O que se esquece ao guardar as luzes de ano novo

Sobre tudo que envolve a passagem de um ano para outro: serão os piscas-piscas um reflexo de nossa própria impermanência?
Foto: Museu WEG de Ciência e Tecnologia

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre –

Carlos Drummond de Andrade

Hoje ouvi minha mãe se perguntar se já deveria retirar os piscas-piscas da sala após algum tempo já ter passado da virada de ano novo. Do meu quarto, pensei comigo mesmo que poderia deixar um pouco mais e de alguma forma ela também pensou assim. Não sei por qual motivo. Talvez pelo apego à aparente beleza que o pisca-pisca agrega à sala. Entretanto, para além da beleza de uma estrela terrestre, gosto de pensar no pisca-pisca como uma mensagem metafórica sobre o quanto a impermanência deixa as coisas mais especiais na vida.

Embora reconheça que pensar no quão as coisas mudam constantemente seja algo recorrente, principalmente em um novo ano, às vezes esqueço disso ao longo do período que passa e encaro as coisas como se fossem durar muito tempo. E então, passada a virada do ano, guardo junto com os piscas-piscas essa consciência sobre a finitude das coisas, adormeço tais reflexões e volto ao piloto automático de cada dia.

Lembro inclusive que foi a partir de tais reflexões sobre a impermanência e sobre um sentimento de urgência de viver que comecei o já velho 2020: buscando enxergar o quanto a impermanência da vida e de tudo que envolve viver é a graça da coisa; afinal seria algo de fato especial se não acabasse nunca?

Esses pensamentos pouco duraram no início do ano: se tem uma coisa que 2020 começou a ensinar desde março é que por mais transcendente que esse tipo reflexão possa parecer, a mudança não é tão bonita nem tão fácil como em um pisca-pisca. Toda a pandemia jogou na cara a impermanência da vida, do abraço, dos shows ao vivo, da reunião entre amigos. Mudanças duras, cruas e difíceis de aceitar até hoje. Quem dera todo o processo de percepção sobre mudança fosse pacífico e calmo como o acender-se e apagar-se de luzes de ano novo.

Também gosto de pensar que a noite ilumina os piscas-piscas tanto quanto, segundo Manoel de Barros, escurecer acende os vagalumes. E o quanto aquilo que é negativo pode, de alguma forma, reverter em algum tipo de crescimento. E, a partir disso, enxergar aquilo que obscurece como aquilo que acende uma outra luz. Em se tratando de pandemia, talvez isso até se dirija a parte da população, entretanto sabe-se que outra parte continuará a nadar em oceanos de ignorância.

Há outra mensagem que também podemos tirar de toda essa carga de pontos de vista positivos que embriagam um ano novo e suas luzes cintilantes: a de que cada ano é sempre um pouco como um pisca-pisca. Com seus tempos de luz e leveza, tempos de escuridão e dificuldade. Com ou sem pandemia, iremos sempre depositar naquilo que é novo, tudo o que o velho não foi; naquilo que acende, tudo o que aquilo que apaga não é capaz de nos dar; e naquilo que é 2021, tudo o que 2020 não correspondeu, como a vacina contra a Covid-19, embora para os brasileiros essa realidade ainda pareça um futuro incerto.

Entretanto, é necessário estar atento pois, muitas vezes, passada a virada de ano, guardamos as luzes e junto com elas essa noção de impermanência, de urgência de viver e da importância de renovação constante. Às vezes somos ainda mais negligentes e também colocamos próximos a elas aqueles sonhos e metas de ano novo, e os esquecemos junto com os piscas-piscas, numa caixa destinada à poeira, em cima do armário, até serem novamente abertos no próximo dezembro.

Leia mais do mesmo autor aqui.

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp