Ok Computer: o aprisionamento no melhor disco de todos os tempos

Um ensaio sobre o espírito universal de um dos últimos grandes álbuns do rock mundial

Capa do terceiro álbum do grupo do Reino Unido. Radiohead/Divulgação.
 

Há pouco mais de  20 anos, em um antigo castelo inglês, a banda britânica Radiohead escreveu seu nome para sempre na história do rock. Em 21 de maio de 1997, foi lançado o Ok Computer, que muitos consideram como um dos últimos grandes álbuns do rock mundial, e, que opara mim, é o melhor disco já criado na história da música.

No início da década de 90 na Inglaterra, o britpop estava em plena ascensão com os irmãos “bad boys” do Oasis e os seus “rivais” do Blur. Essas bandas apresentavam crônicas do cotidiano inglês, sem deixar de exalar o anti-heroísmo do rock n’ roll, mesclando riffs rápidos e baladas que embalavam o coração dos jovenzinhos que lotavam os estádios na época.

É nesse cenário que também surge o Radiohead. Em seu primeiro álbum, Pablo Honey (1993), a banda até carrega algumas características do britpop, porém, já tinha em seu DNA algumas diferenças marcantes que os tornariam únicos no mundo da música. Ao contrário do espírito de rockstar do Oasis, Radiohead surge como a banda dos esquisitões, dos isolados, dos losers, os representantes ideais daqueles que não conseguem ficar com a mulher amada e apanham dos valentões no recreio.

Isso fica claro em seu primeiro hit, Creep, onde Thom Yorke expressa – por meio da voz única e melancólica que lhe é característica – a intensa baixa autoestima de um jovem que nutre um amor platônico: 

“You’re so fucking special,

I wish i was special, 

But i’m a creep” 

No entanto, o hit de sucesso que os deixou conhecidos mundialmente, se tornou uma maldição para esses jovens esquisitões britânicos. Mesmo após o lançamento do ótimo álbum The Bends (1995) – disco onde o Radiohead já começa uma forte mudança em sua sonoridade e dá indícios do que está por vir – a banda ainda vivia atormentada pelo fantasma do one hit wonder.

Ser conhecido como “a banda de Creep” irritava os membros do Radiohead – irritação que aparentemente perdurou, levando a banda a ficar 7 anos, de 2009 a 2016, sem tocá-la ao vivo – a ponto de Thom Yorke iniciar uma campanha contra a música, pregando, em todos os lugares que frequentava, as palavras “Creep is a bad song” (Creep é uma música ruim). 

Porém, em maio de 1997, Radiohead deixa de ser uma banda conhecida mundialmente por apenas um hit para se tornar uma das melhores e mais influentes bandas da história da música.

O caráter paradoxal

Se hoje, época em que a tecnologia está intrinsecamente conectada a nossas vidas, ainda discutimos os benefícios e os malefícios dela; no fim dos anos 90, discutir sobre tecnologia era discutir sobre o desconhecido. O fim do milênio se aproximava. Computadores e internet se aprimoravam, mas o mundo ainda tinha como base o analógico. Alguns acreditavam que a tecnologia finalmente traria a utopia; não existiriam mais guerras, doenças ou dificuldades cotidianas. Já outros acreditavam na distopia, que as máquinas carregariam consigo o fim da humanidade no novo milênio. 

É nesse contexto que surge Ok Computer, disco de vanguarda que traz em seu cerne essa dicotomia paradoxal. Uma obra que mistura instrumentos orgânicos – caracterizado por três guitarras – com elementos eletrônicos cujos toques e ruídos digitais se encaixam perfeitamente, formando assim, junto ao falsete melancólico de Yorke, uma grandiosa unidade artística. Ok Computer é um disco que coloca um ponto final em uma era, mas que, ao mesmo tempo, marca o início de uma nova.

O melhor álbum de todos os tempos

No momento em que os sons do futuro pararam de ecoar nas paredes de pedra do castelo medieval onde o disco foi gravado, e os executivos da Capital Records puderam ouvir o resultado, a sensação foi de desânimo e descrença. O que antes era otimismo em uma banda que vinha despontando no cenário, virou decepção, alterando assim a previsão de cópias a serem lançadas de 2 milhões para apenas 500 mil tiragens. Para aqueles executivos detentores de um tino de vendas apurado, aquilo era um suicídio comercial. 

