O protagonismo feminino no cinema de Cecília da Fonte

Cecília da Fonte, produtora e diretora pernambucana, nos convida a refletir sobre política, cinema, feminismo e maternidade
Diretora de cinema, Cecília da Fonte, mulher com a mão na cabeça, fazendo pose, foto preto e branca.

Na foto, Cecília da Fonte, diretora de cinema e membra do Movimento de Mulheres no Audiovisual de Pernambuco (MAPE). Foto: Manuela Arruda Galindo/Divulgação.

Mulher, mãe, realizadora audiovisual, feminista e membra do Movimento de Mulheres no Audiovisual de Pernambuco (MAPE).  Cecília da Fonte, é um expoente dentro do cenário político e cultural do cinema pernambucano. Integrante do coletivo feminista de intervenção urbana formado por mulheres pernambucanas, o Deixa Ela Em Paz, acredita na arte e no ativismo como formas de ressignificar o cotidiano das mulheres. O coletivo promove ações de formação e ativismo digital sobre o enfrentamento ao machismo e à discriminação de gênero. Além disso, cria espaços de diálogo e formação com a realização de oficinas, palestras e encontros para mulheres, a exemplo do Circuito de Enfrentamento Urbano (CEU).

Pensar politicamente é pensar na perspectiva de inclusão do outro, no que se refere ao pluralismo no âmbito político, defendido por Hannah Arendt. Nesse sentido, Cecília atuou como colaboradora na Oficina de Acesso à Política, realizada pelo coletivo Rede Tumulto com o objetivo de informar jovens periféricos sobre os papéis de prefeitos e vereadores. Alguns temas propostos pela oficina também foram sobre o papel do sujeito político, racismo, machismo, falta de representatividade no espaço da política partidária e lutas coletivas. Na oficina, os conteúdos são expostos de forma didática, a fim de excluir a ideia de que falar sobre política é fatigante, incentivando o uso do audiovisual como ferramenta para estimular as pessoas a exporem suas ideias.

Cecília hoje segue os passos de outras mulheres pioneiras, a exemplo da escritora brasileira Albertina Bertha, membra do movimento que defendia a criação de uma Academia Feminina de Letras. Bertha debateu temas políticos, assim como o papel da mulher brasileira no extinto jornal Correio da Manhã, em 1926. Além disso, através das personagens em seus romances, expressava sobre questões morais, direitos humanos, o lugar da mulher na sociedade brasileira e outras questões de ordem política.

O protagonismo feminino é o mesmo mote da obra literária Mulheres do Caos Venezuelano (2017), filme da escritora, diretora e produtora franco-venezuelana Margarita Cadenas. Cadenas apresenta, por meio de perspectivas femininas, questões do cenário político do seu país, dentro de um contexto em que o processo de democratização, as eleições e a venda de petróleo – motivo de muitos conflitos – levaram o país a uma crise histórica. 

Apesar de não enfatizar questões sobre a origem do problema, o longa abre espaço para um panorama da crise. Ao invés das costumeiras falas de homens do governo, em Mulheres do Caos Venezuelano (2017), são mulheres de realidades diferentes que falam sobre os impactos do contexto político em suas vidas.

No Brasil, o documentário Lute como uma menina (2016), de Beatriz Alonso e Flávio Colombini, retrata a presença feminina na revolução política e estudantil de 2015, durante as manobras de reorganização das escolas públicas em São Paulo. O documentário mostra a forte atuação de meninas que lutaram pela educação em defesa de políticas educacionais mais eficientes.

Em Pernambuco, o cenário de mulheres articulando política através de meios artísticos ganhou espaço considerável nos últimos anos. Nesse sentido, nada melhor do que ouvir de uma realizadora do audiovisual Pernambucano sobre suas experiências. Por isso, o Café Colombo entrevistou a diretora Cecília da Fonte. Uma conversa sobre as subjetividades, sensibilidades e possibilidades políticas do audiovisual pernambucano.

Quem é Cecília da Fonte? Como você se descreve?

Eu sou Cecília, tenho 32 anos. Eu sou mulher, feminista, mãe de Francisco de 6 anos e realizadora audiovisual. Trabalho com cinema há 10 anos e já desempenhei funções como produção, assistente de direção, roteiro, pesquisa e direção de alguns projetos autorais. Eu costumo descrever que eu sou uma entusiasta do audiovisual como uma ferramenta de transformação. Acredito no  cinema como  uma linguagem que permite criar e recriar histórias e identificar as desigualdades existentes na sociedade em que vivemos.  Uma potente ferramenta de reflexão para a gente pensar coletivamente no mundo que a gente acredita e que a gente quer ver.

