Narrativas em imagens, histórias imperfeitas: sobre fotolivros

A professora Daniela Bracchi, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apresenta um breve panorama do que é a narrativa do fotolivro.

Nesta coluna inaugural, a pesquisadora Daniela Bracchi apresenta conceitos sobre a narrativa em fotolivro

Fotografia de “O livro do Sol” Gilvan Barreto: Divulgação

Você está acostumado a ver um filme, ler uma história, acompanhar os dramas de algum personagem, torcer para o desfecho de uma ação. Mas há algum tempo os fotolivros chamam a atenção como uma outra forma de narrativa. As imagens encadeadas em sequência ao longo do livro podem despertar emoções, nos fazer sonhar, argumentar sobre algum tema, propor uma nova sensibilidade. A presença do texto aqui é acessória. Ele pode existir, mas seria um ator adjuvante da narrativa, colaborando com a verdadeira estrela que são as imagens.

Se compararmos um fotolivro com um filme, sabemos que a imagem em movimento torna muito mais fácil exibir uma ação. A fala nos filmes ajuda a construir as características e gostos de um personagem. Já nos fotolivros os temas são construídos de maneira menos concreta, mais fluida e isso exige muito mais de nós. A tarefa é a de preencher as lacunas da narrativa. Por não ter um modo tão direto de mostrar a ação de um personagem e seus claros desdobramentos, é muito mais difícil descrevemos “sobre o quê” é um fotolivro em comparação ao modo como conseguimos contar um filme para alguém.

Mas para além da identificação clara de um arco narrativo, a maior dificuldade de nos aproximarmos desse tipo de obra é que estamos bem acostumados a olhar cada imagem como algo isolado. No fotolivro, no entanto, cada fotografia é como uma palavra e seu desenrolar dá espaço para construção de frases, histórias e tons emocionais. A poesia das imagens vai sendo construída pelo folhear de páginas. É uma espécie de passeio por entre fotografias, que nos permite parar, apreciar algo melhor, voltar um pouquinho e comparar uma imagem que já passou há muitas páginas atrás com outra que agora se apresenta. A falta de uma cadência temporal dada de antemão, tal como o cinema, abre possibilidades para impormos nosso ritmo nesse passeio.

Ilustrar o Fotolivro do Robert Frank

Fotografia de “The Americans” Robert Frank: Reprodução

Precisamos, então, construir esse fio que liga uma imagem a outra para finalmente explorarmos melhor a potência narrativa dos fotolivros. É uma experiência que pode ser fácil de explicar, mas que exige sensibilidade do leitor. Um exemplo rápido seria quando vemos no livro uma dupla de imagens. Imagine um retrato de uma pessoa convivendo ao lado da página com a imagem de uma planta. Se for um cacto, por exemplo, a imagem da planta empresta uma certa aridez e resistência à imagem da pessoa, que pode nos falar de sua personalidade. Mas o sentido muda se a planta escolhida for cheia de flores. Por isso que, tal como na literatura e também no cinema, os fotolivros constroem uma retórica. São metáforas, paradoxos e paródias que nos convidam a estarmos atentos ao desenrolar das imagens, assim como estamos sensíveis às nuances da montagem de um filme.

Os fotolivros apresentam uma vantagem em relação às fotografias expostas em museus ou galerias: o formato permite maior circulação. É bastante difícil termos acesso à uma exposição de fotos em algumas cidades, mas a forma compacta do livro circula de forma mais veloz, alcança mais pessoas, divulga mais amplamente o trabalho de um fotógrafo. Ainda assim, a sua difusão não é massiva e o que nos ajuda muito a conhecer as publicações são vídeos folheando fotolivros que circulam no youtube ou mesmo em sites de algumas editoras.

Os fotolivros, em formato físico mesmo, costumam circular em feiras de publicações independentes. Aqui no Nordeste temos a Feira Cria, mas a concentração desses eventos está no eixo Rio-SP com a Feira Plana e Feira Tijuana entre as maiores. Lá também se encontram livrarias especializadas, como a Lovely House. 

É natural que a região do país com maior número de fotógrafos seja também um grande polo de difusão das publicações, mas Pernambuco há algum tempo tem destaque nesse cenário. O que tem propiciado a produção constante de obras por aqui é, sem dúvida, o fato desse formato ser contemplado numa linha de financiamento do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que anualmente incentiva a produção de mil exemplares da obra de cada ganhador. Isso deixa Pernambuco em primeiro lugar nesse tipo de publicação no Nordeste. 

E há muita coisa boa produzida por aqui, em Pernambuco. Algumas imagens da publicação de 2013, O livro do sol, do pernambucano Gilvan Barreto ganharam o mais importante prêmio brasileiro de fotografia (o infelizmente extinto Conrado Wessel). O fotolivro se desenrola como uma jornada, na qual vamos esperando pelo aparecimento da água, vagando pelo sertão e encontrando seus rastros numa atmosfera de sonho.

Por fim, é muito interessante estudar como essas narrativas imagéticas em formato de fotolivro constroem histórias, climas afetivos, defendem ideais, criam novos mundos. É o que pesquisamos no Fotolab (laboratório de fotografia do agreste da UFPE) e talvez um fotolivro seja o formato da próxima história com a qual você vai se deparar. Meu conselho? Mergulhe. Olhos, mente e coração abertos.

Daniela Bracchi é professora do Núcleo de Design e Comunicação (NDC) da Universidade Federal de Pernambuco – Centro Acadêmico do Agreste (UFPE-CAA). Dedica-se à pesquisa e docência nas áreas de fotografia, semiótica e artes visuais.

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