Eles não poderiam estar mais errados. O álbum conseguiu o difícil feito de ser aclamado tanto pelo público quanto pela crítica especializada. Em menos de um ano após seu lançamento, Ok Computer já tinha ultrapassado a marca de mais de 2 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. A crítica o recebeu logo de cara com enorme entusiasmo: “ A Última Grande e Sincera Banda de Rock” “A Última Grande Esperança do Rock de Arena” e “A Grande Banda”, eram títulos de artigos críticos que clamavam o disco como “uma obra-prima de visionários”.

Entretanto, ser bem recebido na época de lançamento não quer dizer muita coisa. Muitas obras são aclamadas no lançamento e esquecidas com o passar do tempo. Não foi o caso do Ok Computer. Como toda obra-prima, o tempo apenas o consolidou como um clássico da música mundial. Em dezembro de 2020, a tradicional Revista Spin lançou uma lista com os 35 melhores álbuns dos últimos 35 anos, na qual o disco estava presente em primeiro lugar. Muitos anos antes, na Revista Q, uma antiga publicação mensal britânica, o Ok Computer já tinha aparecido em primeiro lugar na lista de melhores álbuns de todos os tempos, à frente de dinossauros clássicos como Beatles, Bob Dylan e The Smiths.

Mas por que esse álbum de estética iconoclasta fez tanto sucesso e se tornou um clássico eterno?

Há diversas interpretações e tentativas de explicar o porquê dessa obra ser um clássico que toca gerações. Por um lado, há o contexto já mencionado aqui, o fato de ter captado o espírito do tempo da época de seu lançamento; tecido avisos sobre o rumo que a sociedade está tomando; e tocado diretamente em temas que afligiam boa parte das pessoas no fim do milênio, como a angústia causada pelo esfarelamento das relações, a perda da individualidade humana e a consequente “robotização” dos indivíduos, tendo tudo isso tanto nas letras quanto em sua arquitetura sonora.

Essa é uma visão verdadeira e pertinente. No entanto, para mim, há algo mais. Há nesse álbum um espírito mágico, certeiro, universal, que poucas obras humanas conseguiram alcançar. 

O Radiohead cria nesse disco um exímio sistema harmônico – mesmo com elementos de caos dissonante – no qual inserem toda a primazia técnica alinhada a um tema profundo e um imaginário de símbolos riquíssimos, formando assim um todo único que culmina em uma obra-prima. 

Aprisionamento e o espírito universal

Considero o Ok Computer como um álbum conceitual. Não quero dizer com isso que as músicas formam um padrão narrativo linear. Não. A estrutura do álbum funciona como se fosse uma junção de contos; narrativas sonoras ligadas por um mesmo tema e atmosfera, tema esse que não é a alienação tecnológica ou seus efeitos, mas sim o aprisionamento e a tentativa desesperada em se livrar dele. 

Existem diferentes tipos de cenários onde os personagens estão enclausurados em situações desoladoras, nas quais são incapazes de sair, a não ser pela via da imaginação. Desse modo, há um constante conflito entre realidade e imaginário, aprisionamento e fuga, que tem como principal efeito a dialética da esperança e desesperança. 

O Aprisionamento em si mesmo

A ramificação principal é o que chamo a grosso modo de: “aprisionamento em si mesmo”. A característica marcante aqui é a de indivíduos perdidos e incapazes de se encaixar em seus ambientes, tomados assim por sentimentos de fuga, revolta e ressentimento.

Subterranean Homesick Alien começa com uma harmonia calma, composta por guitarras e teclados com ecos que formam uma atmosfera etérea, com sons que nos remetem a espaçonaves. O narrador da música, representado por um Yorke de voz doce e serena, se mostra isolado e insatisfeito com as pessoas e o lugar onde vive.