Mulher com uma câmera na mão, filmando a marcha das vadias em Recife, 2016.

  Cecília na marcha das vadias em 2016, ano em que foi criado o MAPE. Foto: Barbara Cunha/Divulgação.

O feminismo aparece com ênfase em sua trajetória profissional. O MAPE é uma importante ferramenta dentro do audiovisual pernambucano para fortalecer as mulheres no debate político. Como o movimento se posiciona na entrada de mais mulheres no audiovisual?

É um movimento que surgiu em 2016, junto com o golpe que tirou a ex-presidenta eleita, Dilma Rousseff, injustamente e antidemocraticamente de seu cargo. Na época, entendemos que esse golpe era além de antidemocrático, machista. Então nos reunimos para criar narrativas sobre aquilo que estava acontecendo sob nossas perspectivas. O MAPE é um grupo ativo, que vai para além das  pessoas integrantes dentro do movimento. Estamos presentes em escolas, cineclubes de organização popular articulados por movimentos sociais com o objetivo de trazer o audiovisual para o debate, enquanto uma ferramenta de construção política e social.

Nós somos um grupo feminista que partimos dessa premissa de que o pessoal é político. Então nós trazemos as nossas experiências,  nossas vozes, os nossos corpos  e os nossos olhares para debatermos sobre a representação da mulher. Não só dentro do cinema, mas também no mercado de trabalho. Além de dialogar sobre a importância de se ter produções compostas por mais mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas periféricas, deficientes e povos originários.  Também ajudamos outras mulheres, a partir da  troca de nossas formações. 

Inspirado no conto Cem Anos de Perdão da escritora Clarice Lispector, o filme Sexta Série (2012), apresenta uma reflexão filosófica acerca das descobertas e mudanças na etapa de transição física e psicológica de meninas de 12 anos. Como se deu esse processo de criação?

O Sexta Série  é o  primeiro curta que realizei. Ele foi feito em 2012 e eu tenho um carinho muito grande por ele. Existe uma grande dificuldade para nós, mulheres, pensarmos como criadoras.  Nós somos muito desencorajadas a falar e produzir sobre as nossas histórias o tempo todo. Ao ponto de pensar que aquilo que a gente viveu  não é um motivo de história interessante. Por isso, ocupamos menos espaços de protagonismo na direção, no roteiro e na criação. Isso resultou em muitos processos de ocultamento de mulheres durante a história.

O Sexta Série traz um olhar que se coloca na experiência de duas meninas que estão nesse momento de adolescer. Eu tive muita insegurança nessa fase. Eu cheguei a ouvir de um fotógrafo que aquilo não era roteiro, que não era uma história porque não tinha um conflito  e, para mim, o conflito estava posto a partir do momento em que o filme sugere experiências que são vividas em uma inadequação, que é a adolescência. A inadequação já é um grande conflito, principalmente para meninas que estão se tornando mulheres.                                         

Como o Sexta Série contribui para o debate político?

A partir do momento que um filme é realizado por meninas e mulheres,  em sua maioria, ele contribui na reflexão desses espaços de poder e no machismo estrutural que estamos cercadas. O filme teve uma circulação e feedbacks interessantes. Os mais interessantes foram de  meninas com mais ou menos a idade das protagonistas. Elas diziam: “Ah, eu já fiz isso. Eu também senti aquilo.” Quando nos interessamos pelas nossas histórias e por histórias de outras mulheres, dialogamos e cooperamos para que elas também ocupem espaços importantes na sociedade.

Eu acho que esse é o grande objetivo: que outras mulheres também se reconheçam na história e que possam identificar que sim, suas histórias importam. Suas histórias são passíveis de serem contadas e de serem interessantes!  O Sexta Série contribui, de uma maneira bem sutil, com muito amor e afeto para quem o assiste e eu acredito que esse seja um diferencial da política feita por mulheres.

Cartaz do filme Sexta Série, 2013. Desenhos abstratos.

Cartaz vencedor do prêmio de Melhor Cartaz no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba, 2014. Foto: Divulgação. 

Você já teve experiências em outros países? 

