O segredo de Brokeback Mountain: uma história de amor pouco abordada no cinema

Um dos mais famosos filmes LGBTQIA+, vencedor de três Oscars, nos apresenta o drama de um relacionamento homossexual entre dois cowboys na década de 60

O longa ganhou diversos prêmios ao longo do mundo. Divulgação.

Estrelado por Heath Leadger (1979-2008) e Jake Gyllenhaal (Donnie Darko, 2001), O segredo de Brokeback Mountain (2005), uma adaptação do conto de Annie Proulx em um roteiro escrito por Diana Ossana e Larry McMurtry. A narrativa se passa entre os anos de 1963 e 1981, contando a história de amor entre dois cowboys que trabalham como pastores de ovelhas em uma montanha, longe de tudo e todos. Ali, acabam vivenciando experiências que ficariam para sempre na memória dos dois. Com o passar dos anos, entram em relacionamentos, mas a ligação afetiva é muito forte para ser ignorada. Levando três estatuetas do Oscar por Melhor Diretor, Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado, um Leão de Ouro no Festival de Veneza, melhor filme e direção no Globo de Ouro, entre outros prêmios, a obra aborda temas como o amor entre dois homens “caipiras”, bem como o preconceito com casais homo afetivos, principalmente no ambiente agrário e interiorano.

A direção de Ang Lee (As aventuras de Pi, 2012) faz com que nossa imersão na história seja feita de forma natural e gradativa, ou seja, a cada momento o espectador se vê mais envolto na relação do casal.  A trilha de Gustavo Santaolalla, vencedora de uma estatueta do Oscar, nos apresenta canções instrumentais – cujo arranjo possui, quase sempre, violões – que remetem ao ambiente rústico. Dessa maneira, a trilha sonora se torna emocionante e melancólica, ao acompanhar o drama dos dois.

Detalhes que fazem a diferença

A fotografia é muito bonita. O diretor de fotografia Rodrigo Prieto utilizou de um filtro mais frio e azulado, dando a impressão de que a montanha Brokeback é uma espécie de paraíso particular dos personagens. A arquitetura usada nas locações remete muito ao interior, nos lembrando até cidades interioranas brasileiras, com paisagens compostas de estradas, caminhões e pequenos estabelecimentos, todos muito simples e pequenos. 

Mesmo não sendo o ponto principal do filme, o figurino de Marit Allen chama muita atenção. Todas as peças são muito características do dia a dia dos caipiras de interior, mas sempre com muito bom gosto na escolha. Eu claramente usaria todas as roupas que são utilizadas no drama. As peças remetem a época e ao estilo de vida dos personagens, levando em consideração sua origem, personalidade, poder aquisitivo e profissão. Um ótimo exemplo é a personagem de Anne Hathaway, que de início aparece usando roupas extravagantes de rodeio, mas ao longo do filme apresenta looks, maquiagens e cabelos bem distintos. Os trajes são (quase) sempre compostos por calças jeans, casacos pesados, e claro, botas e chapéus de cowboy. Toda essa criação combina com a fotografia do filme em todos os quesitos, principalmente em sua cartela de cores. Foram tão aclamados pelo público que no ano de 2006 leiloou-se on-line o figurino para uma campanha de direitos humanos nos Estados Unidos. 

Cena do filme. Divulgação.

A ressalva nesta coluna vai para Heath Ledger, que interpreta de forma impecável Ennis del Mar. Vindo do interior, o personagem, inicialmente, fala muito pouco e apresenta bastante timidez. Em uma caracterização extremamente fiel e talentosa, com gestos, manias e um sotaque bem característico de um caipira americano, Ledger mostra mais uma vez que foi um artista brilhante. Ao contrário de Ennis, Jack Twist (Jake Gyllenhaal), é um homem extrovertido e sorridente que ganha a vida montando em touros. De certa forma, o personagem tem muito da personalidade do ator. A partir do momento que se encontram, já é perceptível a tensão sexual entre os dois.

Desde o primeiro momento em que atuaram juntos, Jake e Heath se mostraram uma dupla e tanto. Contracenando como grandes amigos e nos entregando carisma, talento e profissionalismo que fizeram de Brokeback Mountain um dos principais clássicos LGBTQIA+. Temos também a participação de Anne Hathaway e Michelle Williams – esta última companheira de Ledger dentro e fora das telas. Michelle entrega uma atuação incrível como Alma, esposa de Ennis, uma mulher que enfrenta a situação do relacionamento de forma submissa. O sofrimento de Alma ao descobrir a relação do marido com outro homem é divinamente interpretado pela atriz, trazendo a dor e confusão mental da personagem.

O filme trata de assuntos muito importantes com um ponto de vista diferente e sutil, isto é: a união de dois homens que se amam em um ambiente extremamente preconceituoso, violento e patriarcal. Por se passar na década de 60, o longa aborda a forma com que o preconceito vivido pelos dois impede a relação de avançar. A produção nos faz refletir sobre quantas pessoas já passaram por isso, quantas pessoas tiveram que fingir ser quem não eram, vivendo vidas infelizes e sendo atormentadas pelo medo de se mostrarem ao mundo como realmente são. O segredo de Brokeback Mountain é uma obra que deve sempre ser revisitada, com suas belíssimas duas horas de duração, paisagens que parecem verdadeiras obras de arte, e cenas que nos fazem suspirar e torcer pelo casal.

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