Triste visionário e um homem de seu tempo: o Brasil real de Lima Barreto é o mesmo dos nossos dias

Lima Barreto, escritor mais analítico do período pré-modernista é um intérprete do Brasil pós-abolição e proclamação da república
o escritor Lima Barreto em uma foto tirada durante a sua internação no Hospício Nacional de Alienados. Na foto: a blusa possui listras finas, um único botão na parte superior e um bolso  no lado esquerdo. O escritor está com uma fisionomia séria; possui olheiras; um olhar impenetrável e cabelos cacheados.
 Retrato de Lima Barreto, da ficha de internação no Hospício Nacional de Alienados. Rio de Janeiro, 1914. Foto: Divulgação

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que na sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Lima Barreto em crônica publicada na Gazeta da Tarde em 4 de maio de 1911.

O mês que marcou a abolição formal da escravatura no Brasil é também o mês de nascimento de um dos maiores e mais injustiçados nomes negros da literatura brasileira, o escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1922). O autor de Triste fim de Policarpo Quaresma denunciou a exclusão, a discriminação e lutou pela efetiva igualdade e liberdade, que pareciam muito vivas após a lei de abolição. Em sua crônica Maio ele descreve esse sentimento até mesmo entre as crianças da época, “Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres? Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enrolamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!”  

Neto de escravizados e filho de pais livres, Lima Barreto teve coragem de denunciar o racismo, as injustiças sociais na pós-abolição e fazer críticas políticas à República. Lima Barreto transportou para a literatura sua insatisfação. Se tornou um intérprete do Brasil ao criar um projeto literário próprio, atuando muitas vezes como personagem das obras. O triste fim de Policarpo Quaresma, uma de suas obras mais conhecidas, é considerada uma das peças chaves para a literatura brasileira. Publicada pela primeira vez em Folhetins no Jornal do Comércio em 1911 e impressa em livro em 1915, ganhou traduções em vários idiomas como espanhol, francês, inglês e alemão. Na obra, Lima descreve a vida política do Brasil após a proclamação da República – lê-se golpe – e denuncia a hipocrisia da sociedade moldada em valores europeus. 

Com o período pós-emancipação e a chegada da República, acreditava-se muito na utopia pela inclusão social. Porém, a realidade foi outra com os estrangeirismos e a pobreza que migrava da capital para as periferias do Rio de Janeiro. Com isso, morando no subúrbio e diante das injustiças de sua época aliadas à descaracterização da cultura e da sociedade brasileira, os problemas sociais, a pobreza e a questão racial constituem o núcleo central da literatura de Lima Barreto. O autor projeta em suas obras sua própria experiência de homem negro e pobre do subúrbio do Rio. Sua literatura em trânsito acompanha sua rotina que seguia a linha do trem da central do Brasil, unindo e separando o centro do subúrbio carioca. Com uma literatura em oposição à belle époque brasileira, o estilo do não corresponde às tendências de linguagem artística que o Brasil tentou reproduzir da Europa. Ele escreve acima de tudo sobre o real, e tece críticas à república, ao jornalismo artificial e a literatura que não lida com as questões da realidade da época. 

A capital do Brasil na época, o Rio de Janeiro, passou por um processo de modernização urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos – que ficou conhecido como o prefeito demolidor. Seguindo o modelo art nouveau, Pereira Passos modificou o perfil da cidade derrubando o velho e feio, para dar lugar ao novo e moderno, nesse sentido, o branqueamento surge como um projeto político, já que o velho e o feio eram associados à população negra. Aí está a influência direta na literatura crítica do Lima Barreto, que explica sua aversão a diversas formas de modernização. “Uma remota tolice que foi a tal república. No fundo, o que se deu em 15 de novembro foi a queda do partido liberal e a subida do conservador, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados.” Escrito em Coisas do reino de jambon (1956). 

O período que compreende o pré-modernismo não é, de fato, um estilo artístico-literário porque não há uma linha estética-ideológica dominante. A produção dessa fase de transição absorve a influência do simbolismo e do realismo/naturalismo. Porém, a literatura do Lima Barreto se destaca de forma bastante definida, mostrando o Brasil real que a elite tentava esconder. Com um tom jornalístico e expressões coloquiais, Lima monta um painel social do Brasil dos excluídos e dos marginalizados, sendo inclusive, o autor mais preocupado em descrever com detalhes as cores e os traços físicos das personagens, variações de tons de pele negra que antes não era uma preocupação evidenciar com tanto cuidado. Em Clara dos Anjos (1922), obra ambientada no subúrbio carioca – mais especificamente em Todos os Santos, bairro em que o Lima Barreto morava – é onde mais aparece essas definições de pele e traços negros.

