O sotaque plural da Joana Francesa

O xote, o rock, o tango e o pop engrossam o caldo cultural da banda pernambucana que lançou seu primeiro single “Fogo Branco”

Logo da Joana Francesa, criado por Élter Araújo. Foto: Divulgação

Em 1971, o cantor Gilberto Gil adicionou no repertório do álbum “Expresso 2222” a canção “Pipoca Moderna” da banda de Pífanos de Caruaru, se tornando uma das músicas símbolo da Tropicália. Já na década de 1990, o movimento Manguebeat toma conta de Recife, misturando maracatu, rock e hip hop para compor os arranjos musicais. Tomando como referência estes momentos de efervescência cultural no Brasil, nasce a banda caruaruense Joana Francesa.

Formada pelos estudantes de Comunicação Social Élter Araújo (baixista), Gabriel Vila Nova (guitarrista) e Luiz Ribeiro (vocal), além dos professores Amilcar Bezerra (vocal) e Gustavo Alonso (sanfoneiro) e o baterista Artur Lima, a banda apresenta ao mundo seu primeiro trabalho autoral “Fogo Branco”. O xote de guitarra presente na canção, marca o início da história da banda que antropomorfiza gêneros e brinca com a linguagem musical.

Nessa entrevista, a equipe do Café Colombo conversou com os professores do Núcleo de Design e Comunicação do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco Gustavo Alonso e Amilcar Bezerra, os joanitos (apelido dos integrantes da banda). Enquanto Amilcar tem sua pesquisa voltada ao Frevo, Gustavo estuda o Forró e compartilha curiosidades sobre o gênero no canal “ABC do Forró“. No papo sobre a banda, os professores comentaram sobre a nova etapa do trabalho, suas referências musicais e estéticas, ambições e as ideias que permeiam o neoregionalismo pop da Joana. 

Como surgiu a ideia de criar a Joana Francesa? 

Amilcar: No começo era uma pesquisa sobre as músicas do compositor caruaruense Carlos Fernando, no qual acompanhava sua trajetória de modernização do Frevo. Quando cheguei em Caruaru, descobri seu álbum “Crônicas Musicais de Caruaru”. Conversando com Luiz Ribeiro, meu aluno do curso de Comunicação Social, percebi que o disco seria um objeto interessante para ser estudado por tratar das memórias e representações da cidade. A partir dessa proximidade com Luiz, observei o trabalho que ele fazia na banda Rasga Mortalha e também em suas composições. Eu disse que também compunha, e então criamos a música “No Apertar da Hora”, inspirado na minha pesquisa sobre Carlos Fernando. A canção foi inscrita no edital da Prefeitura de Caruaru e foi uma das vinte selecionadas para participar do álbum “A Música no País de Caruaru”. Quando isso ocorreu, percebemos que nossa parceria dava certo e começamos a escrever mais outras músicas. Começamos a formar a banda, intitulada como “A Bruma Leve” inicialmente. Depois, Gabriel Vila Nova entrou na formação e rebatizamos para Joana Francesa. O nome faz referência a Carlos Fernando, que era um grande fã da novelle vague e do cinema francês dos anos 1960. Joana Francesa também se refere a música homônima de Chico Buarque e ao filme “Joana, a francesa” (1973) de Cacá Diegues.

Quais são as principais influências para a criação do Joana Francesa, intitulada por vocês como um “neoregionalismo pop”?

Gustavo:  O que une nossas influências culturais, apesar das diferentes origens e gerações, é a ideia um tanto quanto tropicalista, de incorporar a linguagem pop às matrizes tradicionais, sem querer abdicar dessas especificidades, mas ao mesmo tempo sem museificá-las. Trata-se de aceitar a cultura pop como parte de nós, parte do mundo em que vivemos e tentar tirar dela o que há de positivo.  Movimento esse que já foi utilizado pelo tropicalismo, pelo rock nordestino dos anos 70 e pelo manguebeat.

