O jazz de Billie Holiday: contexto histórico e a influência do gênero musical

Uma análise crítica de The United States vs Billie Holiday e a influência do jazz na luta contra o racismo institucionalizado nos Estados Unidos

Estados unidos da América 

“O limite da sua justiça não está bem definido […] 

sua orientação segregacionista é amiga da morte dos negros […] 

ela mata seu futuro brilhante e estupra por uma alma, 

então prende seus filhos usando lendas falsas”

(Maya Angelou)

O jazz foi um estilo de vida que abriu espaço para reflexão sobre o racismo dentro do cenário cultural dos Estados Unidos. Pensando na trajetória dos artistas que fizeram parte desse estilo musical e o contexto no qual estavam inseridos, entende-se que não se pode compreender o jazz sem conhecer a situação histórica e a vida de seus músicos. O filme The United States vs Billie Holiday (2021), apresenta discussões sobre a presença desse gênero como forma de resistência racial, a partir de recortes da vida da cantora e compositora Billie Holiday.  

O gênero se relaciona diretamente com os movimentos pelos direitos civis nos EUA. A era dos direitos civis, que correspondem às três décadas após a segunda guerra mundial, foi  cenário para mudanças na cultura e na política do país. Movimentos como Panteras Negras e a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), por exemplo, fizeram com que várias leis discriminatórias fossem abolidas. 

É válido ressaltar que a música pode ser vista como instrumento de resistência,  usada para denunciar práticas e valores sociais em cenários históricos. Nessa perspectiva, podemos relacionar o jazz e o samba. Ambos os ritmos  possuem similaridade na herança e ancestralidade africana e ajudaram a definir a identidade cultural de seus países. Os dois gêneros foram compostos principalmente por ecos caribenhos e africanos, como conta Jefferson Mello, autor do livro Os Caminhos Do Jazz (2004) e diretor do documentário Samba e Jazz: Rio de Janeiro – New Orleans (2015). 

Dito isso, podemos associar as performances de Billie Holiday e Elza Soares, que se apresentam na memória coletiva e experiências da mulher negra. Elza, de maneira singular, ressignifica o simbolismo do corpo negro feminino, visto historicamente como um corpo sexualmente objetificado. Com seu samba-jazz  tornou-se pioneira em espaços para a mulher negra no cenário musical brasileiro. A mulher do fim do mundo, último álbum de Elza lançado em 2015, fala sobre temas como a sexualidade, racismo, violência contra mulher e a identidade negra. Holiday também foi pioneira em politizar a música, sendo a primeira artista negra a se apresentar no Metropolitan Opera House em 1944.  

The United States vs. Billie Holiday (2021), dirigido por Lee Daniels, foi baseado no livro Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs do jornalista Johann Hari. No filme, o autor discorre especialmente sobre as décadas de 1930 e 1940, com relação à guerra às drogas nos Estados Unidos – que usou, perseguiu e controlou a vida da cantora Billie Holiday como exemplo para as novas políticas rígidas adotadas pelo governo. Podemos dizer que tal controle presumia a distribuição da espécie humana em grupos e subgrupos, o que Foucault rotula com o termo racismo, conforme abordou Achille Mbembe no livro Necropolítica (2011).

Apesar da escolha do diretor em abordar a vida da Billie Holiday de forma muito superficial, é possível refletir sobre a vida de uma mulher que virou alvo dos Estados Unidos, país que se aproveitou de sua fragilidade e envolvimento com drogas, para tentar diminuir sua influência e criar uma imagem negativa de uma mulher negra diante da sociedade. No entanto, as narrativas relacionadas às substâncias não aprofundaram o contexto político, a seletividade e o racismo institucionalizado, que determinaram sua relação complexa com o corpo e as drogas, comprometendo o entendimento do público quanto ao recorte cronológico mal definido.

Todavia, a personagem protagonizada por Andra Day ganha destaque pela atuação, sendo essa responsável pela indicação ao Oscar 2021 no prêmio de melhor atriz. Assim como a atuação de Chadwick Boseman e Viola Davis em Ma Rainey’s Black Bottom (2020), que também receberam indicações como melhores atores para a premiação deste ano. A qualidade da interpretação desses atores conseguiu amenizar os problemas de desenvolvimento das tramas, que deixaram a desejar nas discussões sobre racismo, relações de poder da época e o papel do Jazz.

Mulher no palco cantando jazz, ela usa um vestido preto, uma flor branca no cabelo e batom vermelho.

Andra Day, atriz, cantora e compositora de Blues, Soul, Jazz e R&B, interpretou Billie Holiday em The United States vs. Billie Holiday. Foto: Reprodução/Hulu.

Ainda que o filme tenha apresentado dificuldade cronológica, o melodrama abre espaços para várias temáticas secundárias, dando maior atenção ao caso dos vícios. Nesse sentido, a figura do Harry Jacob Anslinger, agente do serviço de Narcóticos dos Estados Unidos (FBN), se faz necessária para o entendimento do contexto. Anslinger tinha William Randolph Hearst, dono de uma grande rede de jornais, como um aliado poderoso na guerra contra as drogas – foi nele que o diretor Orson Welles se inspirou para fazer Cidadão Kane. 

É fato que a intenção do governo era manchar a imagem de uma mulher negra, atuando de forma seletiva.  Judy Garland também tinha problemas com as drogas, mas o departamento protegeu a imagem dela aconselhando a tirar férias mais longas. Uma senhora bonita e graciosa, segundo Anslinger, não poderia destruir a reputação imaculada de uma das famílias mais honradas da nação. A influência e o poder direcionaram quem seria condenado e perseguido. Como bem observou Silvio Almeida em seu livro Racismo estrutural, citando Black Power: Politics of Liberation in America, de Charles V. Hamilton e Kwame Ture, “a aplicação de decisões e políticas que consideram a raça com o propósito de subordinar um grupo racial e manter o controle sobre esse grupo”.