I live in a town where you can’t smell a thing

You watch your feet for cracks in the pavement

Up above, aliens hover

Making home movies for the folks back home

Of all these weird creatures who lock up their spirits

Drill holes in themselves and live for their secrets

They’re all uptight, uptight

O que se destaca nessa música é a tentativa de fuga através da imaginação, na qual a liberdade só é alcançada fora da vida real. O narrador imagina alienígenas carregando-o para um passeio pelo universo, onde ele poderia enxergar e apresentar às pessoas ao seu redor a beleza do cosmos e o sentido da vida, podendo assim finalmente se sentir bem.

I’d tell all my friends, but they’d never believe

They’d think that I’d finally lost it completely

I’d show them the stars and the meaning of life

They’d shut me away, but I’d be all right

All right, all right, all right

Let Down segue a mesma linha de SHA, porém, o conflito e angústia interior são marcadas com mais intensidade tanto pela melodia e harmonia quanto pela letra. Aqui, a dialética desesperança/esperança está presente de forma clara na própria métrica da música. O narrador inicia o primeiro verso expondo seu vazio e decepção com a repetição das situações medíocres do cotidiano ao seu redor.

Transport, motorways and tramlines

Starting and then stopping

Taking off and landing

The emptiest of feelings

Disappointed people

Clinging on to bottles

And when it comes it’s so

So disappointing

Temos 3 refrões em Let Down. Após o primeiro refrão, a música ganha um pré-refrão na qual o narrador expõe um lapso de esperança – nem tão esperançosa assim – de que um dia “criará asas”, numa alusão a liberdade e fuga dessa realidade sufocante. 

One day I’m going to grow wings

A chemical reaction

Hysterical and useless

Hysterical and

Desse modo, a estrutura da música fica: verso (desesperança) – pré-refrão (esperança) – refrão (desesperança). Além disso, há na música uma intensidade crescente, como se a cada bloco a angústia fosse acumulando no peito de Thom Yorke, culminando assim em uma explosão de sentimentos no refrão final.

Let down and hanging around

Crushed like a bug in the ground

Let down and hanging around

Karma Police conta com uma progressão de acordes onírica – que me remete aos melhores filmes de terror –  protagonizada por um violão e um piano. A música inicia com um narrador ressentido com o mundo, que invoca a “polícia do carma” para punir as pessoas que o irritam, como um homem que parece “um rádio dessintonizado” ou uma menina que possui um “cabelo de hitler” que o “deixa doente”.

Karma police, arrest this man

He talks in maths, he buzzes like a fridge

He’s like a detuned radio

Karma police, arrest this girl

Her Hitler hairdo is making me feel ill

And we have crashed her party

Mas é no segundo verso da música que ele expressa o motivo de toda sua irritação ressentida, e encontramos o tema de forma mais clara. Aqui, o narrador expõe sua insatisfação com sua vida e o sistema, ao afirmar que deu tudo o que podia, mas que nunca é o suficiente, estando ainda estagnado, preso à “folha de pagamento”.

Karma police, I’ve given all I can

It’s not enough, I’ve given all I can

But we’re still on the payroll

Electioneering é  a música mais Rock n’ Roll do álbum, caracterizada pelos fortes riffs de guitarra e intensas distorções. No tema, ela segue a linha de Karma Police, ao falar sobre o aprisionamento do indivíduo ao sistema. 

Diferente de todas as outras músicas do álbum, o que se destaca aqui é a forte ironia acerca das falsas promessas políticas. No primeiro verso, o narrador repete, de forma sarcástica, frases proferidas por políticos: “Eu não vou parar, eu não vou parar por nada” ou “Eu sei que posso contar com seu voto”. 

I will stop, I will stop at nothing

Say the right things when electioneering

I trust I can rely on your vote

No refrão, o narrador ironiza o fato de que enquanto os políticos evoluem, o indivíduo retrocede, nesse ciclo ininterrupto de falsas esperanças e promessas de areia.

When I go forwards you go backwards

And somewhere we will meet

When I go forwards you go backwards

And somewhere we will meet

Já em Fitter Happier, encontramos um grande manifesto sobre uma espécie de robotização; o aprisionamento das aparências e da busca artificial da perfeição. 

