Linguagem, amor e violência em ‘Sobre a terra somos belos por um instante’

Um reflexão sobre pertencimento em um dos livros mais comentados da atualidade, recentemente publicado no Brasil

Na imagem, Ocean Vuong, autor de Sobre a terra somos belos por um instante. Divulgação.

Em 27 de outubro de 1978, um dia após o falecimento de sua mãe, Henriette Binger, Roland Barthes começa um diário, que duraria um ano, composto por breves notas acerca de sua recente perda, além de reflexões gerais sobre morte, vida e memória, afora outros temas relacionados ao luto. Tais anotações foram registradas diariamente, enquanto o semiólogo francês preparava alguns de seus mais importantes trabalhos, dentre os quais, seu último livro, Camera Lucida, publicado em 1980. No dia 28 de outubro de 1978: “Eu conheci o corpo de minha mãe, doente e, depois, morrendo.” No entanto, Cachorrinho, personagem (ou alter ego) do escritor vietnamita Ocean Vuong em seu mais recente livro, não viu o corpo de sua mãe morta – apesar de, desde cedo, ter convivido com suas enfermidades mentais e físicas -, porém, ao reler esta passagem específica do Diário de Luto de Barthes, resolve escrever para ela, ainda viva: assim se faz a narrativa do primeiro romance do autor vietnamita Ocean Vuong, uma carta para sua mãe analfabeta que, portanto, jamais a lerá: “Escrevo para chegar até você – mesmo que cada palavra que eu coloque no papel seja uma palavra mais longe de onde está”.

On Earth We’re Briefly Gorgeous, há pouco publicado no Brasil, pela editora Rocco, sob o título Sobre a terra somos belos por um instante, com tradução de Rogerio W. Galindo, tirante seu rápido sucesso de vendas, foi indicado ao National Book Award na categoria de ficção em 2019 e, desde então, Ocean Vuong se tornou um nome eminente na prosa contemporânea, já conhecido por sua poesia, em particular, pela coletânea Night Sky With Exit Wounds, que venceu o T. S. Eliot Prize em 2017 – tal qual esta, seu romance de estreia é uma narrativa autoficcional, baseada na biografia do autor, nascido no Vietnã e refugiado ainda em tenra idade para os Estados Unidos. Contudo, não é somente sobre a própria vida que Vuong, ou Cachorrinho, o principal nome do narrador, discorre neste livro. É, também, sobre a trajetória de sua avó, Lan, que fugiu do marido e tornou-se prostituta durante a guerra, e da sua mãe, Rose, filha de um soldado branco e casada com um homem tão violento qual o primeiro esposo de Lan. Logo, Sob a terra somos belos por um instante é, quase como Diário de Luto, um livro sobre a morte, tanto quanto é sobre maternidade e família: vindos de um país destroçado pela guerra, Cachorrinho e os seus refugiam-se em outro, que, não obstante a propaganda de liberdade e igualdade, não os permite viver sob estes preceitos – a propósito, especialmente agora, durante a pandemia do novo coronavírus, os crimes de ódio contra a comunidade asiática-americana estão cada vez mais recorrentes. 

Assim, o protagonista está, desde a primeira infância, na companhia estrondosa e, por vezes, sutil da violência: o romance tem início com o horror de sua mãe ao deparar-se com um alce empalhado em cima de uma máquina de refrigerantes: “Eles não veem que é um cadáver? Um cadáver deve ir embora, não ficar preso para sempre daquele jeito.” Esta morte eternizada a choca, pois que, para ela, uma mulher refugiada e traumatizada por uma série de catástrofes, tal aspecto da vida deve ser passageiro. Entretanto, Cachorrinho conhece, pessoalmente, apenas o refúgio – seu contato com a guerra, responsável por devastar seu país natal, dá-se através de seus parentes mais velhos, sem que tal contato também não o traumatize. Aos cinco ou seis anos, resolve brincar de assustar a mãe, gritando “Boom!” atrás de uma porta – Rose desespera-se, fica em prantos: “Eu não sabia que a guerra ainda estava dentro de você, que existira uma guerra e que, uma vez que ela entra em você, jamais te deixa – meramente ecoa, um som formando o rosto de seu próprio filho. Boom”.

