Os percalços de “Rebecca, A Mulher Inesquecível”

Remake do clássico de 1940, o lançamento do filme da Netflix reacende uma antiga polêmica
rebecca, a mulher inesquecível
Armie Hammer e Lily James estrelam “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, nova produção da Netflix. Foto: Divulgação/Netflix.

Um clássico do cinema ganhou uma nova adaptação produzida pela Netflix. “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, estreou na última quarta-feira (21). A difícil tarefa de filmar a trama que se tornou um clássico sob a direção de Alfred Hitchcock e vencedor do Oscar em 1940, coube ao diretor Ben Wheatley, de Free Fire: o Tiroteio (2016) e No Topo do Poder (2015).

No novo filme, Lily James (Downtown Abbey, Cinderela) dá vida a uma jovem que, recém casada com o viúvo Mr. de Winter (Armie Hammer), precisa conviver com a sombra da primeira esposa, Rebecca. A governanta da casa, Mrs. Danvers (Kristtin Scott Thomas), se esforça para que a presença de Rebecca nunca seja esquecida. Até agora, as críticas são mistas: com nota 46 no Metacritic e 6 estrelas no IMDb, o suspense parece não ter conquistado aqueles que tinham altas expectativas sobre a já eternizada trama.

A primeira versão, estrelada por Joan Fontaine e Laurence Olivier, “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, foi o primeiro projeto hollywoodiano de Alfred Hitchcock, que se mostrou bem-sucedido: além de vencer dois Oscars em 1940, de Melhor Filme e Melhor Fotografia em preto e branco, foi um sucesso entre a crítica e o público.

alfred hitchcock
Hitchcock lê o romance de Daphne du Maurier que inspirou o filme de 1940. Foto: Divulgação.

A história de ambos os filmes foi adaptada do livro homônimo da britânica Daphne du Maurier, publicado em 1938. Ela também escreveu o conto Os Pássaros (1952), também foi adaptado para as telonas por Hitchcock, estreando em 1963. Entretanto, Rebecca, seu romance de maior sucesso é envolto de controvérsias, sendo a principal delas a acusação de plágio de um romance brasileiro.

A Sucessora

Em 1934, a escritora Carolina Nabuco publica seu livro “A Sucessora”, sucesso de vendas no Brasil. O romance intimista e psicológico conta a história de Marina, uma jovem recém-casada com o milionário Roberto Steen. Porém, o casamento é assombrado pela memória da primeira esposa dele, Madame Steen, a quem a governanta Juliana faz questão de relembrar.

Enquanto escrevia, a autora já traduzia simultaneamente para o inglês, a fim de ser publicado no exterior. Carolina enviou o manuscrito para uma agência nos Estados Unidos, que o repassou para a Inglaterra. A escritora não recebeu mais respostas, e, algum tempo depois, o mesmo escritório inglês publica Rebecca, assinado por du Maurier.

A história foi contada pelo crítico Álvaro Lins, em um ensaio publicado no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 1940; também ganhou notoriedade na imprensa da época. Lins analisou os dois romances em detalhe, descrevendo não só como a narrativa era similar, mas também as páginas onde havia a grande chance de plágio. Em novembro de 1941, o jornal norte-americano The New York Times também publicou um artigo sobre a grande ‘coincidência’ entre os dois romances.

correio da manhã
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A história do plágio foi contada em duas ocasiões no Correio da Manhã, no qual Álvaro Lins era editor-chefe, em abril de 1940. Imagens: Reprodução/Biblioteca Nacional

Em suas memórias Oito Décadas (1973), Carolina Nabuco relata que os advogados da United Artists, companhia que produziu o filme, a procuraram para que ela assinasse um termo admitindo que houve uma “coincidência” entre as duas obras mediante uma considerável quantia em dinheiro, o que a escritora se negou a fazer. Apesar disso, também não acusou os envolvidos de plágio.

Felizmente, A Sucessora ganhou seus devidos créditos no Brasil. Best-seller, esteve fora de catálogo desde 1996, mas ganhou uma nova edição em 2018, pela Editora Instante. E, em 1978, foi adaptada para uma telenovela assinada por Manoel Carlos, que se tornou um fenômeno do horário das 18h e foi um marco na carreira de Susana Vieira, que deu vida à jovem Marina. Confira a abertura aqui.

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A telenovela global de 1978 contava com Susana Vieira, Rubens de Falco e Natália Timberg. Foto: Divulgação/Memória Globo.
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