Nota-se que, o problema da falta de definições do que hoje chamamos de cor social e cor local, se tratava de questões econômicas, políticas e principalmente de exclusão social. A questão da cor, a pobreza, a escravidão e os problemas da pós-abolição não era visto como algo importante, segundo Lilia Schwarcz em seu livro intitulado Lima Barreto – Triste visionário, publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras. O livro apresenta uma biografia do sujeito social do Lima Barreto, assim como uma releitura do pensamento do pré-modernista, buscando aprofundar a brasilidade e as lacunas sociais que outrora eram denunciadas por ele através de suas obras. 

No livro, a historiadora e antropóloga explica que a questão da exclusão racial foi um dos motivos para a Kodak, durante muito tempo, não utilizar filmes adequados para captar a cor da pele negra, a configuração permitia impressões de fotos muito esbranquiçadas dificultando identificar a cor negra e muito menos suas variações. Entretanto, o problema, ao que parece, não era exclusivo da tecnologia, mas da falta de importância na diversidade étnica e social que o Lima Barreto fez questão de representar em seus personagens. Hoje, muitos anos depois, são estudados na antropologia os termos; cor  local, cor social e colorismo. 

Talvez só agora, 100 após sua morte, a sociedade esteja realmente preparada para a modernidade do Lima, pois as lutas pelos direitos da população negra estão sendo discutidas com mais importância, pelo menos em comparação a antiga república. O mês em que foi promulgada a Lei áurea no Brasil – que só foi possível, além de pressão política, por meio de campanha popular aliada à resistência de pessoas escravizadas – também é lembrado como o mês que tornou populares as discussões sobre racismo e o descaso com a população negra. A morte de George Floyd, afro-americano assassinado por Derek Chauvin, um policial branco em 25 de maio de 2020, deu início ao Black Lives Matter e diversas outras manifestações contra o racismo. 

Outro fato que destaca a coincidência mórbida foi a operação policial violenta que resultou na morte de mais de 25 pessoas na favela de Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 6 de maio deste ano. Tal operação, que resultou na morte de um policial e colocou a vida dos moradores da favela em risco, é resultado da falta de planejamento da secretaria de segurança na atuação dos militares. É válido lembrar que a segurança pública se trata de um dever do estado e é um direito constitucional que deve ser exercido para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, como diz a constituição de 1988. 

Em um país que tentou ocultar o seu passado em virtude do processo de branqueamento da sociedade, muitos escritores negros tiveram sua imagem distorcidas ou até mesmo esquecidas pela história. Essa triste tentativa de exclusão e apagamento incluiu intelectuais negros como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Luís Gama, abolicionista que mesmo sendo negado a cursar direto e receber o diploma da antiga faculdade de direito da USP, aprendeu o oficio assistindo as aulas como ouvinte e com isso libertou aproximadamente 500 escravos judicialmente. Além do próprio Lima Barreto, que por muito tempo não teve o reconhecimento que merecia como homem intelectual importante para as questões sociais, sendo até mesmo impedido de ocupar um espaço na Academia Brasileira de Letras. 

Lima Barreto, que dizia que iria escrever a história da escravidão no Brasil, de certa forma o fez. Escrevendo sobre as transformações que camuflou a pobreza do Rio de forma que a periferia fosse quase invisível, jogada para as laterais da cidade. A verdade é que se ele enfrentou a dura vida do período da Primeira República quase que solitário. Hoje, Lima nos permite atravessar a fronteira do passado com seu legado que é, além de tudo, os seus escritos e a sua coragem, e passa ter cada vez mais reconhecimento póstumos, (aqui coloca um ponto e inicia a frase em letra maiúscula) a exemplo da homenagem na Festa Literária de Paraty (FLIP) no ano de 2017 e o do monólogo Traga-me a cabeça de Lima Barreto! apresentado pelo ator Hilton Cobra em 2019. Livremente inspirada nas obras do Lima Barreto, especialmente Cemitério dos vivos, a belíssima obra de ficção, fala sobre a eugenia como projeto de desenvolvimento, suscitada a partir do questionamento racista de como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias, se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores.

Internado duas vezes no Hospital Nacional de Alienados entre os anos de 1914 e 1918 em decorrência do alcoolismo, morreu jovem aos 41 anos, no mesmo ano que aconteceu a semana de arte moderna no Rio de Janeiro. De mim para mim, tenho certeza de que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há seis anos me assoberba, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro.”  Lima Barreto em Diário de Hospício escrito entre os anos de 1919 e 1920. O diário foi publicado pela editora Companhia das Letras postumamente, em 1953 e em 2010, incluindo o romance inacabado O Cemitério dos Vivos, sobre a loucura e sua percepção.

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