Ouro Velho, Mundo Novo: onde a poesia se fez necessária

A série Ouro Velho, Mundo Novo e a universalidade da poesia popular do sertão

“Ouro Velho, Mundo Novo”, de Lucas Santos . Foto: Lucas Santos.

Em minha relação pessoal com a poesia, alguns momentos considero importantes. Creio que o primeiro tenha sido quando apresentei oralmente uma resenha do primeiro livro de poesias que li: Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Ainda tenho esse livro na minha estante, repleto de anotações indicando o significado outrora desconhecido de algumas palavras e cheio de lembranças do instigante estranhamento ao enxergar nestas as mesmas palavras não apenas gramática e linguagem, mas sentimento!

Um segundo momento foi quando li Arte de Amar, de Manuel Bandeira. Foi um choque positivo na descrição poética do amor para um garoto que até então tinha apenas a visão dos românticos sobre o tema.

Um outro momento tão impactante quanto foi ao ler o poema Emergência, de Mário Quintana. Nestes versos me deparei com as seguintes frases que mudaram minha forma de enxergar a poesia:

“Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela

abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

— para que possas, profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.”

Em tempos de pandemia e isolamento, quando os olhares se voltam mais atenciosos e suplicantes para as artes, esse poema nunca fez tanto sentido.

Contudo, nas últimas semanas, deparei-me com um trabalho audiovisual que resulta para mim tão significativo e importante no conhecimento sobre a poesia quanto os textos e poetas já citados aqui. Importância não somente atribuída como tal pelo conteúdo poético, mas também por chamar atenção para outra forma de entender e perceber o que é poesia.

Ouro Velho, Mundo Novo

Essa obra em questão é a série documental Ouro Velho, Mundo Novo, dirigida pelo caruaruense Cláudio Assis e pelo recifense Lírio Ferreira. O tema da série é o universo da poesia popular presente na região do sertão do Pajeú Pernambucano e do Cariri Paraibano. Assim, aborda o início histórico e místico da poesia na região, seus importantes personagens e o percurso até a contemporaneidade.

A série estreou em junho deste ano com o oferecimento do Canal Brasil e está disponível gratuitamente no site Globosat Play. É interessante destacar que o título da série leva o nome de dois municípios que estão na divisa dessas duas regiões do sertão já citadas: Ouro Velho (PB) e Mundo Novo (PE).

Os personagens emblemáticos da poesia que nasce nessa região são apresentados por meio de entrevistas ou arquivos intercalados por um narrador que ganha voz e corpo na figura do poeta, compositor e vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado, José Paes de Lira, conhecido como Lirinha.

A presença dele nesse papel fez um enorme sentido para mim. Não apenas por ser alguém cuja vida e trabalho estiveram ligados à poesia popular, mas porque foi o trabalho da banda Cordel do Fogo Encantado que começou a me despertar interesse e atenção para a riqueza da poesia popular de Pernambuco. Não que eu não soubesse da existência dessa poesia antes de conhecer a banda. Entretanto, uma coisa é saber que existe, outra é se interessar pela existência. E parafraseando Saramago: “uma coisa é ver, outra é reparar”.

Além de Cordel, outro grupo que posteriormente me fez fitar os olhos com mais atenção na poesia nordestina foi o grupo Em Canto e Poesia. Este, por sua vez, é formado pelos netos de Louro do Pajeú, cuja história e legado são abordados no terceiro episódio da série.


Cartaz oficial da série Ouro Velho, Mundo Novo. Foto: Divulgação

Inclusive, uma coisa pela qual a série adquire importância é o fato de reunir em um mesmo produto informações de diferentes poetas que se encontram esparsas e espalhadas. Além disso, poucos são os registros audiovisuais e biográficos de poetas populares.

Entretanto, para além da função documental, a série traz diversas reflexões sobre o universo poético e sobre a poesia popular. Entre elas a necessidade da poesia onde a vida é difícil, a relação entre poesia e espaço e o machismo na poesia do repente.

Inclusive, este último tema tem como cerne a história e obra da poeta e repentista Maria Alexandrina da Silva, conhecida Mocinha de Passira. Uma das poucas mulheres da cantoria de viola que se destacou em uma arte totalmente dominada pelo sexo masculino a ponto de ser o único nome da cantoria de viola a ser nomeado Patrimônio Vivo de Pernambuco. A título de curiosidade, vale destacar a grande influência de Mocinha no trabalho do artista Siba.

Ademais, outra importante questão trazida a debate pela série é a universalidade desses artistas populares.

Louro do Pajeú também é Maiakovski!

A série confronta através de seus personagens os limites do regional, originariamente geográficos, que acabam de forma errônea limitando a poesia a certos espaços e públicos. Errônea pois toda a obra audiovisual mostra o quanto a poesia popular é forte, intensa e, inclusive, criteriosamente técnica como qualquer outra interpretada de forma mais valorosa. 

Afinal de contas, toda poesia parte de uma região e discute questões universais a partir de um determinado espaço. Todavia, enquanto umas são percebidas como universais, outras têm seus cursos limitados por uma espécie de seca de ignorância.

Talvez essa limitação da poesia do sertão enquanto regional deva-se ao caráter popular, valor mutável com o tempo e que em nada diminui a força poética do verso. A poesia de Fernando Pessoa, por exemplo, ao definir o poeta como um fingidor de uma dor que deveras sente tem tamanha intensidade tal qual a definição que Pinto do Monteiro dá do poeta: “é aquele que tira de onde não tem, e bota onde não cabe”.

Outra possível fator da limitação do regional talvez seja o baixo prestígio da poesia popular dado o número de poetas sem formação educacional formal. No que concerne a esse tema, a série traz a brilhante resposta de Pinto de Monteiro, quando indagado sobre a existência de poetas analfabetos. A Cascavel do Sertão responde: “O estudo é só o verniz da peça, o artista é o que ele faz da peça”. Entenda aqui a peça como a poesia.

A partir dessas questões abordadas e de muito mais, a série se torna um marco na minha forma de enxergar a poesia popular. Isso porque, em parte, me apresenta de forma reunida e entrelaçada a história e obra de poetas que antes que esquecidos, sequer são levados em conta no que se ensina de poesia em escolas tradicionais (com exceção de colégios em São José do Egito, que possuem no ensino fundamental a matéria de poesia popular).

Em outra parte, porque traz à tona a nobreza poética e intensidade dessa poesia que nasce no sertão, e com isso confronta a ideia limitante de que essa mesma poesia, embora geograficamente regional, como qualquer outra, é essencialmente universal, também como qualquer outra. Dessa forma, isso me leva a concordar com o jornalista Xico Sá quando afirma no terceiro episódio: “Regional um caralho. Louro também é Maiakovski”.

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