Na música, uma voz robótica e desprovida de nuances – que parece que saiu do computador de Stephen Hawking – lista, com um melancólico piano ao fundo, várias qualidades e objetivos que aparentemente constituem uma vida perfeita.

Fitter, happier, more productive

Comfortable

Not drinking too much

Regular exercise at the gym

Three days a week

Getting on better with your associate employee contemporaries

No entanto, a música vai tomando um rumo crescente a um sarcasmo mais explícito, culminando assim na frase mais crítica e cínica do álbum inteiro:

Calm fitter, healthier and more productive

“A pig in a cage on antibiotics” (Um porco preso em uma gaiola sob o efeito de antibióticos)

E finalmente chegamos em No Surprises, a última música desse tópico de temas, e a mais angustiante e desesperançosa do disco – uma tarefa bem difícil -, na qual reúne todos os sentimentos e assuntos abordados nas canções anteriores. 

No Surprises é sobre o despertar desesperado do porco preso na gaiola sob efeitos de antibióticos. Toda a música é conduzida por um Glockenspiel (jogo de sinos), que cria uma espécie de “atmosfera de canção de ninar sufocante”.  

Aqui, o narrador expressa sua asfixiante angústia e vazio, mesmo tendo “uma casa tão bonita” e um “jardim tão bonito”. Logo na primeira estrofe, ele critica coisas como o “emprego que te mata lentamente”, ou o governo “que não fala por nós”. 

A heart that’s full up like a landfill

A job that slowly kills you

Bruises that won’t heal

You look so tired, unhappy

Bring down the government

They don’t

They don’t speak for us

No entanto, o que torna essa música a mais angustiante e desesperançosa de todo o álbum?

No Surprises acentua de forma explícita, com seu contraste entre letra e melodia de canção de ninar, o desespero do narrador aprisionado no vazio de sua vida. No último refrão da música, enquanto a primeira voz de Thom Yorke diz de forma melancólica: “Sem alarmes e sem surpresas”, a segunda voz clama em desespero “Tire-me daqui”. E, para sair desse vazio, a única forma encontrada é passar pelo “Último surto”, pela “ Última dor de barriga”, e dar um “Aperto de mão de monóxido de carbono”, em uma clara alusão ao suícidio por intoxicação.

I’ll take a quiet life

A handshake of carbon monoxide

And no alarms and no surprises

No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

Silent

Silent

This is my final fit

My final bellyache with

No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises (let me out of here)

Please

O aprisionamento mental

Este tópico é constituído por duas músicas. Aqui, os indivíduos estão completamente presos em sua mente, dominados por paranoias e torturados psicologicamente.

A primeira é Paranoid Android, um milagre sonoro, daqueles que acontecem poucas vezes na história. A estrutura da música é formada por 4 seções distintas, com compassos e tonalidades variadas que se alternam ao longo dela. Não existe refrão. Não existe ponte. A escolha por criar uma rapsódia – digna do Queen – intensifica e enriquece o tema da instabilidade psicológica.

Marcada pela falta de linearidade, o narrador  começa a primeira parte pedindo para que as vozes na sua cabeça o deixem em paz. 

Please, could you stop the noise? I’m trying to get some rest

From all the unborn chicken voices in my head

Enquanto ele se pergunta: “O que é isso?”, uma voz robótica – que pode ser interpretada como uma das vozes na sua cabeça – responde: “Eu posso ser paranóico, mas não sou um androide”. 

What’s that?

(I may be paranoid, but no android)

What’s that?

(I may be paranoid, but no android)

Temas recorrentes no álbum como raiva, melancolia e o consequente ressentimento aparecem aqui durante o surto mental do narrador. A paranoia e a falta de sentido linear duram por todas as partes da música, às vezes por meio da raiva, outras por meio da angústia.

You don’t remember

You don’t remember

Why don’t you remember my name?

Off with his head, man

Off with his head, man

Why don’t you remember my name?

I guess he does

Rain down

Rain down, come on

Rain down on me

From a great height

From a great height, height

Se Paranoid Android tem um narrador em surto que ouve vozes, em Climbing Up The Walls o narrador é a própria voz. 

