Realismo fantástico, sociedade e pandemia na “Coleção Solidária” da Vacatussa

Resenha sobre a coletânea publicada pela editora pernambucana em 2020

Na imagem, os três livros publicados na Coleção Solidária: “Restos de Família”, de Diogo M. de Almeida, “Trilogia da Febre”, de Cristhiano Aguiar e “Abrigo”, de diversos autores. Foto: Editora Vacatussa/Divulgação.

“De que serve a literatura em meio a tantas perdas, mortes, crise econômica e desemprego?”

A pergunta acima, embora, eu suponho, tenha sido feita pela maioria dos que produzem e/ou consomem literatura desde o terrível ano passado (que parece não ter passado, pelo menos no Brasil), é parte da introdução de três livros de contos da editora pernambucana Vacatussa. As respostas para tal questionamento – esse “para quê” na arte literária – são sempre muito complexas: para uns, como Antonio Candido, os livros são um “direito”. Para outros, como Virginia Woolf, conquanto em meio à tragédia, a leitura pode ser “êxtase”. Para muitos leitores, é um hábito de imersão, como era para Emma Bovary  – uma necessidade de usar a ficção como fuga. Há, igualmente, os que não pretendem fugir com o passaporte da literatura, mas pensar através dela a realidade  – era isso que autores políticos, como Tolstói ou Hugo, faziam. Logo, essa é uma pergunta que, por ter muitas respostas, não tem nenhuma. Entretanto, cercados de doença e isolamento, a maioria de nós, leitores, continuamos lendo, não obstante vejamos a conjuntura atual e o papel social e/ou artístico dos livros de maneiras diferentes.

Assim, para os que ainda vêem sentido na leitura de ficção, a Vacatussa lançou, em 2020,  a “Coleção Solidária” – três livros de contos escritos por autores, em maioria, nordestinos, dentre os quais, alguns nomes inéditos, bem como, outros já consagrados. O primeiro volume publicado foi “Restos de Família” do natalense Diogo M. de Almeida, uma coletânea de quinze pequenas narrativas sobre os (inúmeros) dilemas familiares. A seguir, por autoria do paraibano Cristhiano Aguiar, “Trilogia da Febre”, com três textos sobre três surtos diferentes – todos, de alguma forma, muito similares ao que enfrentamos atualmente. Por último, foi lançado “Abrigo”, um livro com dez contos sobre temas distintos, por diversos autores, entre eles, vencedores do Prêmio Jabuti, tais quais o cearense Sidney Rocha (“O destino das metáforas”) e a carioca Carol Rodrigues (“Sem vista para o mar”).

Devido à pandemia, os livros foram publicados somente em formato digital, disponíveis para compra na Amazon e, também, para empréstimo no Kindle Unlimited. Toda a renda provinda das vendas dos e-books é destinada à ONG Samaritanos Recife, uma organização voluntária que defende os direitos de pessoas em situação de rua. Portanto, os títulos, além da qualidade de conteúdo, comportam, também, um outro atributo, embora de cunho social e, assim, não necessariamente relevante à literariedade dos textos – de qualquer modo, aos que não agradarem os livros, podem, pelo menos, regozijar-se de terem auxiliado, de alguma maneira, uma causa importante. Para mim, contudo, a coleção é envolvente por si mesma: acabei por ler todos os volumes de uma só vez, pois os três são bastante intrigantes e, por conseguinte, um leva ao outro. São consistentes, do mesmo modo, em atmosfera, mesmo tratando-se de temas diferentes: as três seleções de contos são tristes e pilhéricas em seus absurdos fantásticos e, simultaneamente, muito reais. 

Sobre “Restos de Família” de Diogo M. de Almeida

“Restos de Família” inicia a coleção com quinze contos de Diogo M. de Almeida, autor do livro – também de contos – “Eu ando só” (2012). Os textos foram escritos entre 2018 e 2020 e foram publicados, primeiramente, nas redes sociais do escritor. Posteriormente, foram organizados por Thiago Corrêa Ramos em e-book para a Vacatussa. Em uníssono, todas as narrativas contornam as diversas facetas de um mesmo tema (e dos mais complexos): família. Tamanha complexidade, contudo, ordenadas em pouquíssimas linhas de textos bastante curtos – leitura rápida, mas nem tão fácil, dado que a linguagem tragicómica da pena que os escreveu sempre conclui cada texto em impacto. 

