Melancolia e Angústia em ‘Diário da Queda’

Uma resenha sobre o livro de Michel Laub

O peso simbólico do campo de concentração é algo que perpassa o romance de Laub. Foto: Reprodução.

Em um Bar Mitzvah, uma turma de ricos garotos judeus acidenta deliberadamente um humilde gói, de nome João, que estava fazendo aniversário. Um desses garotos é o narrador de “Diário da Queda”, livro de Michel Laub. O narrador, que não tem nome, faz uma viagem por suas memórias, partindo desse acontecimento da queda e passando por seus conflitos internos e familiares repleto de melancolia, angústia e incomunicabilidade.

Em “Diário da Queda”, Laub escreve uma prosa em forma de anotações separadas por números, como uma espécie de lista que transmite o fluxo de pensamento do narrador, nos permitindo uma aproximação íntima da história e de seus personagens.

A partir da queda de João, tomado pela culpa, o narrador conta como começou a questionar instituições aparentemente sólidas da vida como a relação com sua família e o comportamento da comunidade judia.

Seu avô era um judeu sobrevivente de Auschwitz, que veio ao Brasil em busca de um recomeço após ter perdido toda a família em um campo de concentração. Após chegar aqui, casou-se com uma brasileira e formou outra família. No entanto, a sombra de Auschwitz nunca saiu de suas costas: já perto do fim da sua vida, se trancava no escritório, onde escrevia vários cadernos de anotações que continham algo como uma enciclopédia de verbetes. Esses verbetes eram totalmente idealistas, no qual o avô cria uma realidade ideal, como espécie de fuga do mundo cruel que o massacrou. A exemplo, a descrição do verbete que fala do porto: “Local onde se reúne o comércio ambulante que trabalha sob regras estritas de controle fiscal e higiene”.

Esse ressentimento com o mundo impedia que esse homem atormentado se relacionasse afetivamente com outras pessoas. Ele não conversava com seu filho, ou demonstrava qualquer forma de carinho, e, ao terminar os cadernos de anotações, se mata em seu escritório. Seu filho, que tinha 14 anos, é obrigado a arrombar a porta, e encontra o pai morto, o que o mudaria pelo resto da vida.

Auschwitz é uma herança maldita. É como se os judeus tivessem que carregar o peso e a angústia de todos os antepassados que morreram nos campos de concentração. Aos treze anos, o narrador era bombardeado na escola judia e em casa pelo discurso de como o antissemitismo é uma espiral de ódio fundada na inveja da inteligência, da força de vontade e da riqueza dos judeus. No entanto, esse discurso não o afetava. A queda do gói o afetava mais do que as histórias de Auschwitz.

Em uma discussão com o pai, o narrador lhe diz que não liga para o judaísmo e muito menos para o que aconteceu com seu avô. Seu pai, ao ouvir isso lhe dá uma surra. Como diz em suas anotações mais para frente, essa foi a primeira vez que seu pai lhe tocou em 13 anos.

Até esse momento, o relacionamento entre pai e narrador era de distância. Não tinham contato além do que demanda as convenções sociais e dos discursos intermináveis do pai sobre o antissemitismo e as histórias de Auschwitz. No entanto, essa briga é um ponto de virada para os dois. Um dia depois, o pai vai conversar com o filho e é aí que ele mostra o caderno do avô.

Michel Laub, autor de “Diário da Queda”. Foto: Renato Parada.

Por ter crescido sem afeto, e visto o cadáver fresco do avô do narrador ao se matar, o pai tornou-se um homem frio, distante e melancólico. Cresceu sem saber nada de seu progenitor. Por isso, ele se agarrava em relatos de outros judeus, como no livro “É Isto Um Homem?”, seu preferido. Esse ato de buscar outras histórias mais parece uma forma de muleta, algo para preencher a lacuna deixada pela incomunicabilidade do seu pai. Ele repete as histórias incessantemente e fala do genitor como se fosse um grande herói. No entanto, o que podemos observar no subtexto, pelo menos sob a visão do narrador, é que ele guarda um grande rancor e um ódio dessa linhagem. Sua vida foi arruinada por uma espécie de egocentrismo do seu pai, cujo ressentimento e inabilidade de lidar com seu trauma passaram, no momento do suicídio, o legado fúnebre ao filho.

Aos 14 anos, o narrador começa a beber. Recebendo a herança familiar de falta de comunicação e impossibilidade de afetos, além de seus próprios problemas jamais superados como a queda de João, ele se refugia na bebida, o que vai durar até os seus 40 anos. Seu comportamento autodestrutivo parece um sintoma de sua incapacidade de aguentar a dura realidade da vida.

Quando está com 40 anos, seu pai recebe o diagnóstico de Alzheimer. Após o diagnóstico, o pai começa a escrever suas próprias memórias. Porém, seu ato é diferente do avô. O avô queria escapar da realidade, criar um mundo ideal. Já o pai, mais parece que escreve suas memórias como uma tentativa de segurá-las, como se escrevendo tudo que conseguisse lembrar – enquanto ainda estivesse consciente – sua memória não escorria da sua mente até não restar mais nada. O avô escrevia sobre o ideal, o pai sobre o real – ou o mais próximo possível disso.

Após a doença, e vários conflitos em relacionamentos pessoais, como o com sua terceira esposa, o narrador decide parar de beber e mudar a sua vida. Com essa decisão, ele também resolve ter um filho. E é nessa linhagem que está a mudança. Ao final do livro, descobrimos que o Diário da Queda são os relatos que o narrador está escrevendo para seu filho.

Essa é a forma que ele encontrou para quebrar essa herança maldita da incomunicabilidade e ressentimento de sua família. Escrevendo sobre seus sentimentos, suas angústias, e seus conflitos internos, o narrador pretende criar um laço de proximidade com seu filho. Assim como criou conosco, leitores que tiveram a sorte de acessar esta bela obra.

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