Aceita minha ideia, abundam os exemplos

Ensaio exclusivo da pesquisadora Mariana Nepomuceno para o Café Colombo. Em seu texto, Nepomuceno debate as dificuldades que a mulher encontra ao produzir conhecimento num contexto pandêmico. Para isso, utiliza elementos que vão da tragédia grega às últimas ondas feministas e interseccionais.

Antígona, de Sófocles. Foto: Divulgação/Dialético.

CLITEMNESTRA 

Elas estão seguras nos quartos das virgens.

AGAMÊMNON 

Deves-me obediência! 

CLITEMNESTRA 

Nesta hora, não! Juro pela deusa de Argos! Aqui fora a competência é toda tua, mas em casa e quando o assunto são as bodas de uma filha, tenho o direito de tomar as providências! 

AGAMÊMNON 

O homem de bom senso deve ter em seu lar uma boa mulher e sempre dócil; se não for assim, não case! 

(Ifigênia em Áulis, de Eurípides)

HÉCUBA (para AGAMÊMNON) 

Nenhum mortal pode considerar-se livre. Uns são escravos da riqueza, outros da sorte, pois ora as prescrições da lei, ora os caprichos da maioria nos impedem de seguir nossas inclinações, submissos aos desejos. Levando em consideração os teus receios e as concessões à multidão onipotente, incumbo-me de te livrar desses temores.

AGAMÊMNON 

E como essas mulheres vencerão os homens?

HÉCUBA 

Elas são numerosas; isso lhes dá força, e com a sua astúcia serão invencíveis. 

AGAMÊMNON 

Por certo o número é temível; quanto ao resto, a raça das mulheres não é confiável. 
HÉCUBA 

Por quê? Não foram as mulheres que venceram seus pretendentes, os filhos do rei Egito, e assassinaram todos os homens de Lemnos? Aceita minha ideia; abundam os exemplos.

(Hécuba, de Eurípides)

CREONTE 

A submissão, porém, é a salvação da maioria bem mandada. Devemos apoiar, portanto, a boa ordem, não permitindo que nos vença uma mulher. 770 Se fosse inevitável, mal menor seria cair vencido por um homem, escapando à triste fama de mais fraco que as mulheres!

(Antígona, de Sófocles)

Existe uma pedagogia interessante nas tragédias gregas. A primeira, mais óbvia, é de que podemos aprender com a arte, por meio da beleza ou da contemplação da dor alheia sem precisar arriscar os destinos de uma cidade em nome do funeral de um parente, como fez Antígona. A segunda, que pode ser assumida a partir da premissa anterior é que a bondade não nos salva do terrível. A família de Príamo e Hécuba sofre males inimagináveis apesar da retidão com que tratam os amigos e os inimigos. Convenhamos, é fácil, muito fácil, amar os amigos, já ser leal com quem lhe é opositor é até hoje um farol nos estudos da Ciência Política sobre democracia. Mas este texto não é exatamente sobre isso, mesmo que esteja sendo escrito durante tempos estranhos em que a proteção da vida cede lugar à produção do horror por parte do líder do Executivo e de seus apoiadores, todos protagonistas de atos de tirania shakespeariana típicas de um Coriolano. 

Viajemos à Grécia. Os trechos de peças expostos acima ajudam a sensibilizar, pela expressão poética que trazem, a reivindicação da participação das mulheres no espaço decisório da política desde os tempos de Sófocles, Eurípides e Ésquilo. É simples: a mais clichê e vulgar definição de separação entre gêneros está na divisão entre público e privado, sendo a rua o lugar do homem e, a casa, o da mulher. Retornemos ao presente. Essa grotesca divisão atravessa nosso imaginário e está até mesmo em matérias escritas por mulheres sobre profissionais que não continuam exercendo atividades consideradas essenciais durante o período de quarentena. A reportagem de capa do Jornal do Commercio de 05 de abril de 2020, assinada pela repórter Cynthia Leite não fazia referência a uma única mulher profissional de saúde, enquanto entrevistava homens médicos das mais variadas especialidades. Ou seja, se piscarmos os olhos, baixarmos a crítica, desaparecemos fácil da rua e somos devolvidas obedientes ao lar, como queria Agamêmnon.