O livro começa com um pai e uma filha que moram juntos e, contudo, estão a quilômetros de distância em tudo. Ou quase: “O passado era o único território consensual entre os dois”. Esse mesmo passado parece estar contido em um quadro ordinário que, em sua suposta vulgaridade, traz (e leva) o que resta de vigor neste pai idoso e meio inerte. A seguir, uma mãe chega em casa e percebe que seu lugar foi tomado por outra pessoa, depois de ter sido, por tanto tempo, ausente, ao ponto de esposo e filhos esquecerem de seu rosto. É, também, na ânsia de resgatar a família perdida, que marido e mulher vão à praia desfazer-se de suas diferenças, alucinados por um “sonho de filme americano” – mas Hollywood é, afinal, romântica demais. Adiante, um menino tem como amigo uma ideia e, outro, um bot na internet (dois dos textos mais interessantes do livro). Dois espetáculos medonhos: uma criança só conhece a mãe no seu funeral, através de um estranho tagarela e um jovem rico sonha com a oportunidade de torturar o pai diante da família inteira. 

Neste livro, algumas falas comuns se tornam contos, tais quais, “Dizem que ser mãe é padecer no paraíso”, uma das frases mais ouvidas pelos filhos, ou “Eu não pedi para nascer”, esta, por sua vez, tão ouvida pelos pais  – ambos os textos são desconcertantes; o primeiro pelo macabro e, o segundo, pela irracionalidade, que explicada, é quase lógica. É, também, bizarro, um primo meio gato e meio humano, bem como o macaco que quer ser bípede, apesar de seu pai, um quatro-patas conservador. A indiscrição alheia é parte essencial da coletânea, do mesmo modo que parece ser impreterível mesmo nas melhores famílias e, portanto, a tia que não cansa de perguntar sobre o relógio biológico de suas sobrinhas “solteironas”, e a madame rica que “considera” a doméstica como parente, têm suas próprias linhas. Inclusive, essas essencialidades do conceito “família” estão por toda parte na literatura de Diogo Almeida, mesmo quando transfiguram-se em absurdos cômicos ou em demasias assustadoras: isto é, do amigo imaginário ao animal rebelde, as contradições inelutáveis que existem na união de seres correlatos e, concomitantemente, tão distintos, se fazem presentes em cada texto. 

Naturalmente, alguns contos são melhores que outros: muitos são espantosos, devido ao horror ou ao fantástico; da mesma maneira, certas passagens são engraçadas e, outras, tristes – em textos curtíssimos, como é o caso dos reunidos neste livro, tais efeitos na experiência literária só são alcançados por maturidade de escrita. Portanto, vários contos são bastante bons. Os demais, porém, me soaram um pouco sensacionalistas, cercados de uma dramaticidade exorbitante que tornou-os um tanto imoderados ou pouco “sutis” – coisa de dois ou três, logo, nada que desmereça uma coletânea de quinze. Sendo assim, o livro abre muito bem a “Coleção Solidária”, indicado, principalmente, para quem se interessa pelas complexidades de um tema tão tolstoísta quanto “família”, pelo realismo fantástico que permeia os contos e, quem sabe, interesse, particularmente, aos leitores do terror social da argentina Mariana Enriquez e, até, aos que leem o artista de mangá japonês Junji Ito, já que não falta esquisitice (às vezes, quase body horror) na literatura de Diogo M. de Almeida.

Sobre a “Trilogia da febre” de Cristhiano Aguiar

O segundo volume da coleção, “Trilogia da Febre”, é composto por três contos do escritor paraibano Cristhiano Aguiar, autor de “Na outra margem, o Leviatã” (2018). Conforme indica o título do livro, os textos reunidos nele – dois originais e uma reedição – ruminam acerca do cenário contemporâneo, através de narrativas em todo análogas ao realismo fantástico e à ficção científica. Para os leitores que, sob a atmosfera pitoresca e inédita desta (desgovernada) crise sanitária, leram (ou releram) “A peste” de Camus, “O amor nos tempos do cólera” de Gabo e “Estação Onze” de Emily St. John Mandel; ou os que foram buscar alegorias da pandemia em livros menos óbvios, tais quais “A metamorfose” de Kafka; e mesmo os que mergulharam na literatura sci-fi de Orwell ou Bradbury; isto é, aos que interessam-se em pensar a atualidade por meio da ficção, esta pequena trilogia é uma leitura muito pertinente. 

No primeiro conto, “Anda-Luz”, um menino precisa atravessar um sertão devastado pela doença (a “febre”), para entregar um bilhete a um cangaceiro. Acordado ainda de madrugada pela mãe, Chiquinho sai de casa com medo da morte com quem se depara a cada passo: num vaga-lume em seu brilho final, no deserto do isolamento e da devastação que a peste deixa, ou num enforcado solitário no meio do caminho. Contudo, também encontra vida – adota um gato barulhento a quem chama de Chicote e, bem como a maioria das crianças solitárias, imediatamente, ama: “Agora, Chiquinho pensou, a gente é dois.” Assim, ambos seguem sob a sedução de toda e qualquer superstição que o menino consegue lembrar para proteger a si e a seu gato na atmosfera mágica dessa madrugada sertaneja. Logo, “Anda-Luz” conquista, especialmente, em virtude dos diversos clássicos do Nordeste e da infância, em um tom regionalista e onírico que envolve cada passo de Chiquinho e Chicote.

O melhor conto da trilogia é, no entanto, o segundo, “As onças”. Nele, a catástrofe é uma revolta desses animais, que trancam os moradores da cidade em suas casas, sob o risco constante de morte por dilaceramento: cada pessoa pode tornar-se uma “vontade” das onças que espalham-se rapidamente pelo país inteiro – um cenário de horror dos mais lúgubres. Diana e sua mãe, entretanto, precisam sair para comprar suprimentos essenciais e remédios para seu pai doente. Fora de sua casa, embora seguindo todas as medidas de segurança, mãe e filha têm de enfrentar o desconhecido em um lugar que, antes, lhes era tão familiar: “A rua, a cidade e suas onças invasoras eram esse livro que se abre e sobre o qual se esquece” – aos que permanecem em distanciamento social, a sensação de reconhecimento é inelutável. Gosto, em especial, de dois momentos nesse conto: o encontro com uma das ameaças que, no entanto, também sofre (toque deveras sensível esse de humanizar os que desumanizamos); e o final, tão kafkiano e surpreendente, quando o texto já parecia completo. 

O terceiro, “Firestarter”, acompanha um grupo de entusiastas de incêndios, que enxergam “prazer na fumaça”, não obstante carregue “risco e morte” – já dizia Dostoiévski, a humanidade sempre arrebata-se pela desgraça alheia (e, até mesmo, pela própria). Assim, é ao redor dos rostos desolados daqueles para quem o fogo é tragédia, que esses curiosos fotografam, celebram e analisam as queimadas, todas distintas e maravilhosas entre si. A caminho de mais um espetáculo de chamas, o narrador, fascinado pelo fogo, relembra a primeira vez que o viu, em um evento bradburiano: queimavam livros, “dinossauro(s) que o meteoro esqueceu de exterminar”. “Firestarter” é, talvez, o mais evidentemente atual dos três textos, mesmo em sua ficção de tal maneira imaginativa, visto que, seu cenário nos é bastante conhecido – um lugar atormentado pelo extermínio, pela fome e pela ignorância, por onde o fogo, um “deus que passeia”, incendeia quase desafrontadamente, mas que, no meio da desolação, ainda reflete fantasia, alienação e beleza.

Logo, todos os contos desta trilogia, ainda que próximos ao absurdo, são metáforas sensíveis de uma contemporaneidade tão digna da ficção científica: consequentemente, bastante simbólicos. Todavia, a linguagem de Cristhiano Aguiar, que consegue simular vozes distintas e, ao mesmo tempo, soar, consistentemente, bonita e verossímil, é o ponto mais alto desse livro – as palavras causam muito mais efeito em sua composição, do que devido aos acontecimentos insólitos que descrevem. Portanto, os textos desta coleção são potentes, principalmente, em suas delicadezas e particularidades, embora sejam todos cercados pelo extraordinário. 