Amilcar: Em específico, somos influenciados pelos cantores Geraldo Azevedo, Carlos Fernando, Alceu Valença, Elba Ramalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros nomes da Música Popular Brasileira. Nos inspiramos muito também na banda pernambucana dos anos 70 Ave Sangria, pois ela mistura o som pop com a identidade regional e autêntica. Há também o cantor francês Serge Gainsbourg que tem ótimas canções autorais.

A banda Joana Francesa tem uma montagem formada por pesquisadores, professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste, com exceção do baterista Artur Lima. Qual a marca que esse repertório intelectual trás para a banda? 

Amilcar: Acho que esse repertório intelectual se manifesta de maneira muito sutil. A ideia da banda não é transmitir conceitos. Porém, como participamos desse ambiente academicista, essas concepções aprendidas e ensinadas vão permear na música. Mas não entram como uma necessidade nessa produção. Essa relação ocorre de forma mais indireta.

Gustavo: A minha pesquisa sobre o forró ajuda a vermos que, em outras épocas, também houve esse interesse pelo pop. Se pegarmos a trajetória de Luiz Gonzaga, por exemplo, vemos como ele teve que abrir mão do purismo para incrementar o Choros (gênero de grande fenômeno da rádio, nos anos 1940) nas suas canções. Este era o formato pop da época de Luiz Gonzaga. Ele poderia ter negado, mas não, ele incorporou o mundo pop em seu forró. Tornando-se, aliás, um dos principais ídolos nos anos 40/50. Pensando nisso, tentamos buscar essas influências na banda. Isto pode-se dizer sobre grande parte dos forrozeiros: todos tiveram, em um momento ou outro, que lidar com a cultura pop da sua época. Criticar o mundo da indústria cultural é uma coisa muito comum nas universidades e em grupo que adoram alimentar o ressentimento. Os artistas mais inteligentes lidam com isso de forma ativa, buscando inventar novas possibilidades artísticas e estéticas.

Show de estreia da Joana Francesa na 3° edição do Festival de Literatura e Artes Literárias, com os joanitos (da esquerda para a direita) Luiz Ribeiro, Gustavo Alonso, Amilcar Bezerra e Gabriel Vila Nova. Foto: Divulgação

Quais são os objetivos da banda?

Amilcar: Nosso objetivo é lançar três singles até 2021. Já na segunda metade do ano lançar um EP com sete faixas. As músicas já estão prontas, porém estamos pensando nos arranjos e nas estratégias de gravações. O repertório é diverso, assim como nossas influências. Tem de tudo: xote, tango, pop balada e ciranda. Estamos fazendo esse trabalho de forma cuidadosa, não ligando muito para o tempo, queremos discutir cada detalhe. Como “Fogo Branco”, que demorou para sair por esses motivos, mas que teve o produto final muito bem produzido. 

Gustavo: Meu objetivo com a banda é me divertir e participar dessa interação professor-aluno. Quero apenas tocar, criar e brincar.

Quais têm sido e são as dificuldades de fazer cultura e de ter uma banda autoral e independente? 

Amilcar: Existem várias dificuldades. Primeiro a questão financeira, pois a banda precisa de investimento. Então, tudo tem que ser feito com o nosso dinheiro ou a partir da brothagem. Nós temos a perspectiva de fazer um clipe até o final do ano. Escolhemos o diretor Renan Zovka, no qual trabalhou com a música “Fogo Branco” em seu curta de ficção ainda não lançado. A partir disso, fizemos uma troca de trabalhos. O ideal seria pagar por isso, mas não temos recursos. Como também não temos um trabalho conhecido, a ideia é lançar os singles e o EP, e assim fazer com que a banda fique mais conhecida. Pois, se por um lado fica mais fácil ter a sua música acessível nas plataformas, por outro lado é complicado competir com os milhares de lançamentos diários que há nos streamings. 

