Pietá por Carrascoza

Luto e poesia no último livro de João Anzanello Carrascoza, Conto para uma só voz.


João Anzanello Carrascoza, autor brasileiro de livros como Trilogia do adeus e Caderno de um ausente. Foto: Divulgação.

A virgem segura seu filho morto no colo. O homem, que parece velho demais para ser filho de tal mãe, mesmo inconscientemente, está deitado com alguma graciosidade no ventre conhecido: esta não é a primeira vez que está entre os braços de Maria, mas é certamente a última. Maria, entretanto, também carrega um ar de leveza um tanto contraditório ao momento — o que há de mais popular que crer ser a pior tragédia de uma mãe a perda de seu filho? A (mais conhecida) Pietá, escultura de Michelangelo feita em 1499, é um dos maiores símbolos da mitologia cristã, a materialização artística do sofrimento de Maria, também conhecida, dentre outros títulos, como “Nossa Senhora das Dores”, “das Lágrimas”, “do Pranto”, “das Angústias”… Contudo, no último livro de João Anzanello Carrascoza, “Conto para uma só voz” (2020), a imagem do sofrimento pela morte de um filho é a do pai.

Não é a musa de Homero

quem aqui canta, 

nem estamos nel mezzo del camin

como Dante,

tampouco vão zarpar dessas palavras

as naus lusíadas que Camões pôs a velejar.

Aqui quem canta é a dor 

(e o espanto) de um homem.

O trecho acima abre a história, pouco extraordinária, de um pai que perdeu o filho. Conforme expresso no início de seu texto, Carrascoza escreve sobre um homem comum que, correntemente nesta vida, encontra-se com a morte. Conquanto, não há conformidade possível em perder um filho tão novo e, com “espanto”, o protagonista, que sequer tem nome, bem como os outros personagens do livro, não consegue formular uma continuação para sua vida, ainda que os ruídos do mundo e o nascer do sol tenham sido os mesmos diante de sua tão ordinária ruptura. Embora não seja Dante ou Homero, os versos de Carrascoza refletem com muita beleza a história desse homem simples, que nada tem de épico como os clássicos que o autor cita, sem deixar de ser também lírico. Porém, apesar do trecho acima, não se deixe enganar pela estrutura poética; há muita poesia no livro, mas é, com efeito, um conto em versos.

Publicada pela nova — e interessantíssima! — editora Nós, a obra pode soar semelhante à um dos romances impressos pela mesma editora anteriormente, “O peso do pássaro morto” (2007), estreia de Aline Bei, também escrito em formato similar. Todavia, o livro de Bei narra as diversas perdas da vida inteira de uma mulher, enquanto o conto de Carrascoza é mais pontual: sublinha a manhã do dia posterior à morte do filho do protagonista (a perda fatal!), mesclada à algumas evocações de memórias extremamente ordinárias e, por isso, emocionantes — a madeleine de Proust (citada, a propósito, no fim do capítulo 2) tem sua influência comovente no livro. Pai e filho no parque, na festa junina, assistindo à um programa de televisão… São essas as cotidianas recordações que se fazem cenários na poesia do autor: O fato que se deu entre os dois / começa numa manhã de domingo, / é tão singelo, / que ninguém — ou quase  — /  escolheria para revivê-lo / com a seiva das palavras. / (…) metade dos leitores fecham o livro nessa parte”. Acredito, entretanto, que o leitor não o fecha, porque há visível graça em tamanha simplicidade.

Pietà, de Michelagelo Buanorroti, data de 1499. Foto: Divulgação/Vaticano

Pensei bastante, enquanto lia Carrascoza, em um dos mais impressionantes contos de Katherine Mansfield, As filhas do falecido coronel (1920), que acompanha as jovens Constantia e Josephine uma semana depois da morte do pai, outrossim, quase somente decorrido em um momento único. Espanta, talvez, a simplicidade aparentemente frívola, com a qual as irmãs se perguntam se devem tingir as camisolas de preto ou a quem devem dar a cartola e o relógio de ouro do pai, ao mesmo tempo em que sentem culpa por terem, inevitavelmente, enterrado o falecido, tal era a soberania do parente, e acabam por derramar lágrimas repletas de banalidade mas, ainda assim, genuínas. Acontece que, na narrativa canônica, os pais morrem antes dos filhos. Isso não significa que não há bastante dor no processo — quem há de mensurar tais coisas? —, porém, como parte do nosso consciente coletivo, essa é uma ideia antiga e aceita com a qual nos deparamos assim que, pela primeira vez, descobrimos a morte. Por isso, para o protagonista de Carrascoza, a inversão dos termos é enfrentada com assombro, bem como, com dor incalculável. Presumivelmente, Constantia e Josephine viam a possibilidade da morte do pai doente como razoável, e, assim, visualizam o luto com certa perspectiva de liberdade de uma autoridade déspota. Mas não há nada de “razoável” no falecimento de uma criança e o futuro do homem “órfão de filho” nada tem de animador: “Tudo que o filho não viveu / morre com ambos”.

