Jorge Amado: O eterno legado

Alguns comentários e indicações a respeito de uma referência brasileira, cuja obra desconhece limites

Autor de obras como “Suor” (1934), e “O amor do soldado” (1947) faria 108 anos na última segunda (10). Foto: Reprodução – Todavia.

Nas ondas verdes do mar meu bem/ Ele se foi afogar/ Fez sua cama de noivo/ No colo de Iemanjá”

– Dorival Caymmi, “É doce morrer no mar”, lançada em 1954

“Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes, cinco nomes doces que todo o mundo o sabe”

– Jorge Amado, “Mar Morto”, 1936

Semana do aniversário de Jorge Amado, o baiano de Itabuna, nascido numa fazenda que hoje pertence a Ilhéus. Filho de fazendeiro e iniciado a Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, Jorge Amado deu voz ao povo preto numa época ainda mais marcada pelo racismo estrutural que a nossa. Falou de empoderamento feminino quando esse conceito ainda não existia. Em muitas de suas obras, denunciou os dissabores das relações abusivas, como em “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1966. Defendeu abertamente a libertação sexual das mulheres, àquela época expulsas de casa ao perderem virgindade antes do casamento, em “Tieta do Agreste”, de 1977. Além da problemática da queda da Ordem do Pai e do desmonte do Patriarcado, Jorge valeu-se da fábula bíblica do filho pródigo para denunciar crimes ambientais, já que havia iminência de instalação de uma fábrica de dióxido de titânio na Bahia. Tanto em “Jubiabá” (1935), quanto em “Tenda dos Milagres” (1969), e em muitos outros, Jorge antecipou-se ao debate sobre políticas inclusivas, afirmativas, identitárias, e de cotas para a população preta. “Tenda dos Milagres” é sua obra mais explícita sobre a importância e necessidade de reserva de vagas para população negra nas universidades e acesso ao ensino público de qualidade.

E o que dizer de Mar Morto, de 1936, uma crônica social sobre a precária situação dos pescadores da Bahia? Nossos tempos certamente reconfiguraram a questão, de modo que ela hoje aparece travestida na falácia dos “Micro Empreendedores” ou “Parceiros”, com bicicletas do Itaú, fazendo entregas de Ifood, e sendo motoristas de Uber. Nossos tempos fizeram nascer um termo que Jorge Amado não conheceu, mas que já no início de sua obra, falava de sua antipatia pelo assunto: uberização. “Mar Morto”, além de tudo isso, é o livro através do qual Jorge valeu-se da literatura fantástica e do mito yorubá sobre o amor de Yemanjá e Ogum, para denunciar opressão, desigualdades, e necessidades de implementação de direitos trabalhistas.

Em 1996, o escritor português José Saramago visita a Bahia e hospeda-se na casa de Amado. Essa amizade resultou em diversas cartas que desembocaram na publicação posterior e epistolar de “Com o mar no meio: uma amizade em cartas” (2017). Foto: Zélia Gattai/Acervo Zélia Gattai – Fundação Jorge Amado

Ah! Capitães da Areia, de 1937, sua obra mais lida nas escolas, e dos livros amadianos, o mais vendido. Hoje, meninos como Pedro Arcanjo são mortos pela polícia nas favelas do Rio de janeiro, e seus corpos velados sob gritos e apelos de que “bandido bom é bandido morto”. Naquela época, Capitães de Areia representou uma fresta de luz no debate acerca dos direitos da criança e do adolescente, cujo estatuto só foi implantado em 1990. Jorge, como Carlos Mariguella, viveu duas ditaduras: a do Estado Novo, de Getúlio Vargas, e a do Golpe civil-militar de 1964. Os anos de terror do Estado Novo estão retratados na trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”, de 1954.

Jorge Amado levou o Brasil para o mundo. Sendo nordestino e baiano, foi eleito deputado federal por São Paulo, e legislou na constituinte de 1946. Foi o principal autor da lei de liberdade de culto no Brasil, que descriminalizou o Candomblé, a Capoeira e o Samba. Jorge Amado era ateu, mas ocupou a quarta cadeira à direita, no Ministério de Xangô, acompanhado de figuras como Gilberto Gil e Dorival Caymmi, seu eterno amigo e parceiro. Além de romances e contos, Jorge Amado escreveu duas biografias: uma em homenagem a Luis Carlos Prestes – “O cavaleiro da Esperança”, de 1942 –, e “ABC de Castro Alves”, de 1941.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.

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