Nem tudo que há no mundo: literatura e poesia vivas de Caruaru

Nem tudo que há no mundo, lançamento de estreia da editora caruaruense Arrelique, evidencia poetas e escritores contemporâneos da cidade
Capa da antologia Nem tudo que há no mundo é uma obra do multiartista Silvano Barbosa
A arte de capa da antologia é uma obra do ilustrador, escritor e editor da editora Arrelique, Silvano Barbosa. Foto: Divulgação

“Quem são as pessoas que fazem poesia atualmente em Caruaru?”. Já me perguntei isso algumas vezes, principalmente quando me deparei com a importância do município para a cantoria de viola e por ser sede da produção de grandes cordelistas como Mestre Sales Arêda, Mestre Dila e Mestre Olegário Fernandes. 

Essa questão também já me surgiu à mente nas vezes em que refleti sobre a cultura de composição pulsante na cidade de notórios artífices que tiveram relevância na história do forró, a exemplo de Onildo Almeida, Juarez Santiago, Azulão e Petrúcio Amorim, este último conhecido também como o poeta do forró. 

No entanto, quais são as escritoras e escritores caruaruenses contemporâneos?

Bem, a Arrelique, editora independente e caruaruense recém fundada, resolveu agrupar a produção de alguns e facilitar a resposta para essa indagação. Eis o resultado: o e-book Nem tudo que há no mundo, lançado no dia 18 de maio, data do aniversário da cidade. Como o próprio subtítulo complementa, trata-se de uma “antologia: uma reunião de textos de autores e autoras que estão escrevendo atualmente em Caruaru/PE”. 

Contudo – parafraseando a apresentação do livro – a editora Arrelique dissolve parcela da neblina agrestina densa que esconde uma Caruaru para além do barro, feira e forró, e apresenta parte da escrita poética contemporânea da cidade. Acerca de um desses autores, os leitores assíduos do Café já devem ter ouvido falar: Thiago Medeiros. Com um livro também recentemente lançado, Cidade Finada, Thiago contribui com o poema Ciranda de pífanos em desconcerto, que expressa bem a estética, sintaxe e temáticas cotidianas de seu estilo que me parece deveras próprio .

Um dos participantes que eu já conhecia e que foi uma boa surpresa vê-lo em Nem tudo que há no mundo foi Urbano Leafa. Organizador do SLAM Caruaru, juntamente com sua companheira, a poeta Maria Kilô, o trabalho de Urbano muitas vezes possui um cenário (com a licença do trocadilho) urbano em seu sentido mais estrito, explorando pautas políticas, sociais e de classe de uma forma que me soa bastante interessante: muitas vezes, o tema social e político é dotado de uma realidade muito aparente e convidativa à sobreposição da militância à poesia, o que pode conduzir o escritor a um lugar comum do sentido. Urbano por outro lado, utiliza de maneira interessante os sentidos poéticos e consegue construir uma poesia que contesta estética e metaforicamente a realidade de tal forma que me parece um estilo irmão da poética de Miró. 

Em Caruaru, 

a cada 3 segundos

30 pessoas são vítimas

do transporte público

Trecho de Integração, de Urbano Leafa

Urbano também oferece, a partir de seus poemas, um olhar crítico para um lado cinza, caótico e desigual sobre Caruaru, que muitas vezes não é abordado. É comum as expressões artísticas dirigidas à cidade serem uma espécie de louvor por sua riqueza cultural, paisagem agradável e bem estar. Assim, Urbano, que possui origens na poesia marginal, expressa uma localidade  que se contrapõe  à Caruaru azul palavra, agreste aceso, mon amour

Mas isso não quer dizer que a outra Caruaru Azul seja uma farsa. Existe e também é retratada na antologia pelo estilo poético que tanto lhe é próprio e histórico: através das estrofes em décimas que seguem a métrica da estética popular dos versos de cordel em sete sílabas poéticas. Assim, Jénerson Alves e Davi Geffson aludem a essa Caruaru louvável por sua cultura e personagens importantes como Mestre Dila, Nelson Barbalho, Valdir Santos, Azulão, João do Pife e a própria Feira da Sulanca, mostrando que, embora Caruaru não seja somente “barro, feira e forró”, essas temáticas são importantes e inegáveis para o reconhecimento e cultura da cidade.

Essa terra é celeiro

De artistas competentes,

De estilos diferentes

Conquistamos por inteiro

O Brasil faz seu roteiro

Para vir nos conhecer.

No São João dá pra se ver,

Tem gente de todo canto.

Caruaru é um encanto

Que dá gosto de viver.

Trecho de Princesinha do Agreste, de Davi Geffson, atual presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel.

Além da poesia, a antologia também retrata a Caruaru Azul a partir de crônicas subjetivas e com contornos autobiográficos, que remetem a uma afetividade de quem escreve em relação à cidade. E além disso, contos e outros poemas que retratam ora uma Caruaru fantástica ora a Caruaru pandêmica e triste com a qual temos convivido há mais de um ano.

Entretanto, o que mais atribui importância ao livro não são as diferentes Caruarus culturais ali interpretadas, mas sim as pessoas que as interpretam: algumas cujo estilo poético ou prosaico que valem muito a pena serem não só descobertas, mas cada vez mais reconhecidas enquanto expressões contemporâneas de uma cidade literariamente viva, isto é, não unicamente presa ao louvor de um passado célebre.

Ademais, como canta Geraldo Azevêdo na canção Coração do Agreste (composição do caruaruense Carlos Fernando), “Nem tudo que há no mundo tem na feira de Caruaru”. Entretanto, é importante que estejamos também atentos para aquilo que há em Caruaru e não tem no restante do mundo. Creio ser esse o lembrete propagado pelo megafone na capa da antologia lançada pela editora Arrelique, cujo futuro promete.

“Nem tudo que há no mundo” está disponível em ebook na Amazon por R$ 5,99.

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