O ser humano e arte captados pelo ‘Terceiro Olho’ de Junitti Julio

Entrevista com o artista visual Junitti Julio, responsável pela marca Terceiro Olho, sobre arte e mudanças positivas e negativas no trabalho durante pandemia.

Por Dayane Jennifer e Gabriel Vila Nova

Junitti Julio expõe arte em diferentes suportes como capas de cadernos, MDF, telas, tecidos e murais. Foto: Acervo Pessoal

Nesse contexto de pandemia, os olhares das pessoas em geral estão mais atentos para as diversas formas de arte. No caso do trabalho de Junitti Julio, a arte tem percorrido a via oposta desses olhares e percebe o ser humano sobre uma nova perspectiva. Na entrevista, concedida à repórter Dayane Jeniffer e ao colunista Gabriel Vila Nova, o artista visual nos fala um pouco sobre o conjunto de obras assinado e conhecido como Terceiro Olho e quais os efeitos da pandemia no seu trabalho artístico independente.

Como se deu o encontro com as artes visuais?

Este encontro remete um pouco ao meu surgimento, porque minha mãe desde sempre cria arte, artesanato e se sustenta do ofício artístico. Meu eu pai também trabalha com criação. Sempre estive inserido no meio criativo e, quando pequeno, comecei a fazer pulseira, colar ou pinturas para também ter esse retorno financeiro e ajudar na renda da casa. E através  do curso de Design e dos estudos dentro de Artes Visuais, encontrei uma identidade visual que me permitiu  demonstrar o que penso do mundo e debater sobre questões de gênero e  identidade das pessoas. O meu encontro com a arte e processos artísticos aconteceu dentro do processo de me entender enquanto pessoa, da necessidade financeira e de observação do mundo e das pessoas.

Quais são os principais suportes e técnicas características do seu trabalho?

Uma é a one line, na qual o desenho inteiro é feito em um traço só, com a mão firme. Independente do tamanho e do espaço, eu não solto a mão do papel ou qualquer outro material que use como suporte. Outra técnica que utilizo com frequência é o uso de marcadores, permanentes ou para acidez, na criação do desenho. Porque eu acho a fixação muito mais interessante, gosto da textura mais grossa e de certa brutalidade no desenho. Além disso, um suporte que eu gosto de utilizar é o MDF, porque é uma superfície lisa e o desenho da madeira do próprio MDF completam os desenhos e criam uma textura visual interessante.

As técnicas do one line e do traço firme com muita frequência resultam na presença do contorno de rostos e formas de plantas. Como funciona seu  processo criativo e de que forma ele desemboca nessas ilustrações?

Meu processo criativo tem certa influência da minha base familiar. Minha mãe é apaixonada por plantas e minha casa é repleta de plantas de diferentes tipos. Desde sempre gostei de desenhá-las, observar o movimento e crescimento. Busco também estabelecer uma relação entre plantas e pessoas. Inclusive, nos meus desenhos essas plantas servem como apoio para unir as pessoas. Para isso, geralmente desenho raízes que saem de dentro das pessoas ou que estão no corpo delas . Já o  contorno de rostos, que são muito parecidos, surge do meu gosto de explorar a questão do gênero.  Eu nunca desenho homens e mulheres, eu desenho pessoas, e só. E mais recentemente venho sentindo a necessidade de levantar uma grande bandeira, que é a bandeira LGBTQIA+. Eu sou uma pessoa LGBT e pensei em fazer um trabalho direcionado para as pessoas sentirem exatamente o tipo de trabalho que estou fazendo.

Obra Florescer, que integra o conjunto de criações de Junitti Assinado como Terceiro Olho. Foto: Acervo pessoal

Quais são as tuas principais referências e inspirações nas artes visuais?

Tem dois artistas pernambucanos cujos trabalhos me abraçam de uma forma totalmente diferente e inspiradora. Uma é Samuel de Saboia, um artista recifense gigantesco e maravilhoso. Com uma história muito inspiradora também, porque ele veio da periferia e hoje em dia aparece na capa da Vogue. E Mario Bros que é muralista e faz um trabalho incrível também.

Fora do campo da arte visual, existem outros artistas ou vertentes artísticas que também influenciam no seu trabalho?

Tem um artista que muito me inspira e que, além de DJ e performer, tem todo um trabalho dentro da sua existência também, que é Samuel Caleb. Mas a música também me inspira muito. Eu não consigo criar sem ter um aparato musical próximo. Acho que todas as minhas ilustrações  acabam tendo músicas, frases e letras por trás. Músicas brasileiras acabam me inspirando muito também. Entre algumas bandas que posso destacar estão Boogarins, Glue Trip, os Mutantes, Os Titãs, Gal Costa e Caetano.

Como foi esse processo de transformar a tua arte autoral em uma marca que te desse um retorno financeiro?

Tudo começou com a Alterna Store, um empreendimento no qual eu não tinha ideia que iria se transformar em uma marca de fato, pois no momento eu só precisava vender alguma coisa devido à mudança para Caruaru e à consequente necessidade de ganhar dinheiro. A partir da Alterna Store, eu comecei a costurar cadernos e a desenhar nas capas o que amigos e demais pessoas pediam. 

E como surgiu a marca Terceiro Olho?

Durante esse processo da Alterna Store, eu conheci o trabalho de Samuel de Saboia. E eu achei sensacional a ideia desse traço one line e da lineart em que tudo se conecta dentro do desenho. A partir dele surgiu essa ideia de começar a fazer um trabalho parecido e a pensar em algo novo. Ao observar os meus desenhos, com milhares de olhos, e refletir que falamos e nos expressamos muito com os olhos veio a ideia do nome Terceiro Olho. Além disso, tem uma frase que eu sempre deixo em alguns desenhos que é “feche os seus olhos, abra sua mente”. E Terceiro Olho é exatamente isso: a abertura de um novo olho, de uma nova perspectiva, de uma nova visão sobre o mundo e as pessoas.

Como a pandemia modificou o teu processo criativo?

Eu me inspiro muito nas pessoas, na rota que eu faço até a faculdade, em caminhar e em andar de ônibus. Acredito que os meus melhores desenhos surgiram no caminho que eu vou do estágio para a faculdade, porque eu sempre tô com um caderninho junto. A pandemia modificou todo o processo criativo, agora eu tenho que produzir tudo dentro de casa, em quatro paredes. 

E quais as consequências da pandemia no rendimento financeiro e na forma de vender o teu trabalho? 

Fui prejudicado financeiramente porque a faculdade era um grande local de vendas. Eu  sempre fazia exposições dos meus trabalhos em feirinhas, divulgava em sala, levava e apresentava alguns modelos. De certa forma, eu acabei sendo prejudicado. Mas, por outro ângulo, nesse momento surgiu o site da Terceiro Olho e envios para todo o Brasil. Inclusive, no mês passado,  envios para São Paulo e Rio de Janeiro, coisa que nunca havia acontecido. Além disso, eu sou de Arcoverde e tenho um background familiar que é totalmente formado por pessoas que trabalham com arte, mas que vendem localmente. De repente ver seu trabalho indo para outros estados, ver pessoas de outros países perguntando qual o valor do frete, elogiando e perguntando sobre a possibilidade de envio, é muito gratificante.

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