O maior e mais saudoso São João do Mundo

Uma reflexão sobre a relação entre Nordeste, saudade e música em uma das maiores festas ao ar livre da região: o São João

Uma reflexão sobre a relação entre Nordeste, saudade, música e São João

Estação Ferroviária, um dos polos culturais do São João de Caruaru. Foto: Arnaldo Felix e Janaína Pepeu / Divulgação

Cadê aquele balãozinho, Siá Filiça,
que coloria o meu lugar? –
Siá Filiça”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino

Junho e seu frio chegaram. Entretanto, esse frio junino não será amenizado pelo fogo de fogueiras avulsas em calçadas, resquício urbano da tradição rural; ou então pela dança, ligeira de um forró ou lenta e aconchegante de um xote. Tampouco será amenizado pelo calor irônico das noites lotadas no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga, em Caruaru. Mais difícil ainda: um frio incapaz de ser amenizado até por abraços, pois abraçar é se arriscar e manter distância, um ato de amor.

Junho chegou! E junto dele, esse frio que só encontra antídoto em lençóis e agasalhos, outrora abandonados, e no acalento das memórias de um passado recente.

Junho chegou de repente, sem dar avisos coloridos como antes, bateu na porta… e eu não o reconheço.  

Como caruaruense nato, cresci acostumado ao perfume de fumaça deste mês, às suas saudáveis aglomerações, e a ouvir o som de rojões marcando o compasso da música que ecoa pela noite da cidade. Tudo isso falta devido à pandemia do novo coronavírus, mas uma coisa deste Junho me é familiar, embora desta vez se faça maior que em outros anos: a nostalgia.

De fato, a nostalgia e lembrança do passado especificamente desta época são incomensuráveis por haver saudades não só do São João, mas também de amigos, da vida social e de sair de casa (para aqueles que na medida do possível e acertadamente evitam sair de casa). Entretanto, essa nostalgia e até mesmo a saudade sempre foram temas explícitos e implícitos nos festejos juninos.

Nordeste do Passado

A princípio a festa junina é conhecida como típica do Nordeste, cujas raízes remetem a um passado rural no qual se comemora o período de colheita, em especial do milho. Além disso, várias outras características da festa em Caruaru remetem à cultura “tradicional” do Nordeste, como é o caso da gastronomia, da religiosidade, das quadrilhas, dos personagens e da música.

Todavia, no livro A Invenção do Nordeste e outras artes, o autor, Durval Muniz de Albuquerque, nos convida a uma reflexão interessante sobre o quanto a cultura conhecida como tipicamente nordestina é construída tendo por base práticas e discursos regionalistas que alicerçam a região sobre pilares da tradição e da saudade de um passado.

Em seu trabalho, Durval apresenta esse resgate do passado na criação da imagem do Nordeste como um movimento coordenado pela elite nordestina, no fim da primeira década do século XX, que teve dois fatores principais.

Antes de tudo, o primeiro foi a globalização e suas mudanças nas relações sociais e econômicas capitalistas; já o segundo, a nacionalização das relações de poder e a concentração deste em um estado. Isso ameaçou o poder da elite nordestina e deu origem a uma tentativa de manter o poder na região. Um poder cuja extensão, me permitam afirmar, se mostrou e mostra coronelista e historicamente ultrapassada. A partir disso, muito do que se entende por cultura nordestina seria uma construção nostálgica.

Para atingir tal fim, uma importante ferramenta – além da produção literária de Gilberto Freyre e do romance de trinta citadas também no livro – foi a música, mais especificamente o forró e seus sub-gêneros tradicionais como o baião, xote e o xaxado.

Capa da 5ªedição do livro “A invenção do Nordeste e outras artes” / Foto divulgação

A música nostálgica

Esse gênero musical, essencial para a configuração da festa junina, tem suas origens na música de Luiz Gonzaga. Música esta cujo público ouvinte era formado, majoritariamente, por migrantes nordestinos residentes no Sudeste do Brasil e moradores das capitais nordestinas. Isto é, pessoas que moravam em metrópoles que tinham um passado situado no interior do Nordeste.

Estas pessoas encontravam na música de Gonzaga, que remete a temas e sonoridades do interior nordestino, uma identificação enquanto pertencente a uma comunidade em comum e uma volta ao tempo e às memórias idílicas do passado. 

Dessa forma, o baião e consequentemente o forró, são gêneros concebidos no meio urbano, em um clima de saudade compartilhado do passado interiorano. 

Ouvindo a músicas célebres do forró assim que junho chegou – talvez para tentar matar uma saudade que no fim das contas só foi alimentada – notei o quanto a nostalgia e saudade se fazem presentes em boa parte das canções que sempre fizeram parte de uma festa junina. Exemplos destas canções são Siá Filiça e Lembrança de um beijo, gravadas por Santanna; Asa Branca e A vida do viajante, gravadas por Luiz Gonzaga; Caruaru do Passado, gravada por Azulão; Confidências, de Petrúcio Amorim, e tantas outras músicas saudosas.

Assim, é possível perceber muito frequentemente na trilha sonora do São João um eu-lírico nostálgico, distante de sua terra natal, de pessoas queridas, de momentos vividos ou de paixões arrebatadoras.

São João da saudade

Isso não significa dizer que o São João é uma festa que olha unicamente para o passado. O Palco Principal das celebrações com estilos majoritariamente contemporâneos e o palco Azulão no qual artistas de diferentes gêneros musicais se apresentam são provas disso. Tampouco significa que toda a cultura popular não passa de uma ilusão criada pelas elites nordestinas do início do século XX. Em contrapartida, permite-nos observar que a origem da festa tem profundas ligações com uma espécie de culto ao passado. Além disso, permite constatar que a relação deste mês com a saudade já vem de um bom tempo.

É devido a essa mistura entre a saudade imbricada na cultura e música do São João com a impossibilidade de compartilhar a alegria dessas festividades com amigos, familiares e paixões, que a saudade existente nesse mês é duplicada. Mas se, como disse o poeta popular Pinto do Monteiro, “saudade de amor ausente não é saudade, é lembrança / saudade só é saudade quando morre a esperança”,

pode-se concluir, então,
que basta mantermos a esperança,
pra toda essa saudade virar uma lembrança
e ser cantada noutra festa de São João.

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