O anjo pornográfico: pequenos recortes para pensar aspectos da arena política brasileira contemporânea

Como reverberaria a obra de Nelson Rodrigues nos dias atuais? O pesquisador e gestor cultural Roberto Azoubel analisa a biografia "O anjo pornográfico"

Nascido em 1912, o autor de obras como “O Anjo Negro” e “A Dama do Lotação” faria 108 anos em 2020. Foto: Reprodução

Durante essa pandêmica quarentena paguei algumas dívidas de leituras. Uma delas foi “O anjo pornográfico”, a famosa biografia do escritor e jornalista Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. Essa era uma dívida que muito me incomodava, tendo em vista que nutro um grande fascínio pela persona do biografado e pelo próprio sucesso que o livro alcançou, desde o seu lançamento no já longínquo ano de 1992 (foi o vencedor do prêmio Jabuti na sua categoria no ano seguinte).

Ler “O anjo pornográfico” com tanto atraso me confirmou um prejuízo que eu já suspeitava acumular, pois a obra tem méritos enormes, que vão desde o primoroso trabalho de pesquisa, passando pelo estilo fluido de Castro, até o cuidado editorial (entre outros tantos acertos). No entanto, lê-la nessa distância temporal e, mais destacadamente, no presente momento da vida pública brasileira, trouxe-me algumas conexões (e reflexões) interessantes. É sobre essa relação obra/realidade atual do país que gostaria de comentar neste pequeno artigo, destacando dois trechos da biografia que me levaram a inferências sobre posturas/práticas políticas dos nossos (supostos) pólos ideológicos nos dias que correm, um para cada lado.

O primeiro excerto do livro que destaco aqui é a abertura do capítulo 19, intitulado “O tarado de suspensórios”, que retrata um pequeno instantâneo da luta do político Carlos Lacerda contra o então presidente Getúlio Vargas. De acordo com Ruy Castro, na sua estratégia anti-getulista, Lacerda precisava primeiro destruir o jornalista Samuel Wainer e o seu “Última Hora”, jornal em que Nelson Rodrigues trabalhava na circunstância dessa querela. Estando, pois, empregado na empresa de Wainer, as “bordoadas” do udenista sobraram para o tal anjo pornográfico:

“O tarado Nelson Rodrigues!”, gritava Carlos Lacerda pela rádio Globo em 1953. “Um dos instrumentos do plano comunista da “Última Hora” para destruir a família brasileira!” 

Carlos Lacerda citava Marx e Engels, para mostrar o péssimo conceito que os dois filósofos alemães tinham da família, e lia trechos de “A vida como ela é…”, para provar que Nelson Rodrigues fazia parte do insidioso movimento comunista internacional. Quem ouvisse Carlos Lacerda falando aquilo pelo rádio, e não conhecesse Nelson, era bem capaz de acreditar. Mas qualquer um que já tivesse trocado duas palavras com ele só podia rir. (Castro, 2001, p. 243)

A passagem nos faz lembrar que a retórica anticomunista já era utilizada no país muito antes da ascensão da força política que atualmente ocupa nosso governo federal. Na historiografia nacional podemos facilmente constatar que as hostilidades aos comunistas já aconteciam desde as primeiras décadas do século passado, sendo intensificadas após a Intentona Comunista em 1935. Mas a semelhança dos discursos nos salta aos olhos. E um mesmo propósito: ativar uma maquinação ideológica para desqualificar opositores e colocar no debate/espaço público brasileiro temas e convicções extemporâneos, frequentemente centrados no apelo confuso à religião e à moral. “Vai haver uma limpeza como nunca houve antes nesse país. Vou varrer os vermelhos do Brasil. Ou vão embora ou vão para cadeia”, vociferou o então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral (ou seja, 65 anos após Carlos Lacerda!) na sua famosa transmissão para a avenida Paulista. Obviamente, o despropósito do presidente é muito maior. Lacerda não foi testemunha da queda do muro de Berlim e nem de toda derrocada do Leste Europeu que assistimos ao fim do século XX, eventos que desvelaram, definitivamente, um modelo político nada desejável. Diante disso, torna-se inevitável pensarmos o “fantasma do comunismo” como uma desatinada estratégia retórica sem vínculos muito concretos com a nossa realidade (ainda que setores da esquerda no país insistam na crença em caminhos pouco democráticos e supostamente redentores para a “nossa salvação”). 

