Ivan Ilitch somos nós

Em meio à pandemia do coronavírus, uma releitura de “A morte de Ivan Ilitch” de Liev Tolstói


Liev Tolstói foi um escritor russo, autor de livros como Ana Kariênina e Guerra e Paz, entre outros romances, contos e novelas. Foto: Divulgação.

Aparentemente, cresceram as buscas por “A peste”, de Albert Camus. É também notável o crescimento das vendas de livros como “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “Estação Onze”, de Emily St. John Mandel; desde que se iniciou o surto mundial da Covid-19, as pessoas passaram a ler mais sobre pandemias. Não todas! Algumas preferem buscar o alento imaginativo da literatura para refugiarem-se: Stephenie Meyer vai lançar mais um livro para a saga “Crepúsculo” . Vi uma extraordinária quantidade de pessoas adultas nas redes sociais relendo “Harry Potter ” e outros clássicos juvenis; de repente, estamos sob o agridoce feitiço da nostalgia. Também vi pessoas que, a propósito, pouco leem, comprando livros políticos como “1984” e “A revolução dos bichos”, de George Orwell; assistindo ao desastre – longamente iniciado! – que é o atual governo, sentimos a necessidade de pensar a história, o fascismo, e como que chegamos à tão degradante ponto?! Por outro lado, vi gente que não consegue mais ler. As atividades silenciosas e reflexivas tornaram-se tão labirínticas no nosso mundo frenético e globalizado que, quando este mesmo mundo pára, e paramos junto com ele, o silêncio e a reflexão nos aborrecem tremendamente.

Enquanto escrevo esta coluna, há 66 dias que não vou sequer até a calçada. Seguramente, é a maior quantidade de tempo que passei dentro de casa, do quarto para cozinha, da cozinha para sala de estar e, novamente, para o quarto…Durante esse período passei por todas as fases literárias citadas acima. A primeira delas, assim que as notícias formais e os trending topics do Twitter passaram a me sobrecarregar, foi a desesperada tentativa de esquecer a situação atual e ler desenfreadamente. Depois, no suprassumo da consequente nostalgia que persegue os isolados, comecei a reler alguns dos meus livros preferidos da infância e adolescência, experiência das mais interessantes e menos estéticas: alguns livros devemos deixar nos bons (e pouco exigentes) dias da puberdade. Mais tarde, já um pouco afastada dos noticiários, me peguei adicionando inúmeros livros sobre surtos virais na minha lista da Amazon, excessivamente curiosa acerca dos padrões históricos das pandemias. E então, motivada pela culpa do deliberado desligamento das notícias escabrosas do país, me deparei às voltas com  Žižek, Krenak e Marx – atualmente penso mais em como “tudo que é sólido desmancha no ar”. Finalmente, em meio ao torpor e a inquietação da excruciante situação nacional, à beira de uma ressaca literária, fui até a estante, meio nostálgica e meio sombria, e decidi reler “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Liev Tolstói. 

A releitura desse, que é um dos livros mais importantes na minha formação como leitora, foi, sem dúvidas, acertada. Em face da trajetória de um homem que, sozinho, espera a morte, sob o constante frenesi da hipocondria e o entorpecimento da sensação de negação e irrealidade, me perguntei: O que acontece quando nossos medos são válidos? Durante uma pandemia, a morte parece mais palpável, e os temores que a acompanham parecem menos com mania e obsessão para, subitamente, se tornarem legítimos. Logo, passamos a consumir o fim, o trivial ou o apocalíptico mais vorazmente. Claro, a morte sempre foi um tema de grande interesse público e continuará sendo, pois ainda em sua ausência, se faz inerente à nossa vida. Assim, poderia ter relido outros livros (Todos os homens são mortais, O diário de um homem supérfluo, Hamlet, O lobo do mar…), e pensei em todos eles. No entanto, o que me fez escolher essa novela de Tolstói, além da minha característica preferência pelo autor, foi a vontade de observar como uma vida simples se depara com a doença e com a morte e, mais importante, sente medo; experiência tão distinta e, curiosamente, similar à nossa, ainda que não estejamos doentes. O que me interessava, portanto, era pensar o desafio da ordinariedade, pois é com ela que estamos isolados em casa: nossa vida, por mais corriqueira e pacata que pareça, em constante revista. Parece vulgar demais falar da necessidade de reflexão durante a quarentena (assunto tão comum nos meus grupos familiares do Whatsapp), mas não é necessidade, é uma consequência do isolamento e, afinal, que há de mais vulgar que nós mesmos? 

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A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares e, contudo, das mais terríveis.” 

Alto funcionário público, pertencente à burguesia russa, casado comodamente com uma mulher que o exaspera, pai de filhos que pouco o concernem, obcecado pelo trabalho e por sua posição social, Ivan Ilitch vive como qualquer senhor da classe média moscovita do século XIX. Depois de uma decepção profissional, sobe de cargo e o aumento de salário é suficiente para que compre uma nova casa, onde decide decorar os aposentos originalmente, com todas as qualidades da moda atual, claro. Durante a decoração, no entanto, machuca o lado esquerdo do corpo e adoece: encontra a morte pela primeira vez e toda a sua confortável vida perde o sentido. 

Primeiro, não há sintomas e orgulha-se de sua saúde: “Felizmente eu sou um tanto atleta. Outro no meu lugar, estaria morto.” – a semelhança com certo discurso contemporâneo é angustiante. Em seguida, ao perceber-se doente, irrita-se. É uma inconveniência tamanha, que não cabe nos horários de Ivan Ilitch. Mas ao questionar-se sobre a seriedade do problema, compreende que a situação é mais que apenas inconveniente – lembremos que a “gripezinha” já matou mais de 16 mil pessoas só no Brasil.  Por conseguinte, de pronto aterroriza-se. Sente-se demasiadamente só e a saúde e normalidade costumeira das outras pessoas o perturba. De médico em médico, sem a certeza de diagnóstico, cai em superstições,  questiona a ciência, surpreende-se com a própria insanidade. De início, o medo expressivo em adição à aparente regularidade do comportamento das pessoas ao seu redor, parece hipocondria e isola-se.

No isolamento da morte, então, acha o sofrimento de tal intensidade que parece irreal: “Não é possível que todos os homens estivessem condenados a sofrer um medo assim”. E, em um dos momentos que considero dos mais grandiosos na obra de Tolstói, Ivan Ilitch relembra o silogismo de Kiesewetter: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”. O protagonista, homem razoável, nota que a mortalidade de Caio é nada menos que plausível. Não obstante, a sua, tão homem quanto Caio, é impossível. Quem é Caio de quem nada sabemos? Quais são suas lembranças, de quê brincou na infância, por quem e pelo quê se apaixonou? Por qual ideia discutiu? Caio não tem nenhuma de nossas particularidades. E, apesar disso, na primeira vez que li esse trecho, achei que Caio éramos nós. Depois da releitura, contudo, penso que não somos Caio. Caio é, de fato, uma abstração científica e racional: nós somos a simplicidade, a vulgaridade e a tragédia de Ivan Ilitch. 

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Evidentemente, nem todo mundo vai morrer de coronavírus, apesar dos áudios hiperbólicos que às vezes recebo no Whatsapp. Esta não é a primeira e nem será a última pandemia, além de que, muitos de nós não teremos grandes problemas se infectados. Todavia, não sabemos exatamente para que país voltaremos depois disso e um surto como esse é bem mais que só uma crise sanitária. Decerto ficamos mesmo mais fatalistas.

Lembro do primeiro capítulo do livro, que inicia-se com a descoberta da morte de Ivan pelos seus amigos e colegas de trabalho. Acompanhamos, sobretudo, Piotr  Ivánovitch, conhecidamente amigo do protagonista, obrigado à ir ao funeral, sem muita disposição para isso. Na presença do conhecido morto sente-se chocado de medo, mas, depois, ao encontrar-se na sala contígua com o indiferente Schwarz, esquece-se da morte, destino de Ivan Ilitch e não dele, e vê-se muito tentado a jogar cartas. Contudo, aparece a viúva que, sabendo ser ele amigo do falecido e, também, advogado, o chama aos aposentos do marido para uma conversa. A mulher conta dos assustadores últimos dias do morto e Piotr, novamente, perturba-se: “Três dias de horríveis sofrimentos e depois a morte! É coisa que pode acontecer a mim também, a qualquer momento!”. Mas ao fim da conversa, sai Piotr e percebe que ainda é cedo; vai à casa de um amigo vivo jogar uma partida. Em contrapartida, no isolamento não temos a mesma sorte de Piotr. Sob o constante fluxo de notícias intimidantes, bem como, aos primeiros rumores da infecção de nomes conhecidos, nos deparamos com a morte e, diante do abismo coletivo, olhamos para o nosso abismo individual, sem sequer poder sair e, quem sabe, mitigar as preocupações. Em vez disso, temos que desinfetar as compras, higienizar o celular, passar álcool nas maçanetas, checar se nosso parente do grupo de risco tem seus talheres limpos e separados…