A guerra não era pelas drogas, mas sim uma tentativa de sufocar a era do jazz, que para ele seria uma ameaça ao American Way, “drogas e crioulos são uma contaminação a nossa civilização americana”, disse Anslinger no filme. Para Anslinger, o jazz era anarquia musical, a vida dos jazzistas, disse ele, cheirava à sujeira. Com isso, os anos que se seguiram fabricando uma guerra às drogas, foram na verdade, um projeto para criação do complexo industrial prisional americano. Não à toa que o Anslinger permaneceu como comissário do escritório federal de narcóticos até se aposentar aos 70 anos, com direito a título de cidadão distinto assinado pelo presidente John F. Kennedy – qualquer coincidência é mera semelhança com o termo cidadão de bem. 

Durante o diálogo com o jornalista Reginald Lord, Divine, interpretado por Leslie Jordan, ao afirmar que a guerra era contra as drogas e não a Holiday, a mesma responde “é o que eles querem que vocês acreditem”. A fala da personagem lembra o poema Estados unidos da América, de Maya Angelou, no qual ela fala que “a orientação segregacionista norte americana é amiga da morte dos negros”. Ao ser questionada sobre o motivo da perseguição, Holiday responde que tal perseguição tem a ver com Strange fruit, “minha música lembra a eles que estão nos matando, lembra a você também, Reginaldo”. 

Ainda sobre o diálogo com o jornalista “Porque você não para de cantar a bendita canção? Sua vida não seria mais fácil se você se comportasse?” questiona o jornalista à Holiday, representando o pensamento de muitos que consideram manifestações antirracistas como desorganização. O que certamente permitiu que grupos de movimentos racistas de supremacia branca desde o Ku Klux Klan até os mais recentes como QAnon, Proud Boys e o White Power permaneçam se perpetuando em dias atuais associados a grupos de extrema direita. 

Os anos que precedem os movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos foram marcados por muita violência. As notícias sobre as atrocidades do período circularam pelo mundo todo, como a reportagem publicada com o título “Animosidade entre pretos e brancos nos Estados Unidos” no Diário de Pernambuco em 13 de maio de 1930, na edição 00109. A notícia era sobre uma multidão no estado do Texas que invadiu o palácio da justiça a fim de linchar um homem negro acusado de atentado ao pudor a uma moça branca.  Após morrer no incêndio, o homem foi arrastado pelas ruas amarrado a um automóvel.

Nesse contexto, a música Strange fruit foi o ponto principal do filme  porque a letra era vista pelo governo como perigosa, portanto, proibida. O poema, escrito pelo compositor judeu Abel Meeropol, a partir da fotografia do Lawrence Beitler que chocou o país, resultou na música interpretada por Billie Holiday, vencedora da canção do século pela revista Times em 1999. A canção fala do linchamento de dois homens negros, Thomas Shipp e Abram Smith, em 1930. A canção interpretada por Holiday foi usada em campanhas na tentativa de incentivar a criação de leis antilinchamento no país.

Apesar de manter o foco da trama na música impactante, a narrativa deixou a desejar por não aprofundar o significado do jazz na luta pelos direitos civis. O filme poderia apresentar melhor a relação da Holiday com outros personagens, a exemplo de Jimmy Fletcher, personagem do Trevante Rhodes e a forma como um homem negro foi usado pelos interesses do governo, assim como poderia expor melhor a aproximação com Louis Amstrong, figura importante no jazz, que protagonizou o filme New Orleans em 1947 ao lado de Billie Holiday.

A relação da Holiday com as drogas está intrinsecamente ligada às tristezas. Desde sua infância as drogas ajudaram a suportar as dores, de acordo com Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz (1956), de Billie Holiday e William Dufty. Possivelmente essas dores refletiram em suas relações afetivas. Segundo sua mãe havia apenas dois caminhos para uma mulher negra e pobre: tornar-se prostituta ou doméstica. Para Holiday, puta seria somente a mulher de um homem, não necessariamente a que vende o corpo por dinheiro. Por essa razão, ela se referia aos homens com quem se relacionou como cafetões, visto que estes administravam seu corpo e seu dinheiro – a palavra administrar é um eufemismo utilizado pela Holiday para se referir aos homens que a roubaram e espancaram.

Billie Holiday, cantora de jazz de óculos deitada no sofá com um livro na mão, foto preto e branco.

Billie Holiday lendo Lady sings the blues: a autobiografia dilacerada de uma lenda do jazz. Foto: Divulgação.

É significativa a presença de The United States vs. Billie Holiday entre as indicações ao Oscar 2021. Um ano revolucionário na história do cinema por conter um considerável número de pessoas negras em comparação com os anos anteriores. Destaque para Judas and the Black Messiah (2021), com uma equipe majoritariamente negra e para Mia Neal e Jamika Wilson, as primeiras negras a serem indicadas ao prêmio de melhor maquiagem com a Voz Suprema do Blues.

Billie Holiday, pioneira em popularizar o jazz vocal, foi a primeira mulher negra no país a conquistar espaços antes renegados aos negros e transmitiu sua mensagem de crítica social através da música, se tornando a primeira pessoa, de muitas apresentações de músicos negros, na famosa casa de Ópera de Nova Iorque. 

Em síntese, Billie Holiday, também conhecida como Lady Day, é um expressivo nome da primeira vertente do Jazz: o swing. A carreira da cantora é um símbolo para os movimentos, assim como um caminho para pensar a conjuntura dos direitos da população negra hoje. Conforme disse Nietzsche, aprendemos cada vez melhor a impulsionar a história à serviço da vida.

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