No entanto, sequer sabemos como morre seu filho: o texto é, sobretudo, sobre a dor “de quem fica”, sobre o vazio e a ausência de vitalidade de quem ainda não morreu:só para si / (e para o universo) / ocorreu a sua morte, / para o pai / é a vida doendo a todo instante. Com pungente sofrimento, então, o personagem rememora momentos triviais entre pai e filho, no silêncio que, majoritariamente, é a natureza mesma do amor desses dois homens, sem, contudo, deixar de ser amor. A maternidade carrega o mito da santidade e, consequentemente, da obrigação instantânea de afeto, ainda enquanto a mulher nem ao menos deu à luz: Mãe e filho nascem se amando, / mesmo se depois seja ódio que os una, / mas não é o que se sucede / entre pai e filho, / terão de se gerar / um no outro / por engenho e arte de ambos”. Não concordo plenamente com a citação, mas é interessante perceber que o que lemos não é a formação e desenvolvimento da relação desses parentes, algo que lembro de ver com mais frequência na literatura pelo ponto de vista da paternidade, e sim, a aflição da perda de um pai, que bom ou não, próximo ou não, pouco importa; o garoto falecido é mais lembrança que personagem. Além de nome e causa da morte, faltam ao filho idade e personalidade: de fato, o óbito deste, poderia ser o de qualquer um: “não vai doer muito / (para alguns quase nada), / saber que morreu um menino, / no mundo inteiro eles morrem, / – quem sentirá sua falta / senão o pai, a mãe, / um avô distante, / a professora da escola / os amigos do bairro?”. O conto é a história dessa falta.

É uma pragmática assustar-se com livros contemporâneos escritos em versos. Recentemente, com o trend das — quase sempre! — péssimas poesias de Instagram, esse tipo de narrativa é sempre cercada de questionamentos pertinentes como, “será tal texto apenas a exposição de um exagero no uso do enter, pretensiosamente estético, que nada tem de formante no livro?”.  Sobre o conto de Carrascoza, digo que não. A quebra linguística na narração do autor, me parece de coerente significação tanto estilisticamente, quanto narrativamente. As rupturas que se dão não somente pela constituição em versos, como também no uso recorrente de travessões e parênteses, em tudo se parecem com a quebra na normalidade da vida do protagonista e ressoam notável profundidade psicológica, principalmente, na consequente ênfase de certas expressões. Essa é a Odisseia de um homem que tenta levantar da cama, passar pelo quarto desconcertante de seu filho morto, ir à cozinha para, finalmente, começar o dia com a mais importante das refeições e, por conseguinte, continuar a viver.

Gosto, particularmente, da metalinguística de Carrascoza. Há tanta literatura no texto, além de sua própria literariedade, que o livro acaba por pensar não somente o luto, como também, a própria narrativa e o contar dela. São diversos os trechos marcados por essa (tão atraente) característica, dentre os quais destaco: “o que faz uma história  / é tudo que lhe falta, / o que nela havia de excesso / e lhe foi retirado, / como o bloco de pedra / onde Michelangelo viu a estátua. / A primeira palavra no papel / elimina mil possibilidades, / o desfecho deve ir para onde/ aponta sua faísca inicial, / e, como quem observa pelo retrovisor, / para ir adiante,/ às vezes, / é preciso olhar para atrás”. Ah, o poder da literatura de retratar a nós e a si própria!

Carrascoza abre o quarto capítulo da seguinte maneira: “Não temos / uma escultura  sublime / feita no mármore / os contornos delineados / depois de extrair da pedra seu excesso, / a Pietá, / o filho morto no colo da mãe, / (…) Temos / um pai e seu filho, / aquele aos pés desse, / obra talhada / não em rocha, / mas na matéria fluida da escrita”. Logo, o autor escolhe retratar a manhã do dia depois a morte do filho do protagonista, que, para um observador distante, pode parecer como qualquer outra, tal é a estranha rotina que se segue mesmo em face da morte, quase como a feição pouco destroçada de Maria, sendo, contudo, a imagem da aflição. Não obstante, a dor do pai órfão continua dor, sem que seja preciso o choro histriônico da primeira descoberta da morte ou a descrição do lento padecimento de anos depois. Desse modo, bem como a Pietá, o novo de livro de Carrascoza é um retrato (poético!) do luto de uma família que, de tão simples, parece menos magnífico, conquanto, apesar disso e, talvez por isso, grandioso.

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