‘Narciso em Férias’ e a segunda abolição

Considerações sobre o documentário "Narciso em Férias", que apresenta o cantor e compositor Caetano Veloso e a história de sua prisão política durante a ditadura militar brasileira.

Para o documentário, o cantor e compositor brasileiro regravou “Hey Jude” (Lennon/McCartney), uma lullaby do grupo inglês The Beatles que pode ser aludida aos seus dias de cárcere. Foto: Reprodução.

O subsolo do Narciso enjaulado

Era 27 de dezembro de 1968 quando Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso teve sua casa invadida, sem maiores explicações, a pretexto de participar de um interrogatório que, muito antes de acontecer, serviu de justificativa para que sua prisão fosse decretada. O crime, adivinhem, hoje nós chamamos de Fake News.

Sim. Caetano foi preso por uma mentira, um boato, 14 dias depois da promulgação do Ato Institucional Número 5 (AI5), decreto que revogou direitos civis e políticos e autorizou ao Regime ditatorial militar a agir com mão de ferro. O que nós chamamos 52 anos depois de Fake News, e que culminou com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil foi a falsa notícia vinculada pelo então apresentador de televisão,vinculado ao Regime Militar, Randal Juliano , de que os dois haviam desrespeitado os símbolos nacionais ao cantar uma paródia do hino nacional e atear fogo à bandeira brasileira. Tratava-se de uma Fake News, evidentemente, como depois Caetano, com testemunhas a seu favor, pôde comprovar.

Apesar disso, a prisão durou de 27 de dezembro de 1968 a 19 de fevereiro de 1969, embora a história do artista com o enfrentamento do regime militar não tenha terminado por aí, já que após a prisão propriamente dita, veio a prisão domiciliar em Salvador, e por último, o Exílio em Londres.

Entretanto, o documentário “Narciso em Férias”, que participou do Festival de Cinema de Veneza e estreou ontem no Brasil pela Globo Play, dedica-se exclusivamente à narração em primeira pessoa da experiência penitente do artista: do instante da invasão de seu apartamento, da troca de sela, de seu interrogatório, dos dias vividos no cárcere, até o instante de libertação e retorno para a prisão domiciliar em Salvador. “Quando a gente é preso uma vez, a gente é preso para sempre” decreta Veloso, com voz soturna, citando Rogério Duarte.

A segunda abolição

Com o devido respeito à história de um homem preso pela ditadura militar iniciada em 1964, e com o intuito de acrescentar às suas palavras sobre a tortura psicológica de ver um carro na prisão enquanto aguardava o interrogatório, eu complementaria dizendo que, com o tempo, mudam apenas as maneiras com as quais nos relacionamos com nossas prisões. O documentário “Narciso em Férias” recebeu esse título em razão de que, durante a prisão, Caetano não teve acesso a espelhos e, portanto, não viu sua imagem refletida.

O documentário “Narciso em Férias” foi produzido por Paula Lavigne e lançado no Festival de Veneza. Sobre sua prisão, Caetano cita Rogério Duarte: “quando a gente é preso, é preso para sempre”. Foto: Reprodução.

Se me permitem uma licença poética, como no longa-metragem o próprio Caetano cita “um negócio de Freud com Marx”, é bom não esquecer que o Narciso (de Freud) diz respeito à maneira como cada pessoa relaciona-se consigo mesma a partir do outro (sua imagem). Nesse sentido, é extremamente necessário prestar atenção às palavras de Caetano quando denuncia (do lado de Marx) a partir da própria prisão, as desigualdades de classes sociais e o racismo (mesmo não sendo negro): “Eles nos tratavam como se não fossemos gente e como se eles mesmos não fossem gente como nós. Gil tinha direito ao violão só porque tinha ensino superior. Não precisa assistir Tropa de Elite pra saber que isso existe. Esse negócio de que com o preso preto e pobre pode fazer tudo tem que acabar”

De acordo com Caetano Veloso, esse fenômeno é a reafirmação da escravidão. De tal modo, em última observação, afirmo que é preciso lutar para que haja a nova e segunda abolição. Enquanto o Presidente da República nega a existência da ditadura militar que prendeu e tenta cafajestizar a imagem do Brasil, Caetano, subversivo e desvirilizante, leva do Brasil para o mundo o seu testemunho de um autêntico, vivo e legítimo patriotismo brasileiro.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.

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