Morei um ano em Buenos Aires, estudando cinema, porque em Recife ainda não tinha o curso de cinema na época. O cinema argentino me interessa muito por apresentar características narrativas mais voltadas para a experiência. Além disso, eu acreditava que era preciso ter uma identificação na América Latina para começar a falar sobre cinema. Aqui no Brasil, até por conta da língua, somos mais isolados nesse sentimento de pertencimento latino-americano. Estudando em Buenos Aires, eu pude ampliar a visão sobre diferentes linguagens possíveis dentro do cinema. E foi muito massa poder exercitar e conhecer essa sensibilidade que o cinema argentino tem! Depois eu fui à Angola para trabalhar em uma produtora, fiquei lá por três meses e tive a oportunidade de conhecer outra cultura completamente diferente. Os angolanos e angolanas são muito corporais, gestuais e isso me atravessou muito enquanto pensava sobre cinema. 

Como foi sua experiência com a maternidade? Como ela se relaciona com a sua produção cinematográfica?

Em 2013, tive a oportunidade de ir para Venezuela, para participar de um laboratório de roteiro. Passei um mês desenvolvendo a pesquisa, e tendo consultorias para o meu documentário Parquelândia, lançado em 2018. Eu estava grávida, de uma gravidez inesperada, e acabei me encontrando em uma estrutura muito machista que não acolhe a realidade da maternidade.  Porque boa parte dos realizadores eram homens,  então as mulheres  eram minoria. Além disso, éramos todos jovens, mas ninguém era mãe.  Com isso, eu fui prevendo aos poucos o que viria acontecer depois que eu me tornasse mãe.

O audiovisual ainda é uma categoria que tem muitos problemas estruturais, precários. Ainda mais para mulheres e mães. Eu senti muito esse isolamento.  Mas eu coloquei meus projetos autorais como prioridade e isso  me impulsionou a continuar. Foi quando eu percebi que  poderia colocar esse espaço da maternidade dentro dos meus filmes e tornar esse ambiente mais acolhedor. 

Na  filosofia política de Aristóteles, o homem é um animal político, sugere que o ser humano é um ser político conforme sua própria natureza. O que você considera como sujeito político?

Viver é um ato político e fazer filmes é uma das ferramentas que a gente tem para atuar politicamente, enquanto pessoas que pensam e enquanto um projeto coletivo voltado à  sociedade. Eu acho que todo mundo, em suas diferentes atuações, tem um papel na construção política que se dá na prática do dia a dia. Entender que toda essa construção de sociedade que a gente vive é estrutural, é saber que cada pessoa tem uma responsabilidade coletiva na vida do outro. A política não está apenas no voto institucional, todas as nossas escolhas são políticas, todas as nossas posições são políticas, a forma como a gente atua no mundo é política. Se você não politiza um debate, você já está escolhendo um lado.

Então é muito importante a gente trazer essa prática política em todos os aspectos da nossa vida. É justamente em cada ação que se dá a manutenção ou não dos privilégios, do patriarcado, do racismo, da LGBTfobia e de todas essas estruturas de opressão que moldam o imaginário coletivo hegemônico e que atuam em uma estrutura de opressão que exclui. Eu também acho que o cinema está inserido nessa responsabilidade de pensar politicamente o entretenimento.  Não só para mim como realizadora, mas como alguém que assiste.

 O que te inspirou a fazer ações políticas através do cinema? 

Como disse anteriormente, eu acredito que o audiovisual seja uma ferramenta muito potente para explorar a diversidade de narrativas e protagonismos. A linguagem do cinema permite um diálogo com a realidade. Portanto, a mídia é uma arma nesse sentido. Nós somos bombardeados com a construção de imaginários todos os dias. Isso também nos ajuda a pensar na contranarrativa, pensar em como nós podemos produzir novas formas, e proporcionar espaços de reconhecimento em novas histórias. Acredito muito na força do audiovisual como um espaço de contestação à reprodução dessas violências.

Para concluir, quais mulheres te inspiram?

Mulheres que estão no nosso dia a dia. Minhas referências são Dea Ferraz, Milena Times, Yane Mendez, Bruninha Leite, Lara Bione, Maria Samara, Wilma Queiroz, Danielle Valentin, entre outras. Todas as mulheres que constroem o MAPE também são mulheres incríveis, são mulheres inspiradoras, que acreditam tanto quanto eu nesse projeto. A gente não precisa ir muito longe para entender a força das  mulheres. São elas que estão construindo e reconstruindo o audiovisual e o cinema, contribuindo para essa mudança dentro e fora dele. Precisamos nos fortalecer cada vez mais e nos inspirar em quem está ao nosso lado para que a luta continue. 

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