Edição da editora Companhia das Letras da biografia “O anjo pornográfico”. Foto: Reprodução.

O segundo trecho está logo adiante, no capítulo 22 da obra, intitulado “O sangue em flor”. Trata-se de outra citação de terceiros, dessa vez do jornalista e escritor mineiro Paulo Mendes Campos. Na sua crítica à peça de Nelson “Os sete gatinhos”, que acabara de estrear (era outubro de 1958) no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro, P.M.C. escreveu: 

O mundo perde sempre um pouco da sua potencialidade trágica quando um preconceito é destituído. Se admitirmos, por hipótese, um mundo mentalmente asséptico, varrido de todos os preconceitos, estejamos certos de que o drama e a tragédia desaparecerão dos palcos. (Castro, 2001, p. 287)

De forma ousada, Paulo Mendes Campos sintetiza nesse excerto o teatro livre e sem concessões de Nelson Rodrigues. “Os sete gatinhos” narra em sua trama a história de uma família na qual quatro irmãs se deixavam prostituir pelo pai para que a caçula se casasse virgem – uma tragicomédia que expõe as vísceras de uma realidade suburbana brasileira, permeada de preconceitos e contradições. Parafraseando o próprio Nelson, o que ele nos oferece é a vida como ela é… 

Ao ler o fragmento de Paulo Mendes Campos acima, podemos facilmente nos lançar a pergunta: como seria hoje a recepção dessa sua crítica por parte da nossa atual esquerda identitária? Mesmo considerando que o leitor, como já nos alertou um teórico alemão, “nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua compreensão é justa” (Iser, 1979, p.87), desconfio que, muito provavelmente, ela não teria um bom acolhimento. No entanto, o que vemos nas palavras do autor de “O Amor acaba” não se trata de uma exaltação de ideias que nos remetem a discriminação e/ou a intolerância. O que elas nos trazem é a valorização do exercício teatral mimético, transferidor, cujo efeito catártico nos oferece antes a possibilidade de enxergarmos nossos valores e sentimentos e, aí sim, nos dando a chance de nos livrarmos dos preconceitos.

Eis dois pequenos recortes, retirados da minha leitura extemporânea d’O anjo pornográfico, que me levaram a aspectos/inferências da arena política brasileira contemporânea. Nessa condução, a admirável biografia me reafirmou aquilo que aprendemos desde cedo, que a literatura sempre nos consente unir a obra do escritor com a realidade do leitor, onde este último busca discernir como texto e repertório/experiência (aqui pode ser até mesmo um momento político) se encadeiam – esses são os motores do processo de significação. Um livro nunca é o mesmo, seja a cada releitura ou mesmo em sua primeira e distante leitura atemporal, como no caso descrito neste texto. O trabalho de Ruy Castro também me confirmou outra velha lição: “a literatura permite àquele que lê pensar e até organizar/reorganizar a complexidade que é a vida”. (Cassiano/Tofalini, 2012, p.1) 

Sobre o autor: Doutor em Estudos de Literatura pela PUC-Rio, Roberto Azoubel atualmente é Coordenador de Literatura na Secretaria de Cultura de Pernambuco.

Referências Bibliográficas:

CASSIANO, Luzia de Queiroz; TOFALINI, Luzia Aparecida Berloffa. Romance regionalista e denúncia social. In: PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. O professor PDE e os desafios da escola pública paranaense, 2009. Curitiba: SEED/PR., 2012. V.1. (Cadernos PDE). Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2009_uem_portugues_artigo_luzia_de_queiroz_cassiano.pdf>. Acesso em 23/08/2020. ISBN 978-85-8015-054-4.

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Hans Robert Jauss et al.; coordenação e tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. 

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