Livro infantil desvenda a importância da educação sexual sem tabus

Livro Carro Cris, escrito por Beatriz Cruz, é voltado para auxiliar a família na prevenção e cuidado contra o abuso sexual infantil

Livro Infantil Carro Cris e autora Beatriz Cruz. Foto: Arquivo Pessoal.

Neste Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infantil – 18 de maio, entende-se a importância da educação sexual e do diálogo com a família para a prevenção da violência sexual infantil. Entre 2011 e o primeiro semestre de 2019, foram registradas mais de 200 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.

Sobretudo neste momento, de aulas presenciais suspensas para muitas crianças nas escolas, os familiares devem orientá-las para evitar e para identificar situações de abusos.

No entanto, por não ter o repertório suficiente para instruir e/ou por se sentir desconfortável a falar sobre o tema, essa tarefa de falar abertamente sobre sexualidade não é simples para muitas famílias. Pensando nisso, nasceu o livro infantil Carro Cris, criado pela escritora Beatriz Cruz, educadora social e estudante de serviço social.

A obra possui o intuito de auxiliar na introdução ao assunto para todas as famílias com dificuldade de falar sobre sexualidade com os pequenos, por entender a educação sexual como uma temática repleta de tabus, sendo esse o principal motivo do assunto não ser abordado em casa. 

A educação sexual infantil não deve ser encarada como algo constrangedor. De acordo com a educadora social, as questões envoltas na proteção infantil contra abusos, como  o autoconhecimento corporal, devem ser naturalizadas e ensinadas desde o nascimento.

Como o livro aborda o assunto?

A história ilustrada descreve a descoberta de uma criança sobre o próprio corpo. Representada por um carro, a narrativa não deixa claro o seu sexo biológico nem a sua identidade de gênero. O texto possui ritmo de poema e as ilustrações acompanham cada página da história.

Ao narrar a trajetória de descobertas e as consequentes dúvidas de Carro Cris, o texto ao mesmo tempo ensina de uma forma lúdica e desperta nos pais o entendimento da necessidade de conversar sobre sexualidade na infância

Por abordar a história de um carro, os órgãos genitais não são descritos de forma literal. “Essa forma de ser lúdico evita choque ou constrangimento por parte dos pais e da criança ao iniciar o aprendizado sobre sexualidade”, esclarece a autora.

O livro também incentiva a família a explicar os nomes corretos das partes do corpo para os filhos e filhas, como boca, vagina e pênis. Para que seja possível o entendimento de quando ela estiver em uma situação de risco ou de abuso. Além de ajudá-la na verbalização ao relatar um abuso sexual. 

De forma clara, a história também fala sobre como a vítima deve recorrer aos lugares corretos após uma situação de risco e explica como ela pode contar com pessoas para a auxiliarem. 

A falta da educação sexual na vida da autora

Para escrever o livro, embora Beatriz pesquise sobre educação sexual há seis anos, a sua vivência pessoal como vítima de violência sexual foi a principal base utilizada para desenvolver a história.

Sendo educadora social, percebeu a necessidade de lançar o livro. “Eu pensei na minha criança e o que ela gostaria de ter aprendido para poder passar para o livro. Porque durante minha infância não tive muitas informações e não recebi muitos cuidados acerca disso por parte da minha família”, desabafa.

A importância da educação sexual e do livro como uma forma de instrumento didático revela-se central na vida da autora. Como vítima de violência sexual na infância, para ela, um livro como Carro Cris teria a livrado do ciclo de violência. “Se esse livro tivesse chegado até mim quando era criança, talvez as agressões sofridas ou não teriam acontecido, ou teriam acontecido por menos tempo. Porque eu entendia aquilo como algo natural e não era”, relata Beatriz.

A naturalização da violência sexual é uma realidade para muitas crianças. Justamente porque, na maioria dos casos, ocorrem em relação intrafamiliar. Mais de 70% dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes são praticados por parentes das vítimas, de acordo com dados registrados no Disque 100, referentes a 2019. 

Esse fator contribui para gerar na mesma um sentimento de confusão diante dos atos de violação. Sobre essa dificuldade, a psicóloga Pietra Radtke explica que elas confundem abuso com afeto, e é dessa forma que o agressor costuma nomear a violência para as vítimas. Principalmente quando os abusos são cometidos por alguém próximo, por meio de uma relação de manipulação.

Trabalho social nas favelas

Outro fator que a motivou a escrever o livro, foi perceber a necessidade de desenvolver um trabalho de educação sexual dentro da favela – lugar onde atua como educadora social. 

Em razão dessas informações sobre educação sexual infantil não chegarem à favela. De acordo com ela, os pequenos crescem entendendo como normais violências como essa. Por isso, a educadora social e estudante de assistência social decidiu criar um projeto para mudar esse cenário.

O seu projeto também busca realizar palestras, encontros e oficinas sobre educação sexual. Mas por conta da pandemia da Covid-19, Beatriz precisou suspender as atividades presenciais e passou a submeter editais de incentivo à cultura e educação e passou a realizar encontros virtuais.

Lá em Casa tá tudo bem?

Após o livro, nasceu uma série provocativa no Instagram chamada Lá em Casa Tá Tudo Bem, com o intuito de defender a educação sexual e provocar reflexões nas pessoas. Em consequência de muitos desconfiarem ou não acreditarem na educação sexual infantil como um assunto necessário. Por esse motivo, diferente do livro, a série busca impactar adultos e adolescentes.

Composta por relatos reais de assédio e abuso sexual, a maioria dos episódios postados ocorreram com Beatriz. A série foi escrita também pela autora e ilustrada pela designer Ariádne Martins, ilustradora tanto do livro quanto da série.  

Outros casos relatados foram enviados de modo espontâneo por meio do direct no Instagram após os primeiros episódios terem sido publicados. Já outras histórias incluídas na série foram inspiradas em pessoas conhecidas da autora. 

As idealizadoras pensam em publicar a série em livro e em outras mídias, mas falta incentivo financeiro. “Ideia a gente tem bastante. Falta principalmente o apoio financeiro porque é tudo independente. Inclusive os custos do livro referentes a edição foram arcados pelo meu amigo Alef Alves, enquanto eu assumi os custos das vendas.”, conta Beatriz.

Sendo a literatura infantil um  dispositivo pedagógico na educação sexual, como compreendemos na matéria, sua  importância se manifesta  como mediadora no processo de ensino-aprendizagem. Temas, a princípio complicados de explicar, podem fazer parte do dia a dia e serem encarados com a devida naturalidade por meio do diálogo e do acesso à informação.

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