A história do espaço público e das instituições políticas modernas é a história da acomodação do ideal de universalidade à exclusão e à marginalização das mulheres e de outros grupos sociais subalternizados. Vem sendo contada por intelectuais feministas de um modo que explicita as conexões e as tensões entre patriarcado e capitalismo, desvenda o caráter patriarcal do pensamento e das instituições políticas modernas e as matrizes de dominação que são ao mesmo tempo patriarcais, racistas e colonialistas (BIROLI, 2017, posição 3876).

Biroli (2017) aponta que o direito ao voto e a disputa de eleições não foram traduzidos em condições igualitárias de participação das mulheres na política. Pensar essa participação na política é também pensar nas diretrizes de políticas públicas que possam trazer transformações que permitam maior inserção das mulheres nos espaços de poder. A construção de conhecimento é um dos mais importantes. Na modernidade, apesar dos eventos recentes relacionados ao Executivo Nacional, é a ciência a deusa que norteia os rumos da sociedade, a sacerdotisa de Apolo que profetiza quais as melhores escolhas que as comunidades devem tomar em conjunto. As relações de gênero, classe, sexualidade, etnia, raça e geração surgem como atravessamentos e obstáculos à participação das mulheres em espaços institucionais de tomada de decisão do âmbito estatal. Por isso, é alarmante que abundem dados sobre a lastimável queda de submissão de artigos científicos assinados por mulheres desde o fenômeno da Pandemia do Coronavírus em 2020. Os gráficos compilados em uma das mais tradicionais revistas de Ciências Sociais brasileira não deixam dúvidas: a desigualdade de gênero se fortaleceu diante do complexo cenário em que a tríade doença, isolamento e cuidados com a casa dominaram as tomadas de decisão de toda a sociedade. 

Brasil: Feminismo interseccional versus conservadorismo

As barreiras institucionais são ampliadas quando são pensadas as condições de participação de mulheres negras, indígenas, e trabalhadoras do campo. Desde que as categorias de gênero, raça e classe se enraizaram no pensamento feminista, as mulheres produzem conhecimento para que as pautas assumam, mesmo que fora dos espaços de disputa eleitoral, características mais radicais de defesa de agendas como a dos limites da democracia brasileira, limites estes pressionados pela tríade de categorias acima. Democracia pressupõe ampliação de agentes nas tomadas de decisão e nas dinâmicas de pressão e descompressão que possibilitam inserir transformações efetivas nas estruturas da sociedade. Para Biroli, a ampliação das diferenças entre os movimentos de mulheres de maneira produtiva pode ser atribuída à origem do ativismo de muitas mulheres em grupos marxistas e socialistas e também no protagonismo das mulheres negras na contestação de pautas que remetem a problemas de raça e hierarquia de classe. 

Da década de 1960 em diante, com a pílula anticoncepcional e outras mudanças no campo da cultura e da economia, houve modificações profundas tanto nas dinâmicas de trabalho quanto no âmbito da sexualidade, cujo impacto foi percebido nas relações familiares e de gênero. Desde 1970, os movimentos feministas batalharam pela ampliação da atuação da mulher para que não haja uma redução ao papel de mãe – tanto do ponto de vista do trabalho quanto do ponto de vista da saúde, incluindo o debate sobre a autonomia da mulher sobre a gravidez e o planejamento familiar.

Na década seguinte, durante a redemocratização brasileira e elaboração da Assembleia Constituinte de 1988, propostas gestadas entre os movimentos progressistas se transformaram em pautas consequentes à politização da noção de gênero, dentro de uma perspectiva interseccional. Persistiu, como entrave maior entre os grupos de mulheres, a falta de consenso sobre o aborto. O domínio das mulheres sobre nossos próprios corpos ainda persiste como a última e mais difícil fronteira a ser derrubada pela luta feminista.    

