sonora, menos musical e mais conceitual, uma composição feita de lembranças e pensamentos contínuos. Para ele, Leonor é a trilha sonora de um filme de Lars Von Trier, não sabe qual. Ela, no entanto, viu do diretor apenas “Dançando no Escuro” e a desagrada a comparação. No filme, Bjork interpreta Selma, uma imigrante tcheca que trabalha no Estados Unidos como operária e, guarda, com afinco impressionante, todo o dinheiro que consegue juntar para operar o filho – ambos possuem uma doença hereditária que resulta em cegueira. Selma já está quase cega e faz pouquíssimo por si mesma, contentando-se em “sonhar acordada” – na sua imaginação, a vida é um musical, o que torna sua história muito bonita, mas, sem dúvidas, frustrante: “Passei todo o filme com vontade de dar uma surra na protagonista, sacudi-la, fazê-la despertar, reagir, sair do delírio bobalhão em que parecia estar imersa a maior parte do tempo, abraçar a vida, a sua, não a do filho”. E, contudo, gosto da associação, porque faz todo sentido. Leonor, também, vive parcamente e é apaziguada com muito pouco — Selma sustenta-se de música e, ela, de memória, a sua e as dos outros. Assim, Leonor chega a conclusão de que sequer existe: “Que as funções vitais estejam cumprindo o que se espera delas não deveria ser requisito suficiente para dar uma pessoa como viva”.

Não obstante, a memória que a alimenta é pouco confiável, tal qual sempre é, em natureza, essa “costureira caprichosa”, nas palavras de Virginia Woolf. Sua imagem do pai, então, nada mais é que um amontoado de lembranças discutíveis, idealizações e interpretações completamente parciais, “imaginação sensível de nós mesmos”, um esforço contra o vácuo: “Uma biografia é sempre uma reconstrução onírica da realidade”. E, no entanto, a elaboração que Carlos faz da própria figura é pouco melhor; ainda que Pessoa esteja certo e, de fato, nunca possamos desembarcar de nós, expressar plenamente à si é um projeto ingênuo, pois que, nem Carlos o conhece por inteiro — “Quantas vidas cabem na vida de um homem?” —, tampouco se conhece Leonor, sobressaltada com suas “procissões” internas. 

Como resultado, a narrativa é repleta de vaivéns tendenciosos — a palavra vai de um ao outro, na tentativa de construir um único retrato de família, todo romântico — a filha busca entender o pai e o que de seu restou nela e, Carlos, procura fazer-se entender, calado a vida inteira. Porém, a voz lógica de Fernando chega aos ouvidos da consciência de Leonor: “Não confunda a representação do objeto com o objeto em si. Esse é um erro primário”. Portanto, Maboque é um livro de prosa fragmentada, em voz, tempo e espaço. Mas estas peças distintas convergem-se de maneira  coerente, apesar de serem perceptivelmente diferentes. A narradora Leonor não compartilha a mesma linguagem do narrador Carlos e, a constância com a qual disputam a narração, sem causar descontinuuidade, é uma qualidade considerável na escrita de um autor estreante. 

Aliás, a escrita de Tina Vieira já é bastante madura na percepção das intimidades de seus personagens, mesmo os menos relevantes. É curioso este antagonismo entre a impossibilidade de apreensão do outro, sobre quem “nunca saberás nada, deveras importante” e, ao mesmo tempo, essa ficção repleta de inserção e perspicácia. Quem sabe, como dizia Proust, a literatura não faça mesmo melhores julgamentos das pessoas (não só ficcionais), que a nossa mera observação de comuns espectadores? Assim, o narrador deixa de ser personagem de vez em quando, ainda que a maior parte da narrativa oscile entre as vozes limitadas de Leonor e Carlos. Em suma, “Maboque” é um lançamento nacional contemporâneo interessantíssimo, de uma autora nascida em Luanda e criada no Brasil, com uma observação sagaz de países tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão análogos. É, também, interessante o trabalho da editora Quelônio, em particular, a coleção Valsa de Esquina, uma série de literaturas, visto que a produção atual “desconhece limites de gênero, estilo ou tema”. Pois o romance recortado de Tina Vieira ilustra bem essa ideia.

Leia mais:

“Pietá por Carrascoza”, de Thamara Amorim

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp