Pra frente, Brasil?

Regina Duarte e seu apreço escancarado pelo regime ditatorial


A secretária de Cultura em sua posse no começo de março. Foto: Adriano Machado / Agência Reuters

Há quem diga que a nostalgia mova o homem. Inspirados pelo passado, enxergando-o de uma forma específica no presente, somos capazes de nos impulsionar para o futuro. Entretanto, parece que um tipo peculiar de nostalgia move nossa excelentíssima secretária da cultura. Na última quarta-feira (07), questionada em entrevista ao CNN sobre os horrores da ditadura militar, Regina Duarte se limitou apenas a minimizar as mortes que ocorreram no período compreendido entre 1964 e 1985 – ainda que a Anistia, em 1979, e a Constituição Cidadã, promulgada em 1988, sejam argumentos de outras proposições históricas –, e a cantarolar o hino setentista “Pra frente, Brasil”.

Composto em 1970 por Miguel Gustavo para comemorar a primeira transmissão televisiva de uma copa do mundo no país, “Pra frente, Brasil” procurava mostrar, tangencialmente, que nossa nação, naquela época, progredia como nunca. Que, sob o jugo dos militares, ia “de vento em popa”. Algo que se provou não condizer exatamente com a verdade: mesmo após uma década de elevado desenvolvimento econômico, houve alta concentração de renda por parte de elites e aprofundamento das desigualdades sociais. Ouro de tolo, como Raul Seixas cantou.

De todo modo, parece claro que a nostalgia que Duarte demonstrou, ao recordar a canção, é muito semelhante a de seus outros colegas de governo e, principalmente, de seu chefe em comando. Jair Bolsonaro, auto-intitulado outsider político, evocou, ainda como deputado, o coronel e torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra como herói nacional e “pavor de Dilma Rousseff” em seu pronunciamento na votação do impeachment da então presidente. Em 2020, já eleito para o cargo máximo do Executivo, recebeu para uma visita o Major Curió, militar responsável pela repressão durante a Guerrilha do Araguaia e apontado pela Comissão da Verdade como um dos torturadores, no estado do Pará, da Casa Azul, centro clandestino do período.

Classificado pelo senador roraimense Chico Rodrigues, do DEM, como um momento “histórico”, o encontro com o Major Curió se atrela a constante participação de Bolsonaro em manifestações anti-democráticas, organizadas por seus seguidores, e revela um apreço e fascínio desmedidos pela ditadura, substituída por uma narrativa que a compreende como uma revolução “a favor da liberdade” e “contra o comunismo”. Em meio a tantas barbaridades, está Regina Duarte. 

Como artista e cidadão, me pergunto: será válido sugerir a Duarte que, se procura figuras precedentes para se inspirar, pense em ministros como Celso Furtado, cujo trabalho na Cultura tornou possível a primeira lei de incentivos fiscais à área, e desembocou no que hoje conhecemos como Lei Rouanet; ou mesmo como Gustavo Capanema que, mesmo na pasta da Educação, ao lado de Heitor Villa-Lobos, foi fundamental na implementação do ensino de música nas escolas e na formação de inúmeros musicistas? Seria pedir demais, em meio a um cenário de crise extrema, com toda uma cadeia produtiva em colapso, que apresente propostas coesas?

É preciso destacar que o canto de Regina Duarte, aparentemente despreocupado e alegre, não é isolado. É o canto de uma presidência que, soltando um reverberante “e daí?”, se posiciona contra todo tipo de medida democrática e técnica, e ignora as mais de 11.000 vidas perdidas durante a pandemia da COVID-19. Ao mesmo tempo, é a presidência que lamenta a “morte” de empresas, num discurso que parece apenas contemplar as inevitáveis perdas econômicas.

Não chamemos um governo como esse – e seus integrantes – de louco. Não o patologizemos. São perversos. Dão curso a uma lógica autoritária. Entretanto, no que tange à oposição, às instituições e aos outros poderes, cabe a elas apenas produzir – válidas, porém até certo ponto – notas de repúdio? Será preciso ações mais duras? É pertinente questionar.

Pra frente, Brasil? Em um momento assim, é algo pouco provável.