Do verbo ao silêncio: “Ó Zé Régio! Eu, Dionízio” de Paulo Gervais

A expressão dos sentidos e o complexo cultural no primeiro lançamento de poesia da editora Vacatussa
Capa do livro "Ó Zé Régio! Eu, Dionízio,", de Paulo Gervais.

Capa do livro, recém-chegado a nossa redação. Sarah Coutinho/Divulgação.

“Não são as coisas senão o que sentir delas”. Quando li esse verso do Paulo Gervais em seu livro Ó Zé Régio! Eu, Dionízio, lançado pela editora Vacatussa neste mês de março, me veio à mente uma correlação com o próprio olhar-fazer poético. Enxergo pessoal e atualmente a poesia como uma atribuição não apenas de significados, mas também de sentidos e de sentimentos às coisas, sejam cotidianas ou extraordinárias. Uma herança talvez de Manoel de Barros, quando afirma que a poesia se dirige à sensibilidade. Ou talvez por ecoar em minha mente o poema “Meu Olhar” de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, que expressa:

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos) 

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… 

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos

Talvez esses versos ecoem também na poesia de Gervais, até porque em seu poema número 12 do livro recém-lançado, escreve: “Invejava o mestre Caeiro/ a exterioridade pura e simples das coisas”. Embora se perceba que a “filosofia dos sentidos” se faça presente, a simplicidade de Caeiro não é, na mesma medida, presente em Gervais; percebe-se, pelo contrário, um complexo de referências culturais. Eu, de cá, invejo o Caeiro por sua pupila que enxergava poesia no simples, e agora também invejo, igualmente no bom sentido e em outros aspectos, o Paulo Gervais.

Mas não o faço somente pelo histórico do poeta garanhuense, que conquistou o IV Prêmio Pernambucano de Literatura com seu livro anterior, Paulatim. Faço-o pelo conjunto de sentidos que Ó Zé Régio! Eu, Dionízio carrega. Sentidos observados nas coisas pelo poeta que carregam em si sentidos de outros olhares. É o que se pode perceber até mesmo no título, que de certa forma introduz a obra a partir da referência a Zé Régio e a Dionísio. 

O primeiro, José Régio, é um poeta do modernismo português, filho de Deus e do Diabo, cuja poesia já é referenciada no primeiro poema do livro. Isso já introduz uma influência modernista frequente no ritmo dos poemas desta obra de Gervais, que não está necessariamente ligado à métrica, mas à expressão, diferentemente da forma padronizada utilizada como suporte poético nos seus livros anteriores. Tal uso não necessariamente se trata de uma ruptura, mas de uma nova expedição por outros caminhos da poesia.

O que move o meu coração

se não é o que foge

e em mim é privação e possibilidade de posse?

Contudo, Gervais caminha com sua poesia a um modo dionisíaco, isto é, próprio da liberdade e intuitividade do deus grego. Liberdade tanto estilística como também temática uma vez que a obra se compõe de poemas criados entre 2011 e 2019 que vão da solidão, ao amor e à finitude humana.

Outra questão também perceptível no título e presente em toda obra é a presença nada disfarçada do eu-lírico, que vez ou outra soa um tanto dramático e teatral na expressividade, por exemplo, no uso da interjeição de lamento “Ó”. Por mais que não seja algo que me agrada de um todo, me parece bastante coeso ao contexto clássico que envolve a imagem de Dionísio e a teatralidade que lhe faz referência (uma vez que também é conhecido como o deus do teatro), além de atribuir ao verbo a tonalidade de um cântico.

No entanto, vale ressaltar o contexto não somente clássico ou mesmo modernista português: o cotidiano agrestino se faz presente tanto em paisagens pessoais do autor, quanto a partir de elementos compartilhados entre os dias do agreste pernambucano, como é o caso dos elementos do pife e do barro. Além disso, é o som, também, uma narrativa explorada por Paulo Gervais, o que admite uma noção de passagem do tempo juntamente com as partes que destacam dois momentos distintos: a manhã e a noite, cujo poemas, no primeiro caso, fazem relações a cânticos, enquanto que, no segundo, destacam o retorno do verbo, da poesia ao que muitas vezes é sua origem e semente: o silêncio.

Leia mais do mesmo autor aqui.

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