Os últimos leitores

Como entender a importância da leitura na contemporaneidade? Quais alternativas teríamos para mudar o quadro de estimativas de leitura baixíssimas no Brasil?
Jorge Luis Borges no seu apartamento em 1981. Foto: AP/Eduardo Di Baia.

Por Elcias Moreira Nunes Júnior

De fato, é preocupante um país em que 30% da população nunca comprou um livro e 44% jamais leu um ao longo de sua vida. Esta informação foi repassada na 4ª edição da pesquisa “Retratos  da Leitura” (reunida em livro lançado na Bienal de São Paulo em 2016 pela Editora Sextante), encomendada pelo Instituto Pró Livro, coletada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), entidade mantida pelo Sindicato  Nacional dos Editores de Livros (Snel), Câmara Brasileira do  Livro (CBL) e Associação Brasileira de Editores de Livros  Escolares (Abrelivros). 

Foram ouvidas 5.012 pessoas, dentre as quais alfabetizadas e não alfabetizadas. Conforme o Ibope, os dados coletados representam 93% da população brasileira. 

Neste cenário, nada positivo, considero que o livro “O último leitor” do  escritor argentino Ricardo Píglia (Companhia das Letras 2006) seria uma excelente opção para leitura; tanto ao leitor iniciante quanto ao experiente, pois trata-se da história da leitura no mundo ocidental.

Para o primeiro tipo de leitor a importância de  lê-lo seria pelo fato de apresentar os grandes livros, autores e  personagens da literatura universal, já para o segundo tipo de  leitor seria revisitar os clássicos através da perspectiva de um  leitor como foi o ensaísta argentino, falecido aos 75 anos em  Buenos Aires. 

O livro é composto por seis ensaios, cujo objetivo principal reside na descrição de leitores reais e imaginários, ou seja, estes últimos seriam personagens de livros numa abordagem metalinguística. “O que é um leitor?”, questionamento lançado e ao mesmo tempo respondido: o leitor ideal seria o escritor Jorge Luis Borges, um apaixonado pela leitura, cuja visão ficou  comprometida de tanto ler. 

No segundo ensaio, “Uma narrativa sobre Kafka”, é retratada a correspondência por cartas do escritor austríaco, em uma faceta pouco conhecida do público, com Felice Bauer, sua mais obstinada  leitora e sua suposta amante platônica. 

“Leitores imaginários”, uma homenagem aos mestres da literatura policial: Conan Doyle, Raymond Chandler, Fiódor Dostoiévski e Edgar Allan Poe — considerado por muitos o pai do gênero policial — cujo  personagem o detetive Auguste Dupin, que surge no livro Os Assassinatos da Rua Morgue, leitor contumaz, é o foco principal deste ensaio. 

O guerrilheiro, médico e escritor argentino Ernesto Che Guevara é homenageado em “Rastro de leituras”, um conjunto de relatos sobre seu comportamento como leitor assíduo e focado, de  acordo com relatos oficiais e registros fotográficos, pois lia em  meio às guerrilhas de Cuba, Congo e Venezuela com uma  tranquilidade assustadora. 

Anna Karenina, personagem criada  pelo escritor russo Liev Tolstói, é descrita no livro com o mesmo título, lendo um romance inglês dentro de um vagão de trem,  recebendo a análise arguta de Píglia. 

No último ensaio, “De que é feito o Ulisses?”, constrói-se uma análise acerca da estrutura do livro “Ulisses”, de James Joyce, cuja construção teve como modelo “A Odisseia” de Homero, pois alguns elementos na narrativa ficam sem referências no contexto, motivos estes que tornam diversas partes do livro indecifráveis. 

Que não sejamos os últimos leitores, mas que sejamos sim  leitores constantes; leitores com propósitos e referências de bons  leitores, sejam estes reais ou irreais, ficcionais ou históricos. 

A leitura da literatura universal, ainda nos dias atuais, é uma das ferramentas essenciais para a compreensão das transformações sofridas pelo homem ao longo da história. Através da literatura transpomos os limites do tempo e do espaço. 

Ou ainda, pelas palavras de  Borges, “o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, então que tenhamos memória para o esquecimento, que tenhamos  imaginação para criarmos um mundo melhor.

Elcias Moreira Nunes Júnior é escritor e jornalista manaura. É criador do Selo Editorial Temporal que surgiu da sua experiência para resolver um grande problema: encontrar uma editora para publicar os seus livros com a qualidade desejada. Publicou seu segundo livro “Crônicas em papel de pão” (2017) pelo próprio selo. Seu título mais recente, “As horas tristes” (2019), foi publicado pela Editora Penalux.

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