Posteriormente, os avanços foram enfraquecidos nos anos 1990, durante o Governo Collor, quando houve o desmonte do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) a partir da junção entre a implementação de políticas neoliberais e o conservadorismo nas pautas de gênero, raciais e da sexualidade (BIROLI, 2017). Os avanços voltaram a acontecer por meio de ações implantadas durante os anos 2000, nos governos de Lula e na gestão da primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff. Podemos citar a Lei Maria da Penha em 2006; a Lei do Feminicídio e a PEC das Domésticas, ambas de 2015, além de programas de combate à homofobia e de inclusão de mulheres no meio científico. 

Com o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência, aconteceu um recrudescimento de reações conservadoras que se organizaram a partir dos movimentos de junho de 2013 e da eleição de 2014. Duas bandeiras que miram diretamente nas questões de gênero, dos direitos sexuais e reprodutivos se configuraram como aglutinadoras do campo conservador: os acusadores da “ideologia de gênero” e da “Escola sem Partido”. São demonstrações que indicam o rechaço dos grupos religiosos, católicos e expressos principalmente pelos evangélicos e sua bancada parlamentar aos progressos obtidos durante dos anos 2000 em diante. A reação foi mais facilmente percebida pela saída desses grupos da base aliada desses governos. A institucionalização da agenda de gênero em programas e em áreas técnicas de ministérios como o da Educação e o da Saúde e que foram incorporadas ao âmbito da seguridade, da assistência social e do trabalho, confrontando “o enquadramento conservador da família, da conjugalidade e da sexualidade, sem que correspondesse às opiniões e aos interesses predominantes no Congresso Nacional” desagradaram conservadores (BIROLI, 2017, posição 4222). 

Os principais agentes nos espaços institucionais contrários à agenda feminista são os grupos religiosos conservadores, católicos e evangélicos, que têm investido em restrições ao debate sobre gênero, sexualidade e políticas públicas. O Governo Bolsonaro é o epíteto melhor acabado desses grupos. Os movimentos de mulheres têm buscado meios de atuação alternativos como mecanismo de pressão ao campo institucional, dispondo de estratégias de mobilização e de visibilidade como manifestações de rua e mobilização via Internet por meio de redes sociais. Essas ideologias conservadoras, baseadas na conexão entre ordem familiar e ordem política, estiveram intensamente ligadas durante a ditadura e “revelavam os padrões das relações entre a Igreja católica e o Estado na ditadura brasileira e nos regimes autoritários vigentes em outros países latino-americanos no período” (BIROLI, 2017, posição 3961). 

Enquanto esses grupos ganham espaço na política institucionalizada, no âmbito legislativo e no governo federal, novos grupos de feministas surgem, impulsionados pelas redes sociais e, principalmente, entre jovens. O racismo e a desigualdade surgem dentro deste contexto como articuladores discursivos, dentro do pluralismo característico da fase contemporânea dos movimentos de mulheres (ALVAREZ APUD BIROLI, 2017, posição 4326).

Grupo Women’s Liberation marcha em apoio ao Partido dos Panteras Negras, em 1969. Foto: Divulgação/David Fenton.

Fraser (1990) sugere a ideia de esfera pública de Habermas como fonte teórica para pensar as consequências políticas da confluência de discursos da agenda política das mulheres. A esfera pública é designada aqui como o teatro nas sociedades modernas na qual a participação política é encenada pelo meio da fala, diferente do uso simplificado que apenas diferencia o espaço público do espaço privado, sendo este o ambiente doméstico ou familiar. A esfera pública é uma arena institucionalizada de interação discursiva. Fraser distingue essa arena do estado e a demarca como um lugar de produção e de circulação de discursos que podem, em princípio, ser críticos do estado (FRASER, 1990, p. 57). 

A noção de contrapúblicos subalternos é posta por Fraser numa revisão crítica da esfera pública habermasiana e surge pela contestação feita por grupos politicamente minoritários nos espaços amplos de interação discursiva. Os contrapúblicos subalternos atuam em arenas discursivas paralelas criando e fazendo circular contradiscursos para “formular interpretações antagonistas de suas identidades, seus interesses e suas necessidades” (BIROLI, 2017; FRASER, 1990). O exemplo que Fraser dá é a reivindicação das feministas de que a violência doméstica não é uma questão privada, mas sim uma forma sistemática de dominação masculina mais ampla. O assunto foi levado a público e se tornou um consenso partilhado amplamente. A conclusão imediata é que é necessária à democracia a garantia de oportunidades às minorias para transformar consensos que pertencem ao passado e que o lugar de negociação e enfrentamento é a esfera pública, incluindo aí a arena do debate acadêmico. 