Gustavo: Como minhas ambições são pequenas, não há muita dificuldade. Há mais prazer. Mesmo as coisas cansativas nesse processo, como colocar o som, levar equipamentos, faço porque gosto. Não vivo disso, não há “obrigação” nenhuma. É natural uma banda autoral ter alguma dificuldade. Mas lamentar isso realmente não faz parte da minha forma de pensar.

O primeiro single “Fogo Branco” foi gravado em home studio em decorrência da pandemia da COVID-19. Quais foram as dificuldades de se produzir dessa forma?

Amilcar: O presencial obviamente facilita muito, nas nossas conversas e no nosso processo criativo. Mas essa produção à distância foi interessante, apesar da demora. Acabamos provando que é possível fazer música assim. As gravações tiveram algumas complicações, porque gravamos em três estúdios diferentes. O produtor Pedro Costa, que estava no Rio de Janeiro, não conseguia ter acesso a base que estava sendo gravada aqui. Apesar de dificuldades como essas, deu certo. A gente pretende continuar produzindo todas as músicas à distância, mesmo que acabe a pandemia. Esse processo acaba sendo mais prático, pois encurta as distâncias e foi econômica para nós. 

Gustavo: Acho que a principal dificuldade foi trabalhar à distância. Por outro lado, foi incrível perceber que é possível fazer isso. É incrível!

Qual a ideia que a capa do primeiro single “Fogo Branco”, produzida por Fernando Duarte, quer passar?

Amilcar: “Fogo Branco” é inspirado em uma personagem ficcional do curta de Renan Zovka. A ideia que passamos para Fernando Duarte é de uma cangaceira estilizada, com toques de psicodelia. Quando ele nos apresentou achamos a arte muito massa e muito condizente com nosso trabalho.

O psicanalista e pesquisador Kléberson Ananias deu um feedback, publicado por vocês no Instagram, comentando que a música “Fogo Branco” era “uma coisa muito Pernambuco para o mundo e para uma metrópole”. Essa descrição faz jus ao conceito do grupo, no qual pretende modernizar as movimentações culturais tradicionais? 

Amilcar: A gente quer falar para brasileiros de diversas regiões, trazendo nossa marca regional. O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical. Porém, o tema de nossas canções são temas universais, nossas sonoridades são pop, então não existe essa pretensão de modernizar as manifestações tradicionais. 

Gustavo: O público mais intelectualizado muitas vezes simpatiza muito com nossas canções. Mas acho que, em determinada medida, temos que chocar um pouco esse público, muito acostumado a esse suco tropicalista bem medido. Como a mistura com o popular massivo, que é um viés subestimado, e que pode incomodar. Quando e se isso ocorrer, periga sermos rejeitados por esse mesmo grupo intelectual. Em determinada medida, acho importante almejar essa quebra de perspectiva. Não vejo isso na gente ainda. Mas acho que é necessário ambicionar.

“O nosso lugar de fala é marcado pelo nosso sotaque musical.”

Nessa época de eleições municipais, o que vocês esperam dos candidatos à eleição enquanto as políticas públicas voltadas à cultura e aos artistas? 

Amilcar: Espero diálogo e apoio. Eu acho que é isso que se espera de um gestor público. E nas políticas culturais não devem ser diferentes. Você está disposto a escutar os artistas, saber quais são suas necessidades e trabalhar em prol deles. Eu acho que um dos grandes problemas é os gestores estarem mais preocupados com seus interesses políticos, do que com os interesses da categoria que eles deveriam representar. 

Gustavo: Acho saudável não esperar nada de político algum. Político não faz nada se não houver mobilização social. Nesse sentido, espero que a sociedade se mexa. Não adianta ficar reclamando de políticos e da política, a cultura é de todos nós. O que estamos fazendo pela cultura? Depois que fizermos algo pela cultura de forma autônoma, cabe ao político abraçar projetos consistentes já existentes. Nesse sentido, não temos que “esperar” nada dos políticos. E se não formos nós a nos mexer, vai continuar sendo um jogo de espera.

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