‘O barato sempre é pesado’

Na entrevista, Siba afirma que seu projeto atual é sobreviver, seja em meio às problemáticas acarretadas pela pandemia ou aos impasses do mercado musical

Por Anna Clara, Luiz Ribeiro e Sarah Coutinho


Foto realizada para o disco “Coruja Muda”, lançado em 2019. Foto: José de Holanda/Divulgação

O Café Colombo realizou uma entrevista com o cantor e compositor Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, popularmente conhecido por Siba. Com oito álbuns lançados, entre eles, “Fuloresta do Samba”, em 2002; “Coruja Muda”, 2019; “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”, em 2007, e “Avante”, em 2012. Ele nos contou sobre as incertezas do futuro em razão da pandemia, seus processos criativos, os impasses ainda existentes quando falamos sobre moderno e popular, além das suas perspectivas sobre os futuros projetos. Siba ainda soltou o verbo sobre as questões que caracterizam a transformação do mercado musical desde o início da sua carreira. Confira: 


Como funciona seu processo criativo? Nesse período de isolamento social, esse processo se tornou mais fluído ou está mais difícil? O barato continua pesado?

É difícil falar sobre como funciona o processo criativo porque não é uma coisa puramente criativa ou linear, ou algo em que se possa descrever passos. De modo geral, eu coleciono fragmentos que não são necessariamente aleatórios porque são ideias que aparecem ao longo do dia, de qualquer situação, ou mesmo de questões que eu estou tentando pensar. A partir desse momento, eu vou juntando esses pedaços. Tanto posso começar pelo texto quanto por uma ideia musical, mas já pressupondo, de algum modo, o espaço específico do texto na música. E aí chega o momento em que as coisas vão se juntando – geralmente tem que forçar uma “barrinha”, senão também nunca sai. A quarentena não trouxe para mim nenhum tipo de benefício, porque concentrou as tarefas domésticas com filhos e casa no mesmo espaço do trabalho. Fora a tensão ao redor, com as questões políticas no presente e a incerteza do futuro. Tudo isso não ajuda muito, porém tento me manter criativo mesmo assim. Mas o barato sempre é pesado!

O seu lançamento mais recente é Coruja Muda. Desde os tempos de Mestre Ambrósio, passando pela Fuloresta, até a carreira solo, como você enxerga as mudanças no mercado musical que consome e produz o moderno e o popular? 

Essa contraposição entre moderno e popular está equivocada desde o começo. Ela já determina de antemão que o popular é o passado e o moderno, o presente. Esse é o paradigma que nós devemos quebrar. É cansativo estar falando sempre sobre isso. Mas é a força do senso comum, que coloca essa porteira fechada a tudo que é popular. O mercado tem mudado. Quando comecei, ele praticamente não existia. Não havia uma perspectiva de mercado para o que a gente faz. Depois, com o Manguebeat, se abriu um tipo de mercado que nunca foi totalmente sustentável, sempre precisou de um subterfúgio como políticas públicas ou políticas institucionais. Mas mudou. Com a internet houve uma nova mudança. Agora, com a nova situação política e com a pandemia, ele muda novamente. Mas eu venho de um começo tão sem perspectiva que, por mais que assuste, é como se não assustasse.

Quais são os próximos projetos daqui pra frente? 

O projeto atual é sobreviver. Eu lancei um disco ano passado, que parece ter tido a vida “ao vivo” dele encurtada. Não há perspectiva de fazer um show com uma banda no palco nem tão cedo, não sabemos quando haverá isso novamente e quando houver em que tamanho vai ser possível. Tá tudo muito suspenso. Eu tenho escrito, tenho tentando me manter criativo, ensaio ideias de formatos diferentes, mas ainda é muito cedo para falar, até pelo próprio contexto que não permite que muita viagem seja concretizada em curto prazo. Agora, para mim, é muito mais um tempo de cuidados para poder escapar vivo. E aproveitar as oportunidades que aparecem, mas sabendo que este é um momento suspenso que necessita ser ultrapassado.

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