Obrigado, Caruarus

Caruaru é lar de gênios como os irmãos Condé, a Banda de Pífanos, e o compositor e produtor Carlos Fernando. Nessa pequena homenagem à cidade, nada mais justo que relembrar tais figuras célebres.

Caruaru faz 163 anos. Sendo uma cidade que cresce a cada dia, seu legado cultural segue mais forte que nunca.


Rua da Matriz em 1910. Imagem colorizada. Foto original: Hélio Florêncio.

Caruaru é múltipla. Falar dessa cidade do Agreste de Pernambuco é falar de uma atividade cultural pulsante, diversa e, por que não, cosmopolita. Pensar essa mesma cidade implica em não esquecer de sua importância e participação em inúmeros movimentos culturais que marcaram a sociedade brasileira. Justo quando completa 163 anos, esse simbolismo se torna ainda mais forte. 

Dentre as figuras responsáveis pela divulgação de Caruaru pelo Brasil e pelo mundo, cabe destacar os irmãos Condé. Elísio, João e José, caruaruenses, dedicaram-se desde cedo à literatura e às artes: José tornou-se autor de livros como o clássico “Terra de Caruaru”, e de novelas como “Vento do amanhecer em Macambira” e “Um ramo para Luísa”. Elísio, ainda que médico de formação, destacou-se ao lado dos irmãos como co-fundador do Jornal de Letras, caderno cultural do Jornal do Brasil. 

Mesmo morando no Rio de Janeiro, o apreço por Caruaru acabaria por engajá-los a promover, em 1957, como parte das comemorações do centenário da cidade, uma caravana em direção ao município com escritores influentes da época, como Jorge Amado e Lygia Telles: o projeto durou três dias e fez com que o nome de Caruaru fosse parar em grande parte dos impressos do país. A programação, por sua vez, contou com apresentações musicais e ampla participação popular.

Como afirma o historiador José Veridiano dos Santos, em sua dissertação “Falas da Cidade: um estudo sobre as estratégias discursivas que constituíram historicamente a cidade de Caruaru (1950-1970)”, o poeta e escritor Manuel Bandeira, durante a caravana, se ofereceu para compor um hino para o município centenário:

Meu Caruaru centenário
Não há o que te chegue aos pés
Recife tem Olegário
Tu tens os irmãos Condés 
(Manuel Bandeira)

Dez anos depois que a caravana literária dos irmãos Condé abrilhantou o centenário caruaruense, foi nessa mesma localidade em que convencionou-se chamar de “Capital do Forró” – graças à composição homônima de Jorge de Altinho e Lindú –, que ocorreu o chamado big bang tropicalista: em 1967, ao passar pelo Recife em turnê, o jovem Gilberto Gil demonstrou interesse em conhecer a Banda de Pífanos de Caruaru. Dentre aqueles que estiveram na comitiva que levou Gil para conhecer os tocadores de pífano, destaca-se o caruaruense Carlos Fernando, compositor e produtor cuja importância na modernização do frevo-canção e na criação de numerosos projetos musicais daria, por si só, diversos outros escritos. Mas logo nos debruçaremos sobre ele. 

Ao chegar em Caruaru, o então pré-tropicalista Gil atentou-se à sonoridade dos pifes e achou-a extremamente parecida com a canção “Strawberry Fields Forever”, single dos Beatles lançado naquele ano. Da fusão de gêneros aparentemente tão distintos em forma, conteúdo e origem, figurou-se a gênese do que se conheceu posteriormente como “Tropicália”, movimento que agitou as estruturas artísticas da época e influenciou artistas de forma contínua.

Tropicália, Beatles e Pífanos. Capa do álbum “Tudo Isso é São João” (1999), da Banda de Pífanos de Caruaru. Foto: Reprodução.

