Nos 50 anos de seu falecimento, algumas reflexões sobre Álvaro Lins e sobre nossos dias

O professor Eduardo Cesar Maia homenageia um dos maiores críticos do país em reflexões sobre sua importância e seus ensinamentos para o nosso tempo.

Opera Mundi: Álvaro Lins: o escritor notável e a empatia que virou ...

O crítico Álvaro Lins. Foto: Divulgação/ Opera Mundi.

Há exatos dez anos eu escrevia, em artigo jornalístico para a Revista Continente, a respeito da Biblioteca que pertenceu a Álvaro Lins (1912-1970), e que foi doada à cidade de Caruaru há, agora, 50 anos, mas que nunca recebeu o tratamento merecido. Escrevi naquela ocasião: “O ano de 2010 marca os 40 anos do falecimento desse grande intelectual pernambucano, que exerceu as atividades de jornalista, crítico cultural, historiador, professor, pesquisador, escritor e diplomata. Tratava-se de um grande humanista, um pensador que não compreendia a atividade crítica literária de forma isolada, sem suas conexões com a realidade histórica e com os demais fenômenos culturais. Em 2012, será o centenário do nascimento de Álvaro Lins, oportunidade para a cidade de Caruaru lhe prestar homenagem, tratando com maior zelo o valioso patrimônio público que são seus livros”. Uma década, eu dizia, desde então… E pouco ou nada mudou em relação às condições da biblioteca e do acervo. Uma vergonha para Caruaru e, em particular, para seus políticos

Tentarei, nas próximas linhas, para além das lamentações e queixas, tentar justificar a importância desse crítico e de seu legado intelectual, ainda que me parece surreal que a própria cidade – que o homenageia superficialmente com nomes de rua e de escola – não o faça.

Um crítico, uma outra circunstância

Houve um tempo – uma época difícil de conceber para nós que nascemos e nos formamos após o advento de meios de comunicação como a TV, o cinema e, mais recentemente, a internet – em que a literatura e, claro, os escritores literários, assumiam um papel de centralidade no universo da cultura; outras artes e saberes pareciam orbitar ao redor da arte da palavra: era a literatura, pois, a fonte primordial por onde se desenvolvia o debate intelectual. “Uma época em que intelectuais eloquentes e eruditos lançavam-se na primeira pessoa, discorrendo ampla e digressivamente sobre as obras, ou a partir delas”, assim a jornalista e professora Cláudia Nina, em seu panorâmico Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas, apresenta um dos períodos mais ricos da crítica literária no Brasil. Tal modalidade, em que os autores, a partir de sua perspectiva individual e abordagem multidisciplinar, emitiam juízos de valor sobre livros, temas e autores do momento, ficou conhecida no país como crítica de rodapé (o nome deriva da posição que esse tipo de texto ocupava na diagramação dos jornais). Essa prática, muito inspirada no modelo francês de críticos-jornalistas como Jules Lemaître e Sainte-Beuve, era taxada, de forma um tanto simplificadora e mesmo pejorativa, como impressionista. O declínio desse gênero nos jornais no Brasil está diretamente ligado ao momento em que a crítica acadêmica toma corpo no País com a promessa de uma análise de caráter mais “teórico” e “científico”.

O crítico literário caruaruense Álvaro Lins (1912-1970), falecido no Rio Janeiro, foi justamente um dos protagonistas desse momento de crise e de transição da crítica no Brasil. Talvez seja esse protagonismo, paradoxalmente, um dos fatores que lhe condenou ao ostracismo intelectual, no final da vida, e ao quase completo esquecimento de sua obra e do seu pensamento nos dias de hoje. O conjunto da obra crítica e historiográfica desse autor, que foi durante mais de 20 anos o crítico mais influente do país – tempo em que manteve seu rodapé no importante Correio da Manhã do Rio de Janeiro –, encontra-se até hoje arbitrariamente relegado, desprezado indistintamente por jornalistas, críticos e acadêmicos. 

Álvaro Lins foi um tipo de intelectual polivalente: jornalista, crítico cultural, historiador, professor, investigador, escritor e diplomata. Era, em resumo, um grande humanista, um polímata: um pensador que não podia conceber a crítica literária como disciplina isolada, nem a literatura sem suas conexões com a realidade histórica e com os demais fenômenos da cultura. Assim, em seu labor de crítico literário, o essencial era a capacidade de conexão entre sua perspectiva – única e intransferível – e as diferentes áreas do conhecimento que investigava. O teor impressionista das análises literárias que Lins realizava, sempre mencionado por seus críticos, não era meramente uma resposta precipitada e subjetiva diante de uma obra artística, mas sim uma cadeia ampla de relações, que incluía a sensibilidade imediata, a classificação, a comparação histórica e, por fim, a valoração estética, que só se fazia possível em estreita correspondência com toda a cadeia de relações mencionada. De fato, sua abordagem marcadamente personalista de crítica era de caráter impressionista, mas isso não impedia a utilização, em seus textos críticos, de conhecimentos históricos, estéticos, artísticos e de metodologias rigorosas de investigação. 

