Karol Conká e a falsa justiça de quem cancela o cancelador

Quais os efeitos reais de uma prática que silencia e exclui quem ousa errar?
Karol Conká e a falsa justiça de quem cancela o cancelador. Quais os efeitos reais de uma prática que silencia e exclui quem ousa errar?

Karol Conká (ao meio), Gabriela Pugliesi (à direita) e Kevin Hart (à esquerda), os cancelados. Montagem: Stephanie Sá.

Desde que foi anunciada como participante da 21ª edição do Big Brother Brasil, a rapper Karol Conká tem sido o foco de diversos comentários na internet. Se, num primeiro momento, o anúncio foi motivo de celebração, a trajetória da cantora dentro da casa não fez jus às altas expectativas de seus fãs e seguidores, e reacendeu a discussão sobre os limites do cancelamento e os reais efeitos desse movimento que promete fazer “justiça com as próprias mãos” de modo distorcido.

Mais do que coreografias do TikTok ou tendências do Instagram, esse é o real fenômeno da internet no momento: a prática de um linchamento virtual disfarçado de militância. Não à toa, o termo “cultura do cancelamento” foi eleito como a expressão do ano em 2019 pelo Dicionário Macquarie, e tem ficado ainda mais forte com o passar do tempo.

Ao longo das quatro semanas que passou no reality show, Karol vivenciou os dois lados da moeda, cancelando e sendo cancelada quase que simultaneamente. Durante o programa, a participante foi peça-chave em conflitos graves que envolveram tortura psicológica, xenofobia e narrativas distorcidas. No tribunal da internet, que é rápido e nem sempre preciso, há quem já tenha apresentado até diagnósticos: mitomania, perversão, transtorno de personalidade.

Seja qual for a motivação por trás de comportamentos tão nocivos, o inegável é que a participação gerou uma comoção nacional. Memes, tweets e até anúncios publicitários coroaram a eliminação como um espetáculo midiático de proporções grandiosas. Por isso, não houve muita surpresa quando a rapper atingiu o recorde de rejeição no programa.

Eliminada com 99,17% dos votos, Karol entrou para história do reality e agora terá que lidar com o resultado do índice de desaprovação no dito mundo real. Aqui fora, não tem prova do líder, jogo da discórdia ou divisões como VIP e xepa. Mas tem, em muitas situações, linchamentos virtuais, ameaças à integridade física e consequências muito mais graves que meramente usar uma fantasia temática e dançar quando toca uma música.

Do lado de cá, mais que a “vilã da edição” ou “Karol Conká”, quem habita o mundo é Karoline dos Santos Oliveira, que não é só figura pública e (má) jogadora,  é também mulher, mãe e, como às vezes esquecem, humana. Karol pode ser antiética, desrespeitosa e tantos outros adjetivos que são gritados à torto e à direito nas redes sociais, mas ela é gente.

O caráter cruel do comportamento que ela assumiu ao longo da edição é notório, beira a unanimidade. Quem assistiu ao programa, seja na íntegra ou nos trechos distribuídos na internet, sabe que o que ela fez não se faz. Foram cenas angustiantes, que despertaram, inclusive, diversos gatilhos em muitos que estavam assistindo.

Mas quem disse que cancelar o cancelador é motivo de glória? Quem disse que julgar na internet, xingar a família e incentivar uma perseguição é menos danoso que excluir um participante ou espalhar mentiras dentro de um reality? Como é possível chamar de “justo” um movimento que resulta na necessidade de um esquema especial de segurança para que uma ex-BBB não seja agredida na rua? 

É nesse ponto que ficam ainda mais evidentes as contradições dessa dinâmica tão presente na internet, especialmente quando analisamos o aspecto racial desse conflito. É impossível observar essa situação sem evidenciar o impacto que a negritude de Karol tem nos xingamentos que são deferidos a ela. Mais do que críticas à sua conduta, muitos têm se aproveitado dessa pose de “justiceiros” para legitimar ofensas racistas e reforçar estereótipos que agridem diretamente às pessoas negras.