Regressemos à Caruaru e ao supracitado Carlos Fernando. Em 2007, 50 anos depois da caravana dos Condé e 40 anos depois da fusão tropicalista de Gilberto Gil, o compositor e produtor lança o álbum “Crônicas Musicais de Caruaru”. Ao lado de cantores como Geraldo Azevedo, Geraldo Amaral e Alceu Valença, bem como de instrumentistas como Paulo Rafael, Fernando comemora os 150 anos de sua terra natal com onze canções proustianas – isto é, com uma estética muito semelhante àquela instituída pelo escritor Marcel Proust, cuja obra-prima, “Em Busca do Tempo Perdido”, é fundamental na literatura do século XX – sobre a cidade. 

Nessas músicas, Fernando recorda personagens e lugares que conheceu na juventude: Maria Pequena, prostituta da rua da Matança, zona de bordéis da cidade; o Social Guanabara, casa noturna que não tinha portas e recebia os insones das frias madrugadas de junho; o Bar de Belo, cujo dono, após ouvir sobre a Revolução Cubana numa rádio captada de Moscou, “deflagra”, numa noite, uma intentona em que todos pudessem comer e beber de graça; a Saldanha da Gama, rua em que passou a infância; a Rua da Matriz, onde se reunia a classe intelectual da cidade. Nesta última, como canta Geraldo Azevedo na canção homônima, o jovem Carlos Fernando descobre a “metáfora”.

As imagens que Fernando evoca, ao afirmar que Caruaru pode ser “Roma pegando fogo” e representar uma “cidade-luz”, ou ainda que um personagem pode ser um “Chaplin”, denota impressões, cheiros e sentimentos de um autor específico, inserido em um tempo também característico. Sobre a Rua da Matriz, Carlos Fernando lembra:

Os renascentistas e os gênios chaplinianos
Da cultura acesa de um agreste nu
Fincado no torrão seco
Alegre e triste
Em uma agrestina comunhão
Rua da Matriz das meninas lindas
Do sobrado colonial
Da sorveteria Lira
Que aroma doce de fruta do verão
(C. Fernando)

Sobre o sol que invadia a cidade balneária de Balbec, onde o Narrador de “Busca” passou boa parte de sua adolescência, Proust descreve:

“Convencido de que estava ‘sentado no molhe’ ou no interior do boudoir, de que nos fala Baudelaire, perguntava-me se ‘o sol raiando sobre o mar’, do poeta, não seria aquele – bem diverso do dos raios da tarde, simples e superficiais como setas douradas e trêmulas – que naquele momento queimava o mar como um topázio, fazia-o fermentar, tornava-o louro e leitoso como a cerveja, espumante como o leite, enquanto, por alguns instantes, sobre ele passeavam aqui e ali grandes sombras azuis, obra sem dúvida de um deus que parecia se divertir em deslocá-las, movimentando um espelho no céu” (Marcel Proust)

Álbum “Crônicas Musicais de Caruaru” (2007), de Carlos Fernando. Foto: Reprodução.

De todo modo, me ponho a pensar: ao lermos sobre a caravana literária dos Condé e a gênese tropicalista de Gil, ou mesmo ao adentrarmos nos relatos memorialistas e poéticos de Carlos Fernando, ressignificamos a nossa própria ideia a respeito do município: ele é múltiplo, esconde inúmeras cidades em uma só. Cada uma se forma a partir do ponto de vista de cada habitante. O que distingue o trabalho de Carlos Fernando, talvez, seja a iniciativa de descrever e imortalizar suas próprias memórias em algo tão profundo e complexo como o fazer musical. 

Ao ouvir as canções – algumas delas lançadas em outros projetos e compactos –, montamos em nossa cabeça um quadro representativo de um território que, embora distinto e único, se mostra absolutamente fascinante. Dessa forma, por que não criarmos, assim, a nossa própria Caruaru? Em uma data como essa, por que não parabenizar todas essas cidades de uma só vez? 

Salve, Caruarus. Obrigado, Caruarus.

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