Livro conta a história de vala clandestina usada na ditadura militar

'Vala de Perus: uma Biografia', escrito por Camilo Vannuchi, está sendo publicado no site do Instituto Vladimir Herzog
vala de perus

Funcionário exibe crânio cortado e perfurado por bala encontrado na Vala de Perus. Foto: Claudio Rossi/Agência O GLOBO

Na manhã de 4 de setembro de 1990, a cidade de São Paulo assistiu uma das grandes marcas deixadas pela violência do regime militar: a abertura de uma vala clandestina no cemitério de Perus. Nela, foram escondidos mais de mil corpos de perseguidos políticos durante a segunda metade da década de 1970, em pleno regime militar. Essa história está contada com minúcias no livro ‘Vala de Perus: uma Biografia’, escrito pelo jornalista Camilo Vannuchi, publicado no site do Instituto Vladimir Herzog.

A descoberta se deu a partir da investigação que o repórter Caco Barcellos realizava para seu futuro livro ‘Rota 66: A História da Polícia que Mata’. Construído em 1969, na gestão de Paulo Maluf (então ARENA), o cemitério foi planejado para ser o local de enterro dos indigentes e não reclamados, situação aproveitada pelos militares. Com a abertura da vala, foi descoberta uma extensa rede que trabalhava em prol da ocultação dos corpos, envolvendo o Instituto Médico Legal e, claro, os agentes da ditadura.

Os corpos das vítimas, que incluíam os mortos por grupos de extermínio, eram enterrados como indigentes ou com nomes falsos — por vezes, o codinome dos militantes — o que dificultava sua localização e identificação pelos familiares. Até que em 1976, houve uma exumação em massa não documentada dos corpos, o que atraiu a atenção do funcionário do cemitério Antônio Pires Eustáquio, que investigou por conta própria o acontecimento a partir de 1978, quando assumiu a administração. Ele recebia, com frequência, familiares de vítimas enterradas em Perus. Um deles, o engenheiro Gilberto Molina, foi um dos primeiros a ver o local da vala onde seu irmão, o guerrilheiro Flavio Molina, foi enterrado, e cujo atestado de óbito foi emitido com um nome falso. Antônio, conhecido como Toninho, só pode revelar a localização após o fim da ditadura, quando foi contatado por Caco, dando início a um processo de identificação dos corpos que se estende até hoje.

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