Sobre “Abrigo”, vários autores

A última coletânea, que contém dez contos de autores novos e consagrados, organizados por Cristhiano Aguiar e Thiago Corrêa Ramos, apesar do título, carrega um certo cheiro de morte e desolação, talvez tão acentuado quanto em “Trilogia da Febre” – todas as estórias parecem imbuídas de uma marcada atmosfera de afastamento, seja pelo túmulo, pela memória, por um nevoeiro fantástico ou um horror meio estrangeiro e meio nosso, ou até mesmo por isolamentos práticos, tais quais a pobreza, a pandemia, um voo de adeus e desconforto na classe econômica de um avião barulhento e, de repente, silencioso (como as despedidas), ou os porões da infância e da inocência: todos os contos são tristes e, logo, assustadores. Ademais, todos os contos, também, são bons – surpresa bem-vinda, uma vez que sou uma leitora cética de coletâneas de autores diferentes, sem negar, claro, que muitas possam se sair bem, como é o caso desta. 

O que me incomoda, por vezes, neste tipo de coleção, é que me parecem aleatórias, ainda que compartilhem de um mesmo tema, como se a razão daqueles textos estarem juntos fizesse pouco sentido literário, ou, quem sabe, a junção de autores novos e antigos servisse muito mais como propaganda de uns ou outros. Nesses casos, alguns dos selecionados para o livro são tão superiores aos demais que a sensação de ter lido alguma coisa incompleta é óbvia. Evidentemente, isso pode acontecer com coletâneas de um escritor só e, diversas vezes, acontece, já que um texto não depende somente de quem o escreve para se fazer coesão, pelo menos em qualidade, com o resto das obras de uma mesma assinatura. “Abrigo”, no entanto, compõe uma harmonia de vozes bastante distintas, mas maduras, embora em diversas etapas da travessia literária

O livro tem início com a vitória de Mané Menino sob o rei de Nego Damião, em um jogo de praça numa cidadezinha do interior, no mesmo dia em que a pandemia chega de vez a um país mais preocupado com politização e evangelização de uma doença sem partido ou religião, do que com a segurança de seus habitantes: tremendamente familiar. O conto “Coração-de-Nego”, de Renata Santana, centraliza uma trivialidade que se torna, de repente, essencial, quando é depravada de seu ritual diário, devido ao distanciamento social: o que fará o arrogante Nego Damião depois de perder publicamente para Mané Menino, sem oportunidade de revanche, visto que, agora, seu adversário não sai mais de casa? Este é um texto sobre a solidão e a tragédia dos “velhos de praça” em um tempo que é ainda mais inexorável com os que já assoviam as canções de sua própria (e outra) época.

O próximo é um testamento sem ponto nem vírgula de alguém que tem uma palavra para cada um de seus oito irmãos, sem deixar de ser, ele mesmo (o narrador), um alguém sem nome, tão hermético quanto seu texto: apesar de intitular-se “Todas as Palavras”, o conto de Marcelino Freire é um dos mais misteriosos dessa coletânea. É, também, um dos mais bonitos e, talvez, controversos – esse testamento, embora tão obscuro, ao mesmo tempo, parece uma confissão em voz alta (sugiro que assim o leitor o leia). 

No “Calçadão”, de Camilla Inojosa, madames voam – “nem pareciam andar na rua” – de salto alto, sob o olhar sonhador de Maria, que, com a desculpa de ver a lua na praia, fantasia o dia em que ela saberá voar em sapatos chiques, para a inveja de outros infelizes. Contudo, não pode se demorar, pois em casa, enquanto a mãe trabalha como doméstica fora, precisa preparar o jantar dos irmãos e do tio agregado, que fede horrivelmente à violência patriarcal e espera dela mais do que o cuscuz pronto e quente. Maria é uma Leontina jovem demais, além de um tipo tão palpável quanto a pandemia do primeiro conto.

“Horror adentro”, de Oscar Nestarez, tem coerência inegável com seu título: um turista em Yerevan, na Armênia, depara-se com um desejo rubro, ou uma “Morte Vermelha”, a quem persegue por ruas e ruas até o âmago desse lugar estrangeiro, que, simultaneamente, lhe é tão familiar. A perseguição, no entanto, acaba em um enigma torturante com ares de “O Poço e o Pêndulo”. A propósito, o texto todo tem um e outro toque de Poe ou, pelo menos, assim me pareceu.  

