Os Amantes da Pont-Neuf e a inocência dos sentidos


Os Amantes da Pont-Neuf

Foto: Divulgação. LOVERS ON THE BRIDGE,, (aka LES AMANTS DU PONT-NEUF), Juliette Binoche, Denis Lavant, 1991

Se olharmos para trás na história ocidental, mais precisamente para o Período Helenístico, iremos nos deparar com os cínicos. Esses filósofos viviam nas ruas da pólis, por escolha própria: o mais longe possível das convenções humanas e o mais próximo possível da natureza. Sua filosofia moralista acreditava que deveriam viver apenas guiados pelo seus instintos para alcançar a plenitude máxima ao final da vida.

Em “Os Amantes de Pont-Neuf” (1991), dirigido por Leos Carax, nos deparamos com Alex, um inocente jovem que mora na Pont Neuf, mais antiga e famosa ponte da capital francesa, que está interditada para revitalização. 

Alex mora na ponte por desejo próprio. No entanto, ao contrário dos cínicos, seu desejo não é motivado por um moralismo de se livrar das convenções humanas, ou – atualizando para o vocabulário moderno – do “terrível capitalismo”. Ele está na ponte porque está perdido. Dilacerado. Apenas vaga pelo mundo em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é. Vive seus dias a base de alimentos roubados, álcool e soníferos fornecidos por Hans, seu companheiro de ponte.

Ao voltar para sua “casa” depois de um automóvel passar por cima de sua perna, Alex encontra Michele; uma desenhista que foi morar na rua após ser acometida por uma doença que a está deixando cega e ter sido largada por seu antigo amante.

Sabemos disso porque, curioso e interessado na vida da bela mulher, o jovem invade a casa dela e pega seu diário. Ao lê-lo, se indaga: “O que quer dizer primeiro amor?”

Dois seres opostos que se encontram por um acaso do universo. Em diferentes extremidades. Ela quer fugir. Ele encontrar.

Esses corpos se unem pela primeira vez em uma cena conduzida por Carax com uma energia pulsante. Em uma sintonia homogênea, os personagens se entrelaçam no momento mais puro, selvagem e livre de suas vidas. 

Eles atiram. Correm. Dançam no meio de París. Movidos por seus instintos, imersos no barulho dos fogos que explodem no céu – da mesma forma que suas energias vitais explodem dentro deles – e na trilha sonora que transita do rock ao hip hop, do hip hop à valsa; submersos em um caos que paradoxalmente se torna harmônico, em meio a confusão de sons e afetos que movem aqueles corpos, ao mesmo tempo que aqueles corpos os movem.

Roubam uma lancha policial. Michele esquia no rio Sena, deslizando através de uma explosão de som e cores artificiais,  guiada pelos violinos da trilha, enquanto Alex assiste encantado a esse belíssimo espetáculo.

Cena de “Os Amantes da Pont-Neuf”. Além deste filme, Leos Carax dirigiu filmes como “Pola X” (1999) e “Holy Motors” (2012).

Então a música para. A câmera treme e perde o foco. Os instrumentos da trilha tornam-se dissonantes. Alex paralisa. Observa. Contempla. Uma epifania de milésimos, mas que fica congelada na eternidade. Finalmente achou o que procurava. Mergulham no Sena. Purificados por um encontro improvável. Libertos pelo amor.

Pouco importa como terminará suas histórias, não no tempo da narrativa, mas no tempo da vida. Esse momento único onde espaço, imagem, som, texturas e tudo o que existe se unem, eternizam-se como uma coisa só; é o fim da jornada daquelas almas. E também um novo começo.

Porém, tudo o que passou, ou virá, já não importa. Só por esse instante, onde a inocência e a pureza da vida foram alcançadas; a existência desses seres já terá valido a pena.

A Harmonia Werckmeister e a dança contínua do cosmos