Para pôr na estante: Conheça 5 livros da Literatura Negra Brasileira

Conheça algumas obras da literatura negra brasileira ou relembre títulos que valem a pena serem relidos.

Entre as múltiplas violências que o racismo trouxe aos negros no Brasil, está a negação da intelectualidade da mulher e do homem negro. No campo da literatura brasileira, foram impostos diversos impasses a escritores negros. O reconhecimento destes autores é algo ainda a ser superado nos dias atuais, embora a literatura negra tenha ganhado cada vez mais espaço devido a luta dos movimentos antirracista no Brasil ao longo da história. Um exemplo disso, é a obra Pequeno Manual Antirracista da escritora Djamila Ribeiro, que foi a mais vendida em 2020 por um dos maiores canais de vendas de livros no mundo, a Amazon.

Mas em que consiste o que chamamos de literatura negra ou literatura afro-brasileira?


A literatura negra não se limita a um só gênero literário ou temática. Ela é marcada pelos múltiplos sentimentos e vivências dos seus autores. Em comum, as composições da literatura afro-brasileira possuem a busca pela conquista do seu lugar identitário na arte.

Para ocupar este lugar no mercado literário, tais escritores atravessaram a desvalorização por parte das grandes editoras durante anos no Brasil. Segundo a pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), o perfil dos escritores brasileiros com publicações entre 2004 e 2014, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, que estão entre as principais editoras do país, é formado por 97,5% autores brancos.

Outra dificuldade enfrentada pelos autores era a de que dificilmente tinham a ajuda de alguém com influência capaz de facilitar a passagem desses escritores para o mercado literário. Quando os livros conseguiam ser lançados, muitas vezes, por pequenas editoras ou de forma independente, as livrarias não os colocavam nas prateleiras.

Confira agora algumas publicações da literatura afro-brasileira:

Úrsula (1859) – Maria Firmino dos Reis
Editora Taverna

Capa do livro Úrsula da Editora Taverna. Foto: Divulgação.

Úrsula é um romance escrito em um contexto precedente à abolição da escravatura no Brasil. Escrito por uma afrodescendente antes mesmo das obras de Castro Alves, conhecido como o “Poeta dos Escravos”, o livro é o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher e um dos primeiros a abordar o abolicionismo.

Maria Firmino dos Reis assinou o livro com o pseudônimo “uma maranhense” e escreveu no prólogo um relato sobre a exclusão de escritores negros, principalmente das mulheres pela elite intelectual brasileira. Ela diz:

“Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.”

(p. 13)

Alforrias (2012) – Rita Santana
Editora Editus

Capa do livro Alforrias da Editora Editus. Foto: Divulgação.

Comumente, as narrativas sobre o prazer na literatura brasileira hipersexualizaram a mulher negra com a construção de estereótipos racistas. No entanto, Alforrias atravessa o erotismo e o sentimento sem os moldes da branquitude. De forma que somos levados a atravessar uma literatura poética, marcada pelo amor e pelo prazer devaneados pelo eu-lírico, como é observado no poema Acridez:

“A noite acortinou-se sobre o meu sorriso
E nada mais seria, desde então:
Comunhão de corpos, inclusão de membros,
Festejamento de carnes,
Nem mesmo amplidão de águas.

Vi-me no falecimento das ânsias
A sangrar sobre o vinhaço.

Corria mansidão sobre o meu desespero
E em tempos desiguais o querer perdeu-se
No despenhadeiro da distância.
O gosto perverso da separação
Ventilou minha boca de mulher que ama.
Ninguém viu o sabor na língua.
Ninguém viu o sofrer dos dentes.”

(p. 27)

Olhos d’ água (2014) – Conceição Evaristo
Editora Pallas

Capa do livro Olhos d’água da editora Pallas. Foto: Divulgação.

O livro é uma coleção de 15 contos que exploram, de maneira poética na prosa, o racismo e a desigualdade social. Em uma tentativa de compreensão de si mesma, a autora percorre as vivências da mãe da autora. Memórias que chegavam a se contrastar com suas próprias experiências. Conceição Evaristo também representa a figura feminina e a figura materna por meio de referências a elementos da cultura afro-brasileira, como, por exemplo, os orixás Oxum e Iansã e de diferentes personagens que ganham vida em cada conto de Olhos d’água.

A exemplo do seguinte trecho do conto intitulado com mesmo nome do livro: 

“Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de prantos balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, por que eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela? […]”

(p. 12)

Não Pararei de Gritar (2019) – Carlos de Assumpção
Editora Companhia das Letras

Capa do livro Não Pararei de Gritar da Companhia das Letras Foto: Divulgação.

As poesias desta obra denunciam e testemunham a desigualdade racial no Brasil. O livro Não Pararei de Gritar é uma antologia poética construída ao longo de 69 anos por Carlos de Assumpção.

Carlos de Assumpção, hoje com 94 anos, dedicou a vida à militância negra. O poema da obra intitulado “Protesto”, da obra Não Pararei de Gritar, causou frenesi quando foi declamado em 1958 na Associação Cultural do Negro, em São Paulo. A partir de então, tornou-se o poema mais estimado por integrantes do Movimento Negro no Brasil.

Em Protesto, o autor manifesta a necessidade dos negros alcançarem os espaços predominados por brancos:

“Eu não quero mais viver

No porão da sociedade

Não quero ser marginal

Quero entrar em toda parte

Quero ser bem recebido

Basta de humilhações

Minh’alma já está cansada

Eu quero o sol que é de todos

Ou alcanço tudo o que eu quero

Ou gritarei a noite inteira […]”

(p. 35)

Entreviste um negro (2015) – Helaine Martins

Logo do projeto Entreviste um Negro. Foto: Divulgação.

O Entreviste um negro trata-se de um projeto, não um livro. Dedicamos este espaço ao projeto, em homenagem à fundadora do mesmo, Helaine Martins, falecida de insuficiência cardíaca no início deste mês, aos 41 anos. A jornalista era uma mulher negra incomodada com a falta de representatividade por parte dos entrevistados e fontes dos jornais, onde não apareciam na mídia como detentoras de conhecimento, apenas como personagens de notícias de modo marginalizado ou em matérias que abordavam racismo.
Assim, nasceu o Entreviste um Negro: um banco de fontes que busca conectar jornalistas a fontes de profissionais negros, especialistas em diversas áreas como médicos, arqueólogos, advogados, historiadores e engenheiros. Recentemente Helaine Martins havia tornado-se também editora do Expresso na Perifa, uma plataforma jornalística multimídia cujo propósito é veicular narrativas sobre a periferia que rompem com estereótipos midiáticos.
A literatura negra é marcada pelo interesse de alcançar os leitores que, na maioria das vezes, não se veem representados na literatura hegemônica, tendo em vista o grande espaço que escritores brancos conquistaram no mercado e, consequentemente, no reconhecimento literário por parte dos críticos. Sobre a vontade de escrever para que pessoas negras se identifiquem, o poeta negro José Carlos Limeira escreve:

“Existe na cabeça do negro poeta uma busca de criar o certo 

que contenha mais que a pura Beleza do verso

e que assimilável seja por outro negro que se pendura no trem das seis 

e vê nas costas a torre da Central 

Não como um rasgo indecente 

ou como um berro de concreto

que invade os olhos da gente […]

A procura persiste, mistura, verte, 

verbos tristes para descobrir

que tem muito a aprender

da dialética maior que existe

E se esconde toda na placidez das marmitas

que voltam cansadas da vida

todos os dias no trem das seis”

(Cadernos Negros 3, p. 91)

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