Enquanto se apontam como detentores de uma fantasiosa verdade absoluta, os canceladores geram efeitos reais e, muitas vezes, permanentes na vida dos que são cancelados. Evidência disso é o resultado desse processo na vida de Karol, que teve contratos rompidos e trabalhos perdidos, e se tornou um dos vários nomes que ilustram esse movimento de boicote.

Nesse cenário de pandemia que temos vivenciado, por exemplo, as métricas de cancelamento viraram outras e têm sido combinadas às normas determinadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, uma das primeiras influenciadoras canceladas nesse contexto foi Gabriela Pugliesi, que chegou a perder mais de R$ 3 milhões em contratos depois de ter publicado registros de uma festa com amigos.

Outro caso que gerou repercussão, desta vez a nível internacional, envolveu a cerimônia do Oscar de 2019 e fez com que a premiação não tivesse um apresentador oficial pela primeira vez em 30 anos. Isso porque o evento seria apresentado pelo comediante Kevin Hart, que foi cancelado dois dias antes da solenidade por tweets homofóbicos feitos em 2009 e 2010.

E não são só os famosos que são atingidos por essa prática. No ano passado, uma professora de teatro de Nova York foi alvo de uma movimentação na internet por supostamente ter cochilado durante uma reunião online sobre justiça racial. Mesmo alegando que estaria apenas piscando no momento em que a videochamada foi registrada, a estadunidense foi acusada de racismo e motivou uma petição de 2 mil pessoas que exigiam sua demissão.

Não à toa, o medo do cancelamento tem virado a grande questão do momento. Especialistas das áreas de Educação e Psicologia tem se dedicado, inclusive, a analisar esse fenômeno e as consequências práticas que ele carrega. Nesse aspecto, uma afirmação é consenso: essa estratégia é pouco pedagógica e não resulta em mudanças concretas.

É natural que a expansão dos movimentos sociais e o aumento das discussões sobre questões como machismo, racismo e homofobia venham acompanhados de um olhar mais crítico sobre a vida. A consciência sobre problemas estruturais é algo que não dá para “desver” ou ignorar, isso é fato.

Mas o contrário de cancelamento não é a conivência, é o diálogo. Buscar uma postura que seja menos rígida e castradora diante de falas problemáticas e preconceituosas é justamente dar espaço para que transformações menos superficiais sejam realizadas e para que mais pessoas possam ter consciência sobre os discursos que têm sido reproduzidos.

Ninguém nasce completamente desconstruído, é sempre um processo. O prefixo “des” não faz parte dessa palavra por acaso. Ele vem justamente para evidenciar que essa jornada passa pela quebra de conceitos pré-estabelecidos e enraizados numa sociedade que é fundamentada em tantos preconceitos.

Parte do problema é o fato de que, acompanhado da discussão sobre cancelar, vem o medo de “passar pano”. Mas a vida não existe só nessa dualidade tão radical e simplista, há também um caminho do meio que ainda pode ser desbravado. É possível encontrar um equilíbrio entre criticar o que há de errado e não se deixar levar pela onda de desumanização de quem erra.

Ao invés de reproduzir modelos de linchamento e silenciamento, é bem mais produtivo apostar em dinâmicas que incentivem as trocas e deixem espaço para as mudanças. Até porque, se tem uma lição que Karol nos deixa, é que o cancelador também pode ser cancelado. E é mais difícil estar do lado que recebe os dedos apontados e as acusações agressivas.

Quanto ao BBB, nos resta comemorar que a participante Karol Conká foi eliminada. Mas sem esquecer que a vida de Karoline continua e que, como todo mundo, ela seguirá errando, acertando, aprendendo e tropeçando. E o maior conforto de quem desejou sua saída pode ser entender que respeitar a humanidade dela é justamente ter a empatia que tanto a faltou. 

Stephanie Sá é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e especialista em Mídias Digitais e Comunicação Empresarial pela Unifavip Wyden. 

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