“Climbing Up The Walls” é uma expressão inglesa usada quando alguém está nervoso e ansioso. Com uma harmonia inspirada no compositor atonal Krzysztof Penderecki, essa música possui uma seção de cordas com 16 violinos diferentes, em diferentes tons, guitarras e vocais distorcidos e sobrepostos que criam um clima de pânico caótico e arrepiante. 

O tema dessa música é o pânico de estar preso na própria mente. No primeiro verso, o narrador fala que é “a chave que tranca sua casa”,  “o picador no gelo”. Há nesta imagem uma forte ameaça criada pela sensação abstrata da dor, porém, isso é expresso por meio de um falsete suave de Thom Yorke, criando-se, através do contraste, uma sensação ainda mais aterrorizante. 

I am the key to the lock in your house

That keeps your toys in the basement

And if you get too far inside

You’ll only see my reflection

It’s always best with the covers up

I am the pick in the ice

O pânico é algo silencioso, interno, sem escapatória. O aprisionamento mental é marcado pela desesperança. Não há nem uma fagulha de esperança. A dor e a agonia serão eternas. Isso fica claro no pré-refrão quando o narrador diz de forma suave:  “Não grite nem toque o alarme. Você sabe, somos amigos até morrermos”.

Do not cry out or hit the alarm

You know we’re friends ‘till we die

No refrão, o tom suave contínua e o narrador intensifica o sentimento de desespero e da impossibilidade de desvencilhamento já estabelecido antes: “Em todos os lugares que você for, eu estarei lá”, chegando a criar uma imagem abstrata como “abra seu crânio, e eu estarei lá”, que deixa claro a incapacidade de fuga.

And either way you turn

I’ll be there

Open up your skull

I’ll be there

Climbing up the walls

O aprisionamento romântico

Se nos outros tópicos o que se destacava era o aprisionamento e a desesperança, no aprisionamento romântico o que se destaca é a esperança e a tentativa de fuga. Como nos outros, os indivíduos estão atormentados em busca de uma saída. No entanto, aqui há uma ação mais ativa em busca dela, motivada pelo amor. 

Criada para o filme Romeu + Julieta (1996) de Baz Luhrmann’s, Exit music (For a Film) aborda os temas da esperança, fuga e desespero de jovens amantes.  Essa música é mais uma do álbum na qual não há refrão, além de ser dividida em duas partes.

A primeira é composta apenas pelo violão e a voz quase sussurrada de Thom Yorke, levada por toques calmos no instrumento. Nessa primeira parte, o narrador acorda sua amada para fugir antes que “tudo desmorone”.  

Wake from your sleep

The drying of your tears

Today we escape

We escape

Pack and get dressed

Before your father hears us

Before all hell

Breaks loose

Toda a música gira em torno dessa situação sombria e aterradora que é estar oprimido por algo, sem poder desfrutar do amor. Em Exit Music, temos dois amantes apavorados – “Respire, continue respirando. Não perca o controle” – na tentativa de fugir de um desfecho que já está marcado pelo destino. Sendo Romeu e Julieta uma história universalmente conhecida no Ocidente, todo mundo já sabe o seu final, o que torna a música ainda mais trágica: é como se soubéssemos que toda essa tentativa seria em vão. 

Na segunda parte, a intensidade da música cresce, tanto no ritmo quanto na letra. A raiva e a revolta tornam-se protagonista. Do peito de Thom Yorke sai o grito contra tudo, não apenas contra aqueles que querem separá-los, ou contra as normas sociais, mas sim contra o próprio cosmos e seus desfechos sádicos e absurdos. 

And you can laugh

A spineless laugh

We hope your rules and

Wisdom choke you

And now we are one

In everlasting peace

We hope

That you choke

That you choke

Em um álbum predominantemente marcado pela desesperança, Lucky é um facho de luz de esperança no fundo do mar. Lucky – como o próprio título já denuncia – é sobre um homem otimista, que possui esperança de uma grande mudança, acreditando assim que uma série de coisas boas irá acontecer em sua vida. No entanto, essa “sorte”, ainda continua no campo da possibilidade, como um desejo, um sentimento, uma esperança, e não um fato da realidade, como podemos constatar no primeiro verso:

I’m on a roll

I’m on a roll this time

I feel my luck could change

O motivo de sua esperança em fugir da situação em que se encontra está no seu amor por Sarah. No refrão, o narrador cria metáforas trágicas e sufocantes, nas quais Sarah é sua salvadora, aquela que o livrará dos piores momentos, das piores desgraças, e ele será seu super-herói, permanecendo assim à beira do precipício, mas sem jamais cair.