No conto de Débora Ferraz, “Inocência”, um porão em uma casa velha inicia um pleito entre duas meninas: a que visita pergunta à moradora se dá para criar um animal ali e ela decide mentir – “Eu crio um gato aqui”. A mentira, porém, vai ficando cada vez mais insustentável, tal qual a inocência mesma de quem a inventou. Este é um dos textos de que mais gostei, por causa de sua agonia nostálgica e seu terror sutil – a solidão das crianças (a mentira, o abandono) é das mais delicadas e tristes.

“Viagem de ida e volta”, um dos primeiros textos do autor Gilvan Lemos (1928-2015), é sobre a clássica dicotomia entre um campo saudoso e um suposto progresso “intruso”. Depois de três anos fora, um filho volta para casa do pai e reencontra uma fazenda vizinha, onde brincava quando criança, mas que, agora, está quase abandonada, depois que seu dono fica viúvo e eternamente preso às memórias de sua falecida esposa, tal qual o viajante – apesar de não mais viver no interior, carrega uma nostalgia romanesca pelo cenário de sua infância. Tema comum na literatura nacional da primeira metade do século passado, o conto foi originalmente publicado em 1948, na revista Alterosa.

Em “Tem coisas que não se afogam”, de Joana Rozowykwiat, cabelos vermelhos flutuam na margem de um rio de sangue que atravessa uma cidadezinha estagnada em sua história de massacres e brutalidade. Um “morador invisível”, embora tente escapar da maldição que assola o município – “Terreirinho é dor. (…) Terreirinho machuca a gente. Lugar de calvário e morte” –, acaba por encontrar seu destino trágico ao decidir o de uma forasteira mal-vinda. Tal qual no texto de Camilla Inojosa, a violência contra as mulheres faz-se etapa irremediável na narrativa. 

“Não faz muito tempo que o mundo sumiu. Um ano ou uma eternidade” – Na familiar distopia (como todas as boas são), de Diogo Monteiro, “Esta sala, estes quartos e este silêncio”, uma neblina engole toda a paisagem exterior à janela de um menino. Subitamente, a névoa toma as ruas, os vizinhos, a escola, deixando apenas ele, sua mãe e seu pai, numa casa fechada para o nada que há fora dela. Esse é o conto mais esquisito de toda a coletânea, cercado de seres misteriosos, profecias apocalípticas e cenas absurdas. No entanto, é esse tom kafkiano que perturba o leitor com sua paradoxalidade: bem como seu título, o texto todo nos parece análogo demais à nossa realidade atual. 

“A festa”, de Carol Rodrigues, é menos fantástico e, no entanto, seu acontecimento central é deveras insólito. No conto, um policial persegue um casal de idosos que é abordado e levado da praça por uma mulher enraivecida, para curiosidade agonizante do personagem – “a situação com os velhos me coça e eu não durmo nunca mais se não souber”. A resolução do caso surpreende, uma vez que o casal está metido em um cenário tão presumivelmente jovem e, ao mesmo tempo, tão velho. “A festa” é um adeus.

Por fim, Sidney Rocha encerra (muito bem) a coletânea com o conto “Fique tranquila”. Um homem se encontra “na mais estranha das fronteiras: a vizinhança das poltronas de um avião”. No meio dessa estranheza, uma senhora não para de reclamar do barulho que faz a máquina e, depois, de seu terrível silêncio – ela que é, contudo, a criatura mais barulhenta presente. Talvez fale tanto, especialmente, porque a quietude do abandono que carrega é insuportável de comportar sozinha. A mesma espécie de silêncio, porém, acompanha o narrador, que tenta em vão acalmar a mulher ou acalmar a si mesmo: ambos em um voo de morte e despedida. Este texto me interessou em particular pela delicadeza da narrativa e pela força da linguagem, uma vez que não há no enredo nada, particularmente, excepcional, sendo o cenário e as memórias que cercam o narrador e sua vizinha de viagem pouco incomuns – no entanto, esse conto é um dos mais bonitos, devido a um ar, em certo sentido, quase “sonial”, que parece intrometer-se na aparente banalidade da conversa dos dois e no ato mesmo de voar – dos pássaros e dos homens.

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Em síntese, a “Coleção Solidária” da Vacatussa, uma editora pernambucana de catálogo interessantíssimo, é um pequeno tesouro de livros curtos, embora a leitura dos breves textos organizados nos três volumes seja complexa, visto que, a maioria dos contos têm um cunho profundamente social, não obstante sejam, em especial, literariamente engenhosos.

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