Isto é, não obstante os dois estejam bem longe do Vietnã, bem como o conflito armado no país já houvesse cessado nos anos 90, ambos ainda vivem sob a atmosfera dos destroços – logo no início do romance, Cachorrinho questiona-se: “O que é um país senão uma sentença perpétua?” A pergunta lembra uma indagação de David, narrador do mais famoso romance de James Baldwin, O quarto de Giovanni: “Talvez a casa da gente não seja um lugar, e sim simplesmente uma condição irrevogável”. Conquanto Rose e Cachorrinho, tal qual David, tenham deixado seus lugares de origem em busca de uma vida mais livre e, consequentemente, melhor, os três encontram-se em situações análogas às que viviam em suas “casas” anteriores: David é um homem gay em dois países, distintamente, homofóbicos; já Cachorrinho e sua mãe fogem de um país atormentado pela guerra para outro ainda em guerra.

No dia 16 de março de 2021, oito pessoas foram mortas em uma série de tiroteios sucedidos em spas e casas de massagem na cidade de Atlanta, Estados Unidos. O assassino, Robert Aaron Long, um homem branco de 21 anos, não foi julgado por crime de ódio, embora a maioria de suas vítimas tenham sido asiáticas. O ocorrido impulsionou uma onda de protestos em todo país, uma vez que o veredito de Long ignora a ascendência da discriminação enfrentada por toda uma comunidade: em 2020, após o início da atual pandemia, a violência contra asiáticos havia aumentado em cerca de 150% em todo território nacional, fomentado por uma racialização do surto sanitário, que teve início na China – o então Presidente do país norte-americano, Donald Trump, também conhecido pela grotesca ideia de construir um muro na fronteira do país com o México, afim de evitar a passagem de imigrantes latinos, referiu-se à Covid-19 como o “vírus chinês”, uma fala que reverberou, inclusive (e fortemente) no Brasil. Similarmente, foi em 2020 que o movimento Black Lives Matter tornou-se popular internacionalmente, devido ao caso de George Floyd, um homem negro que foi estrangulado por um policial branco, crime que causou uma revolta global e culminou em inúmeras manifestações no mundo inteiro. Ou seja, ainda que não haja bombardeios, como os que destruíram a cidade de onde vieram Rose e Cachorrinho, os Estados Unidos da América são um país em guerra, pelo menos, contra seus habitantes não-brancos.

Portanto, os personagens carregam consigo um estigma que impossibilita quaisquer tentativas de viver sem a constante hostilidade que os persegue. Não obstante, Rose, mesmo sendo filha de pai branco e, logo, tendo certa “passabilidade” em alguns locais, em virtude de seu tom mais claro de pele, sem falar inglês com proficiência, passa por diversos constrangimentos. No seu trabalho de manicure, um emprego que a adoece fisicamente, mas um dos únicos a contratá-la, a palavra que mais usa é “sorry”, um lembrete de sua inferioridade quanto às clientes: “Desculpar-se paga, pedir desculpa até mesmo, ou especialmente, quando a pessoa não tem qualquer culpa, vale cada sílaba autodepreciativa que a boca é capaz de pronunciar. Porque a boca precisa comer”. Deste modo, o tão desejado “sonho americano”, para a maioria dos habitantes do bairro onde moram, ocupado majoritariamente por imigrantes, é, de fato, apenas um sonho: grande parte das mulheres que chegam ao salão onde Rose trabalha, acreditam que será apenas um serviço temporário, e, todavia, seus filhos são criados ali, tal como suas colunas são ali adoecidas – “É um país bonito, dependendo de quem você é”.

A propósito, um aspecto muitíssimo intrigante deste livro é a relação paradoxal dos personagens com as duas línguas com as quais convivem: a materna, vietnamita, e a obrigatória, inglês. Lan e Rose mudam-se para os Estados Unidos já adultas, ao passo que Cachorrinho, tão pequeno, sequer  lembra-se do Vietnã. Logo, conforme mãe e avó falem, sobretudo, em sua língua nativa, ele flutua desconfortavelmente entre dois diferentes dialetos, sem saber-se nativo nem em um, nem em outro – em casa, conversa em vietnamita, mas, lá fora, protege a si e aos seus ao falar em inglês. Não raro, Lan e, especialmente, Rose, deparam-se com fronteiras linguísticas, para elas, humilhantes, o que as leva a muito insistir na educação de Cachorrinho – certa vez, quando ele conta que está sendo intimidado na escola, sua mãe pede que não a conte mais sobre isso, porque, sem entender seus colegas, sente-se impotente: “Você está com a barriga cheia de inglês, (…) e precisa usá-lo, certo?”.

Em uma das mais interessantes passagens do romance, o narrador refere-se à uma ideia de Barthes em seu O Prazer do Texto (1973): “Nenhum objeto está numa constante relação com o prazer, (…) Entretanto, para o escritor, esse objeto existe; não é a linguagem, é a língua, a língua materna”. Em seguida, Cachorrinho, que também escreve, questiona: “Mas e se a língua materna estiver atrofiada? E se a língua materna não for somente um símbolo de um vazio, mas um vazio em si mesma, (…)?” O frágil vietnamita que conhece o foi dado pela sua mãe analfabeta, que viu, aos cinco anos de idade, sua escola ser bombardeada e, destarte, a falta de uma educação, que poderia ser transformadora, torna-se reminiscência do que lhes foi tirado: “Sua língua materna, então, não é, de maneira alguma, uma mãe.(…) Ma, falar em sua língua materna é falar apenas parcialmente em vietnamita, mas inteiramente em guerra”. 

Tais questões fundamentam-se, basicamente, no paradoxo que é a nacionalidade do protagonista. Sem embargo, tenha nascido no Vietnã, a nação que, de fato, conhece, onde foi criado e viveu a maior parte de seus anos, não o admite, plenamente, como cidadão: “Não chame atenção para si mesmo. Você já é vietnamita” – é assim que Rose despede-se de seu filho todas as manhãs, sempre assustada com as perspectivas de violência que apresentam-se, a cada instante, para os imigrantes de sua área. Consequentemente, este sente-se órfão quanto a um idioma nativo e, de igual modo, parece ser órfão de país. Todavia, ele escolhe a linguagem como sua mais importante ferramenta de expressão – Cachorrinho torna-se escritor. Um dia, sua mãe o pergunta, enquanto pinta um livro de colorir: “Você já criou uma cena e, depois, colocou-se dentro dela? Alguma vez se assistiu entrar cada vez mais longe e mais fundo em uma paisagem, bem longe de si próprio?”. Ao que o filho, depois, pensa: “Como poderia te dizer que o que havia acabado de descrever era, na verdade, escrever? Como poderia dizer que nós, afinal, éramos tão parecidos, a sombra de nossas mãos, sob diferentes páginas, fundindo-se?” Com efeito, como poderia Cachorrinho explicar seu refúgio à mãe iletrada sem, por isso, afastar-se dela? Voltemos ao início: “Escrevo para chegar até você – mesmo que cada palavra que eu coloque no papel seja uma palavra mais longe de onde está”.

Contrariamente à afetuosa relação de Barthes com sua mãe, Rose, muitas vezes, é bastante violenta com Cachorrinho. Em vários momentos do livro, o narrador conta seus comportamentos mais agressivos, desde sua, eventualmente, sensação de inferioridade perante o filho educado, à suas reprimendas físicas e tirânicas. São nessas crises que Lan, a avó, defende e protege o neto dos descontroles de Rose. Quando ele decide fugir pela primeira vez, é ela quem o conforta: “Sua mãe. Ela não normal, certo? Ela dor. Ela ferida. Mas ela quer você, ela precisa da gente.(..) Ela te ama, Cachorrinho. Mas ela doente. Doente feito eu. Na cabeça”. A valer, a personagem é cercada de brutalidade, a datar de seu nascimento – filha de uma prostituta com um soldado americano em meio a um devastador conflito armado, casa-se com um marido abusivo e, posteriormente, já na sonhada “America”, separada do esposo, que vai preso por violência doméstica logo que chegam ao país, enfrenta, todos os dias, um serviço humilhante e adoecedor, além da descriminação, também, diária – seu comportamento, então, é mero resultado de seus numerosos traumas. 

Ademais, não é apenas com a mãe que Cachorrinho mantém um relacionamento problemático. Aos catorze anos, começa a trabalhar em uma fazenda de tabaco, onde conhece Trevor, um jovem branco e caricaturalmente americano, obcecado por um ideal de masculinidade, que nem um, nem outro, consegue alcançar. Cachorrinho já percebe-se gay, ainda que isso o perturbe, mas Trevor, embora tenha relações sexuais com ele, tenta, continuamente, negar a própria sexualidade. O narrador, como já dito acima, sente-se tão deslocado, que a qualquer perspectiva de pertencimento, entrega-se sem muitas ressalvas, o que resulta em subserviência: Cachorrinho absorve a servilidade que parece ser o destino da maioria dos refugiados ao seu redor. Efetivamente, Trevor é, também, um outsider – dependente de Oxycontin e, mais tarde, de outras substâncias, resguarda-se em seu vício em drogas, nos jogos de tiro e, conquanto lhe repugne, no sexo com o amigo. 

Inicialmente, eles praticam o que, depois, passam a chamar de “foda falsa” – Cachorrinho tenta, com as mãos, recriar o formato de uma vagina entre as pernas e, Trevor, imita uma penetração, que não passa de masturbação -, uma maneira de sentirem-se menos sujos. Em uma dessas ocasiões, eles tentam inverter os papéis, mas, antes que isso aconteça, o americano dispara: “Não posso. (…) Sei lá, não quero me sentir como uma garota, como uma putinha. (…) Não é para mim. É para você, certo?” De qualquer modo, Trevor tem seus momentos de ternura: o adolescente é demasiadamente carnívoro, aspecto essencial da virilidade, mas não consome carne de vitelos, “porque jamais comeria uma criança”; adora girassóis, “Imagine ir tão alto e ainda se abrir tão grande?”; e, acima de tudo, têm medo, “por favor me diga que eu não sou um veado. Eu sou? Eu sou? Você é?” Ao parafrasear Shakespeare em outra parte da narrativa, Cachorrinho aparenta ter a resposta para tais inquirições: “Ser ou não ser. Eis a questão. Uma questão, sim, mas não uma escolha” – Não é somente nossa “casa” a única sentença perpétua a algemar-nos. 

A propósito, o desprendimento do protagonista na narração de detalhes pessoais em carta para uma mãe viva, só é concebível, uma vez que, o narrador sabe improvável que ela a leia: “é esta impossibilidade mesma que possibilita meu contar”. Neste sentido, a narrativa de Cachorrinho lembra o diário de Barthes, ambos sobre pessoas que nunca os lerão. Inclusive, não obstante, o livro de Vuong seja uma narrativa não datada, nem periódica, este estrutura-se como um caderno de notas, às vezes longas, às vezes curtíssimas, outra característica, parcialmente, análoga ao Diário de luto, escrito em pequenas anotações. Além disso, a prosa do autor é bastante poética, tendo em vista que o mesmo tenha partido, a priori, da poesia, o que é visível em seu estreia como romancista. Contudo, há uma certa quantidade de frases curtas e pontuadas em sua escrita, como se para causar um impacto imediato e contínuo no leitor, o que, em determinadas composições, me incomodaram, por soarem um tanto melodramáticas ou bombásticas – logo, acerca destas, me perguntei se não seriam melhor aproveitadas em configuração distinta, indagação que não sei, de fato, responder. Em todo caso, o livro conserva-se, prevalentemente, sólido.

Depois da morte da mãe, profundamente deprimido, escrever, para Barthes, apresenta certa sordidez: “meramente um escárnio”, “não consigo mais salvar-me através de meu apego à escrita”, “Estou entediado onde quer que esteja”. Porém, no dia 27 de outubro, questiona-se: “Quem sabe? Talvez haja valor nestas notas?” Tais notas, então, não tinham propósito definitivo de publicação e, quiçá, estas valeram, qual a missiva de Cachorrinho: um esforço de desencarcerar-se de seus “subsolos”: “Estou escrevendo porque me disseram para jamais iniciar uma frase com porque. Mas eu não estava tentando fazer uma frase – Eu estava tentando me libertar”. Portanto, Sobre a terra somos belos por um instante é a carta de alforria de um jovem estrangeiro em todo lugar, que procura fazer da literatura sua terra natal. 

*As citações de Sobre a terra somos belos por um instante, bem como as de Diário de Luto, foram traduzidas do inglês por nós.

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