Kill me, Sarah

Kill me again with love

It’s gonna be a glorious day

Pull me out of the aircrash

Pull me out of the lake

Cause I’m your superhero

We are standing on the edge

O círculo 

Escrevi anteriormente que o Ok Computer era uma obra conceitual, mas não respeitava uma estrutura contínua. Sustento minha afirmação. Entretanto, há uma grande exceção a essa regra. 

A primeira música do disco, Airbag, fala sobre um homem que “nasceu novamente” após sobreviver a um acidente de carro. 

In a fast german car

I’m amazed that I survived

An airbag saved my life

Já na última música, The Tourist, temos um homem angustiado que está no seu carro em alta velocidade, enquanto uma voz o manda ir devagar.

Sometimes I get overcharged

That’s when you see sparks

They ask me where the hell I’m going

At a thousand feet per second

Hey man, slow down, slow down

Idiot, slow down, slow down

Isso nos mostra que Ok Computer é formado por uma estrutura circular, sendo a primeira música continuação da última. Podemos dar um passo além nessa chave de interpretação: não só uma letra complementa a outra, como também é possível identificar uma pista crucial na própria harmonia da música.

No último refrão de The Tourist, o narrador que está em terceira pessoa suplica através da voz de Thom Yorke: “Ei cara, vá devagar. Vá devagar”. Então sua voz cessa. Restam apenas os instrumentos, que vão abaixando de volume lentamente. E é aí que surge uma sineta. Um ruído solitário que vibra, e seu som ecoa e se espalha até desaparecer no silêncio do fim do disco. 

Ora, essa sineta é o som da batida do carro que liga uma música à outra. O elo de encontro que torna o Ok Computer um eterno retorno. Começamos com Airbag, a música mais esperançosa do álbum, onde o narrador, depois de uma “explosão interestelar”, está “de volta para salvar o universo”. E terminamos em The Tourist, o homem que vagueia a toda velocidade pela eterna estrada. 

Nesse sentido, o Ok Computer é uma jornada circular, onde, de uma forma ou de outra, terminamos no mesmo lugar. Sempre que o ouvimos, viajamos nessa eterna dialética entre a esperança e desesperança. Onde após todo o final, renascemos como a fênix, para mais um novo dia, uma nova jornada, não importando o seu destino.

Thom Yorke

Thom Yorke no clipe de No Surprises. Foto: Reprodução

Em minha concepção mais romântica e idealista, acredito que há na música uma característica que se difere de todas as artes. A música é a forma mais pura de expressão que ser humano pode alcançar. Não é necessário ter uma cultura prévia. Não é necessário pensar. Nem mesmo é necessário ter o básico de interpretações de símbolos. É preciso apenas um bom ouvido e uma alma aberta. Os sons saídos de uma obra intensa e profunda tem o potencial de tocar qualquer espírito humano independente do seu estado e da sua capacidade de acepção.

Este disco consegue alcançar esse mais alto grau da experiência humana em relação a uma obra de arte. Há naqueles sons uma força de expressar o invisível de modo que se tornam visíveis dentro de nosso ser. Sua sensibilidade pungente tem a capacidade de desvelar sonhos que vão além do real; de reviver o passado e atualizar o futuro; de produzir paixões como tristeza, esperança e entusiasmo, em uma simbiose caótica e catártica. 

Ok Computer é uma obra que não é apenas para se ouvir, mas para sentir e imergir em suas camadas de sons que nos proporcionam uma experiência transcendental. Deixo aqui meu agradecimento a essa obra-prima que parece que veio de outra galáxia; mas, que na verdade, é fruto de tudo aquilo que é humano, demasiado humano.


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