‘Dois andantes e um satélite’ e o perigo da poesia

Uma reflexão entre poesia, política e governo brasileiro a partir do mais novo livro de José Alfredo, recém-lançado pela editora Cepe
Capa de Dois andantes e um satélite, novela de José Alfredo Santos Abrão, editora Cepe

Capa de Dois andantes e um satélite, novela de José Alfredo Santos Abrão, recém-lançada pela Cepe editora em abril deste ano. Divulgação.

En la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas

Paulo Leminski

“Poesia tem um alto poder destrutivo, capaz de se instalar em qualquer meio e explodir, como uma bomba carregada de símbolos que parecem inocentes, mas são letais”, diz Amarante para Antônia em certo momento do diálogo. Esse trecho do mais recente livro de José Alfredo, escritor paulista radicado em Pernambuco, Dois andantes e um satélite, explica bem o motivo de ambos os personagens buscarem, ao longo de uma andança pelas ruas do centro de Recife e através da arte e poesia, construir uma ópera que instigue um sentimento revolucionário no público.

As 24 horas de conversa entre Antônia e Amarante são regadas a alguns goles de cachaça e repletas de reflexões filosóficas, políticas, e principalmente poéticas, que atribuem à novela um caráter humanista e uma riqueza conceitual bastante interessante. Contudo, vale salientar que boa parte dos diálogos giram em torno de um assunto: a política.

No que diz respeito à política brasileira, outro trecho do livro salta aos olhos ao destacar que “na maioria dos momentos históricos, a brasilidade costuma se situar entre a imaturidade e a malandragem – numa coisa ao mesmo tempo infantil e perversa”. Trata-se de uma fala de Antônia que tanto encontra ecos no governo atual, dono de uma perversidade sempre circundada de imaturidade e malandragem, nos últimos dias ainda mais visível com a CPI da Covid-19.

A partir disso, a arte – e, em especial, o teatro e a poesia – são percebidos pelos andantes como importantes bombas capazes de despertar no público uma ânsia revolucionária que combata esse espírito de Brasil “deitado eternamente em berço berço esplêndido”, uma inércia cidadã frequente na história brasileira. E, se bem observado, não deve ser coincidência o perfil politicamente engajado em poetas ou políticos engajados na poesia. 

Como exemplo, me vem à mente Carlos Marighella, que, além da trajetória política, literária e guerrilheira durante o período militar, também se dedicou à poesia. O filme dirigido pelo Wagner Moura baseado na história do político, que inclusive chegou a ficar disponível na Internet neste mês, ressalta em certo momento a tradução de livros seus para o exterior. A ligação da política e sua poesia é bastante presente no poema “Liberdade” e “País de uma nota só”.

Não pretendo nada

nem flores, louvores, triunfos.

nada de nada.

Somente um protesto,

uma brecha no muro,

e fazer ecoar,

com voz surda que seja,

e sem outro valor,

o que se esconde no peito,

no fundo da alma

de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,

a ideia que puseram no cárcere… “

Trecho do poema “O país de uma nota só”, Carlos Marighella

A denúncia social e política através do verso também é algo presente na obra de Ferreira Gullar, um dos gigantes da poesia brasileira. Ou até mesmo de Patativa do Assaré, que tanto denunciou em sua metrificação popular as injustiças sociais de boa parte do povo nordestino. Relembrar a utilização da arte e da poesia, no caso do livro e de outros exemplos de poetas engajados politicamente, parece fundamentar uma interpretação possível ao verso de Matilde Campilho quando, em “O amor faz-me fome”, escreve que “o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução”. 

A partir desse verso, ao relembrar a obra de poetas aqui citados e ao ler Dois andantes e um satélite nesse contexto político brasileiro, entre tantas outras reflexões que este suscita, uma me toma neste momento: com quantos poemas se explode um governo?

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