Quando o mundo enlouquece

Seria a História uma sala de espelhos? Uma coluna do professor Anco Márcio Tenório Vieira sobre Norbert Elias e o nazismo

Comício do Partido Nazista em Nuremberg. Max Ehlert/Divulgação.

Quem era esse homem que enlouquecera o país? Como era possível que uma nação culta e educada aceitasse e glorificasse um discurso assentado no ódio e na morte: ódio e morte aos intelectuais e artistas, à diversidade de ideias e de modos de ser, aos opositores da “raça” ariana (judeus, ciganos, homossexuais, mestiços), aos opositores do regime (socialistas, comunistas, sociais-democratas, liberais), aos deficientes físicos e mentais. Quem era esse sujeito que os religiosos (em particular, os luteranos e calvinistas) diziam ser a segunda pessoa mais importante a pisar na terra depois de Jesus Cristo?!

Norbert Elias (1897-1990), então um jovem sociólogo judeu, precisava ver e ouvir pessoalmente quem era esse homem que todos falavam (como se ele fosse uma espécie de Vice-Deus encarnado na terra) e que parecia encerrar os sentimentos e as crenças mais profundas de uma “comunidade”. No caso, a “comunidade” germânica. 

E, um belo dia, lá foi Norbert Elias ver e ouvir pessoalmente o homem que vinha enlouquecendo as mentes e os corações dos seus conterrâneos. Foi, mas foi morrendo de medo. Temia que as pessoas que compunham aquela multidão descobrissem que ele, Norbert Elias, não era ariano, mas sim judeu. Depois de dez minutos de discurso proferido pelo Semi-Deus, ele percebeu que apesar daquele homem ter uma altura insignificante, uma compleição física pouco atraente, um bigode que dava ao seu rosto traços caricaturais, um corte de cabelo que lembrava o de uma criança boba e, principalmente, gestos de um celerado, ele tinha, infelizmente, uma retórica sedutora; seu discurso, apesar de absurdo, tinha uma lógica dentro daquela falta de lógica e de racionalidade. Era a lógica da irracionalidade, das grandes narrativas míticas, das grandes verdades que se querem eternas; era a lógica que jamais será crítica de si mesma, que jamais admitirá o contraditório, que se baseia em crenças cegas (como são as crenças dos fundamentalistas e dos que abraçam os discursos identitários e racistas); era a lógica dos que refutam as provas e os argumentos científicos; era a lógica daqueles que nunca serão críticos dos seus próprios métodos e teorias. 

Então, Norbert Elias concluiu: em alguns meses esse senhor vai poder realizar cada ponto cantado e decantado dessa sua fala inflamada. No caso, matar e destruir tudo aquilo que eu, Norbert Elias, considero de mais precioso na vida (o debate, o contraditório, a diversidade e a convivência étnica, cultural, de ideias e de modos de ser). Todos ou quase todos os meus conterrâneos, cegamente, depositarão nele o seu apoio. Pior: irão morrer por suas ideias. E vão apoiá-lo porque assim como ele e a sua retórica, cada germânico carrega apenas e somente ódio no coração e sangue nos olhos.

Norbert Elias, sociólogo nascido alemão. Judeu, saiu do país natal para fugir dos nazistas. Divulgação.

Norbert Elias voltou para casa e avisou aos pais que deixaria a Alemanha. Tentou convencê-los do mesmo. Seu pai não entendia a resolução do filho. Não entendendo, perguntava-lhe: por que eu tenho que ir embora? Eu nunca fiz nada? Eu sou um bom cidadão? Era tudo verdade. Nada daquilo parecia ter lógica. Uma vida inteira de trabalho não podia ser desfeita de um dia para o outro. Mas a decisão de Norbert Elias estava tomada. Era o ano de 1933. Sozinho, rumou para a França; depois, para o Reino Unido. Salvou a sua pele.

Meses depois, tal como previra, Hitler dava início as prisões e mortes dos judeus, homossexuais, ciganos, deficientes físicos e mentais, opositores do regime, opositores da “raça” ariana, intelectuais e artistas. Entre milhares de presos, estavam os seus pais. Ele, o então jovem sociólogo, nunca mais os veria. Nem os pais, nem mais ninguém da sua família. Ele, agora, era a única pessoa a carregar o DNA do que um dia fora uma família. Enquanto isso, na Alemanha, corpos continuavam a virar cinzas e todos continuavam a pedir mais sangue. Mas a História é cheia de sutilidades metafísicas. Quando a hecatombe estava consumada e a Guerra perdida, todos os que destilaram ódio por todos os poros e pediram cada vez mais sangue fingiam, agora, que nada sabiam daquele sangue que fora clamado e defendido em praça pública, nos jornais, nas revistas, nos rádios, nas bancas escolares, nos livros e nas falas de filósofos e ideólogos, nos bares e restaurantes, nos almoços e jantares de família. Os mais cínicos (sim, eles não só existem, como constituem uma boa maioria daqueles que se intitulam “cidadãos de bem”) apenas respondiam, quando interrogados, que cumpriram ordens ou que não foram informados dos horrores dos campos de concentração e de extermínio. Eles, os “cidadãos de bem”, precisavam, agora, ficar de bem com o mundo, com os amigos, com a família e com as suas consciências. Principalmente, com as suas consciências. O passado foi o que passou. Por que relembrar? 

Ao fim e ao cabo, a História parece ser apenas isso: de um lado, uma sucessão de mulheres e homens, indiferente de “raça” e nacionalidade, promovendo o terror, a dor e o sofrimento de terceiros, construindo e destruindo impérios, e proclamando que tudo isso é em nome de algum Deus ou de alguma crença política, racial, cultural ou econômica; de outro, quando a poeira dos fatos assentam, todos querendo sair bem na fotografia, todos querendo apaziguar os monstros alimentados em suas consciências. A História, ao fim e ao cabo, é a História da má consciência humana e nunca guardou e nem guarda bons sentimentos.

Anco Márcio Tenório Vieira é doutor em Literatura. Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras/UFPE. É autor de Luiz Marinho: o sábado que não entardece (FCCR, 2004), Adultérios, biombos e demônios (PPGL, 2009) e Dante, a poesia e a sua forma cristã (PPGL/Editora UFPE, 2017).

COMPARTILHE

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp