Poeta ou Poetisa?

O peso da autoria feminina, de Jane Austen à Elena Ferrante.

Foto: Divulgação.

Na janela da sala dos Musgrove, a paciente Anne Elliot debate com Capitão Harville sobre a inconstância do amor das mulheres. Harville fundamenta-se nos livros para afirmar que as mulheres são demasiadamente instáveis, porventura um leitor assombrado pela indignação de Hamlet, Harville, certamente, lembra de “Leviandade, teu nome é mulher”. Anne, então, argumenta que nenhuma referência aos livros pode jamais ser admitida: “Os homens tiveram todas as vantagens contra nós, (…) a pena estava em suas mãos”. De fato, ao lado deles, o Capitão Wentworth move uma pena que decidirá o futuro de Anne, lhe escreve a carta na qual a pede em casamento, trecho que tornou-se um dos mais importantes da obra de Jane Austen.  

Entre meus amigos leitores, acredito só conhecer dois que leram alguma coisa de Austen. Um livro só e jamais comentam sobre a autora. Outros preferem dizer que ela não faz o seu estilo, estilo esse que permite Balzac e Wilde, ambos, assim como ela, preocupados em retratar a burguesia de seu país e época. O caso é que apesar do gênio de Jane Austen, ainda há um incômodo substancial com sua obra por parte de muitos leitores, especialmente homens, que tendem a considerar seus livros, usando uma expressão já antes empregada por Otto Maria Carpeaux, “tea-table romances”. Tal estigma fixou-se possivelmente por seus livros serem protagonizados por mocinhas confinadas à salas de estar e bailes, a experiência corrente da mulher de classe média na era regencial inglesa, quando a experiência dos homens de mesma classe e tempo nos interessa até hoje. Ou talvez por que a assinatura feminina seja, para muitos, ainda que inconscientemente, um atestado de inferioridade intelectual. Ora, a pena masculina decidiu a vida das mulheres dentro e fora da ficção por séculos, não é à toa esse afastamento da literatura produzida por elas.

É uma verdade universalmente conhecida que, na história da literatura, as aparições de mulheres e homens são desiguais por completo. Temos poucas mulheres no cânone e, no Brasil, ainda não superamos nossa mania de Clarice. Longe de mim querer afastar qualquer leitor de sua obra no ano de seu centenário, mas, talvez, seja o momento de pararmos de citar A hora da estrela como prova única de que as mulheres figuram em nossa biblioteca e, quem sabe, ler Carolina Nabuco, Maria Firmino dos Reis ou Júlia Lopes de Almeida, nomes que nos passam inteiramente despercebidos da escola à livraria. Não se nega o brilhantismo de Clarice Lispector, bem como, não se deveria negar a existência de outras gigantes, principalmente quando alguns autores meia-boca conseguiram e ainda desfrutam de considerável aclamação. 

Foi pensando em tais desigualdades históricas que, em seu ensaio Um teto todo seu, Virginia Woolf (ou sua narradora ficcional, Mary Seton) criou a famosa anedota sobre Judith, a irmã talentosa de Shakespeare que, apesar de tentar a sorte pelo mesmo caminho que o irmão, não consegue suceder por causa das pressões patriarcais: às mulheres faltavam educação, oportunidade e dinheiro, sobretudo antes do século XVIII. Por conseguinte, há pouco tempo desde que as mulheres passaram a escrever e serem publicadas, e menos ainda desde que sua literatura deixou de ter pseudônimo. Como se dá, assim, tal aceitação tão tardia? Com séculos de disparidade entre a pena masculina e feminina, será que a questão que assolou Virginia Woolf em 1928, já pode ser esgotada?

Em 1977, Clarice Lispector entrevistou Lygia Fagundes Telles. Na introdução dessa entrevista, Clarice fez uma observação curiosa: na língua portuguesa, diversamente de várias outras, se usa poetas e poetisas, autor e autora. Para ela, o termo poetisa ridiculariza a poeta mulher. Portanto, conclui, “falemos dela (Lygia) como ótimo autor”. Não é exclusividade de Clarice esse afastamento da identificação feminina na literatura, a própria Virginia Woolf reclama ser fatal para a obra de um autor que ele fale a partir de seu gênero. Outras autoras se negaram a aceitar o peso de sua assinatura: ninguém quer ser uma “escritora feminina”. Isto porque, um livro escrito por uma mulher carrega previamente, certas nódoas. A mais fatal delas, é a maldição do chick-lit. Chamo de maldição porque essa marca persegue e, muitas vezes, confina a maioria das autoras de grande circulação no mercado. Basta observar as capas internacionais horrendas da tetralogia napolitana de Elena Ferrante, livros de substancial qualidade literária, escondidos no invólucro deselegante da literatura de banca de jornal. Aparentemente, os motivos são comerciais, mas nem todos os livros escritos por homens passam pela pressão de terem as capas novelescas de Dan Brown. 

Tal estigma afasta leitores de todos os gêneros. Lamentavelmente, um livro de autoria feminina nas mãos de uma mulher ainda pode transformá-la na figura juvenil, pouco intelectual e mais ingênua das mocinhas austenianas, Catherine Morland, envergonhada de não ter lido Pope ou a última edição do Spectator, esperando ansiosamente voltar aos braços de Udolpho em seu quarto, com a certeza de que esse tipo de leitura é melhor ser feita à meia-luz. Lá fora, citamos Dostoiévski. É que não nos agrada compartilhar o gosto das mulheres, porque seus interesses e entretenimentos são quase sempre ridicularizados. Queremos ser o conflituoso Konstantin Levin, leitor voraz de Schopenhauer, David Copperfield que refugia-se em Dom Quixote em sua infância terrível, ou ainda Yuri Jivago, preocupado com a arte em Crime e Castigo mesmo em tempos turbulentos. 

Todavia, vale dizer que não estamos mais na desolação quase completa de Woolf em uma das bibliotecas de Oxbridge, na tentativa de achar solução para o problema da relação entre as mulheres e a ficção. O problema não se resolveu, mas já percebemos nossas disparidades históricas e muitos de nós nos incomodamos com a consequente herança disso na literatura até a contemporaneidade. Projetos (justíssimos!) como o Leia Mulheres espalham-se pelo país inteiro. E aqui, em terras pernambucanas, também temos nossas contribuições. A revista Hexágono, fundada pelo autor Sidney Rocha, traz, em sua segunda edição, ensaios sobre seis autoras do século XIX ao XX, que nasceram e/ou viveram em Pernambuco, entre elas, nossa tão citada Clarice e outras que ainda valem a pena conhecer, tais como, Edwiges de Sá Pereira, primeira mulher nomeada a Academia Pernambucana de Letras e, a poeta Celina de Holanda . É possível ler a revista, ambas as edições, no site: https://arevistahexagono.wixsite.com/hexagono

Foto: Reprodução

Com efeito, alguns podem ainda argumentar que mulheres já recebem grandes prêmios, como Ana Paula Maia, única pessoa a ganhar duas vezes o Prêmio São Paulo de Literatura. Ou que mulheres já são citadas com dignidade pela crítica, como é o caso de Ana Cristina Cesar e Natalia Borges Polesso, vencedora do Jabuti de 2016. No entanto, a assimetria da aceitação entre homens e mulheres na literatura ainda é tão aflitiva que nos traz à memória o escritor inglês Arnold Bennett, desconsiderando a maioria das mulheres romancistas, com exceção de Emily Brontë, ou aquele leitor que só consegue falar de Lispector, como se citar uma ou poucas mulheres extinguisse o transtorno. Então, até o momento não é hora de darmos por concluído o assunto. Inclusive porque, se não nos é possível, como sociedade, respeitar os corpos das mulheres, já é certo respeitarmos suas mentes? Porém, aqui não iremos tão longe! Vamos apenas concluir com a recomendação de observarmos nossas leituras, às vezes a falta de autoras é surpreendente e, claro, simbólica.

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