Nós e Antígona, Clitemnestra e Hécuba

Tomo as personagens das tragédias como alegorias, com metáforas que podem inflar um alargamento das reflexões que construímos sobre nosso próprio tempo. Se Hécuba interpela Agamêmnon e menciona eventos passados em que mulheres agiram de maneira a definir os destinos outrora estabelecidos por homens, Clitemnestra define limites do espaço de atuação do esposo, mesmo que ela tome para si a gestão da casa, do lar e da vida da prole. Lembremos que, na Grécia, a cidadania não era disponível às mulheres. Antígona, última peça da Trilogia Tebana, apresenta os efeitos práticos da limitação discursiva destinado às mulheres: a própria voz dela deveria ser negada pelo governante, Creonte, seu tio e provável genro. A fala de cada uma dessas personagens ressoa na história da Estética como registros do risco percebido pelos homens da voz das mulheres no espaço público e da potência de insurgência e de ampliação de horizontes discursivos que nós representamos como agentes de transformações das estruturas sociais. 

É resvalar no óbvio apontar que é próprio da pesquisa no campo da estética mirar no legado da arte para compreender o páthos de um tempo. As tragédias gregas surgem no ápice daquela civilização. São, parafraseio Williams, a forma bem acabada de uma cultura em seu esplendor. Salvando as devidas proporções, há um enaltecimento ao pluralismo que, mesmo distante daquilo que entendemos como plural hoje, está próximo da abertura característica das sociedades contemporâneas. 

A diminuição da participação das mulheres na produção científica é um sinal de fechamento da nossa sociedade. Se nós estamos sem produzir porque monitoramos o calendário das tarefas escolares dos nossos filhos, se somos o centro do cuidado das crianças e dos familiares mais velhos, as pautas progressistas, que ancoraríamos com a produção do conhecimento a partir das nossas agendas e demandas, se tornam enfraquecidas. Se a quarentena isola mais as mulheres que os homens, a sociedade se torna ainda mais fechada e o debate diminuído. Confinada a pluralidade de pensamento frutificada pelas mulheres, perde, mais ainda, a democracia brasileira contemporânea.

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. A Poética. São Paulo: Editora 34, 2015.

AZOULAY, Ariella. Potential History: Thinking through Violence. Critical Inquiry, v. 39, n. 3, p. 548–574, 2013. Disponível em: <https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/670045>. Acesso em: 15 ago. 2019.

___________________. The civil contract of photography. New York: Zone books, 2010. 

BIROLI, Flávia. Gênero e Desigualdades: Limites da Democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2001. 

BUCK-MORSS, Susan. Hegel e o Haiti. São Paulo: N-1 edições, 2017.

___________________. Estética e anestética: o” ensaio sobre a obra de arte” de Walter Benjamin reconsiderado. Travessia, n. 33, p. 11-41, 1996.

BUTLER, Judith. Antigone’s claim: Kinship between life and death. Columbia University Press, 2002.

DIDI-HUBERMAN, Georges (org.) Levantes. Edições Sesc, 2017.

EAGLETON, Terry. A ideologia da Estética. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

 _______________. Walter Benjamin o hacia una crítica revolucionaria. Madrid: Ediciones Cátedra, 1998.

________________. Doce violência – a ideia do trágico. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

Mariana Nepomuceno, 36, está no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE. Depois de estudar televisão, literatura e barroco, resolveu procurar nos levantes políticos recentes a persistência do sofrimento, do horror e da compaixão, efeitos típicos das peças trágicas. É professora do Laboratório de Comunicação da Faculdade Pernambucana de Saúde. Durante a quarentena, dá aula, pesquisa, escreve e, principalmente, coordena a intensa agenda de atividades de Antonio, de 5 anos. 

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