Além disso, o impressionismo crítico se relaciona também à capacidade intuitiva do intérprete, que se faz essencial principalmente no momento da análise de obras contemporâneas, que ainda não foram encaixadas dentro daquilo que chamamos cânone literário. A palavra cânone tem origem grega e se referia a um tipo de régua, um instrumento de medição, portanto. Era exatamente esse o papel que os críticos que militavam nos jornais tinham que cumprir semanalmente: enfrentar-se a obras no momento em que estas eram publicadas, assumindo o constante risco do julgamento de valor, na tentativa de “prever” qual o lugar que esses novos textos iriam desempenhar dentro da dinâmica vida literária. 

Nunca houve por parte de Álvaro Lins um desprezo em relação à teoria literária e à produção da crítica acadêmica, mas ele nunca colocava o método – que considerava uma importante ferramenta – antes da intuição autônoma: pertencia à linhagem dos hermeneutas que buscam no texto literário não somente uma investigação formal, mas a articulação entre o mundo imaterial das ideias e das ficções e o mundo real, da agitação social e das significações e valores individuais.

Interior do livro “História literária de Eça de Queirós”, publicado por Lins em 1939. Foto: Acervo pessoal

Álvaro Lins viveu num momento de crise e de transição na crítica literária brasileira (e mundial). A diminuição da influência e da participação no debate de ideias dos críticos tradicionais – entre os quais se encontrava o crítico pernambucano –, nos jornais e revistas está, pois, relacionada, seja de forma determinante ou indireta, com o momento em que a crítica acadêmica se desenvolve no Brasil com a promessa de um novo paradigma de análise literária, mais teórico e científico. O estilo personalista, livre, digressivo e impressionista de crítica literária, no qual A. Lins era reconhecidamente um mestre (o “Imperador da Crítica”, segundo Carlos Drummond de Andrade), passou a ser sistematicamente rechaçado por alguns dos representantes dessa nova onda teórica que começava a ganhar peso institucional no Brasil. Era recorrente a acusação por parte dos teóricos da literatura de que o humanismo e a abordagem que se utiliza de elementos impressionistas seriam características que marcam um tipo de crítica diletante, ultrapassada, basicamente subjetivista e carente de rigor e método.

De resto, é importante assinalar que outro fator determinante foi, como mencionei no início deste artigo, a perda da centralidade que a literatura tinha na vida cultural do país e no mundo, com a chegada dos novos meios de comunicação audiovisuais. 

Novas perspectivas para a crítica e as lições de Álvaro Lins

No entanto, em face do atual momento de efervescência no mercado editorial brasileiro e das possibilidades que as novas mídias digitais fornecem para a atividade crítica, o juízo de valor sobre obras pode voltar a assumir centralidade e importância fundamental. A profusão inabarcável de lançamentos à espera de divulgação, qualificação e seleção abre um espaço natural em jornais e revistas para diversos modos de abordagem literária – as resenhas, os press releases, os artigos acadêmicos e os ensaios eruditos podem conviver harmoniosamente em uma mesma publicação. Contudo, a velha e boa crítica, carregada das idiossincrasias, polêmicas e de julgamentos de valor, é material raríssimo no nosso jornalismo. A leitura hoje dos ensaios críticos de Álvaro Lins pode ser muito pertinente neste sentido. Será que os leitores contemporâneos repudiam esse tipo de crítica? Penso que não, e basta ver a grande influência e repercussão que os chamados booktubers – muitos deles “impressionistas” – desfrutam atualmente.  

Vivemos uma época bastante diferente daquela em que os rodapés faziam as cabeças do público leitor, e as obras literárias parecem não mais assumir as mesmas funções e ocupar os mesmos espaços na vida das pessoas. A literatura perdeu a centralidade cultural que já possuiu; e está longe de ter a mesma influência e a mesma representatividade. Essa repercussão social que a literatura já teve pode ser retomada? Nesse aspecto, sou pessimista… Isso não significa que os críticos literários caíram na irrelevância, mas somente que ocupam outra posição num mercado cultural que, com o desenvolvimento social, tecnológico e econômico das duas últimas décadas, abriu-se e se tornou muito mais rico e complexo. A efeméride dos 50 anos de seu falecimento pode ser a ocasião ideal para repensarmos o papel que a literatura e a crítica ainda podem desempenhar, e que relevância a leitura de obras literárias ainda pode ter em um tempo como o nosso.

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