Rebuliço no Alto do Moura: A vanguarda na tradição do barro

Existe arte contemporânea na produção de artigos em barro do Alto do Moura?

Foto: Geyson Magno

A segunda Bienal do Barro, ocorrida em 2019 em Caruaru, município do Agreste de Pernambuco, apresentava, em caráter de homenagem, a exposição de obras do Mestre Galdino, célebre artista. Em outro salão, a proposta era de ruptura e reinvenção da tradição, com obras contemporâneas da arte conceitual sob o tema “Nem tudo que se molda é barro”. No hall de entrada havia uma obra de Claudineide, artista do Alto do Moura, mas na exposição em si, nenhuma obra de cerâmica (obras em que o barro é moldado e depois queimado). A partir disso, artistas locais alegavam baixa representatividade na exposição da Bienal de arte contemporânea de barro produzida no Alto do Moura.

E assim se deu o conflito cultural: de um lado os artistas e artesãos do Alto do Moura reivindicando o reconhecimento como contemporâneos e criticando a ausência de suas obras na exposição e de outro lado a organização da Bienal, que apresentou como proposta no salão contemporâneo um rompimento com a arte ceramista e de artesanato. Além disso, a Bienal buscou enxergar e fazer enxergar o barro não só como matéria prima, mas a partir de pressupostos contemporâneos, isto é, que vão além dessa modalidade de arte tal como cunhada no senso-comum. 

Tendo em vista a sua proposta, a Bienal cumpriu sua função. Mas além disso, fomentou um debate que até então não havia sido posto em discussão: a existência de uma arte contemporânea e conceitual, para além dos estereótipos, na produção de barro do Alto do Moura. 

Arte, artesanato e arte contemporânea

Para analisar essa existência é preciso antes ter em mente o que são o artesanato, a arte como um todo, e a arte especificamente conceitual ou contemporânea. 

Uma definição que me parece muito contundente quanto ao artesanato é uma fornecida pelo artista e crítico de arte Raul Córdula, que o define enquanto uma obra material produzida pelas mãos do artesão destinada ao conforto do homem e carregada de expressão cultural. Além disso, Córdula explica que o artesanato assume o caráter de uma atividade que preza pelo bem feito, bem acabado e pela perfeição, ideais dos quais a arte é independente, podendo também utilizar deles bem como não utilizá-los e continuar, assim, sendo arte. Em se tratando da peças de barro produzidas no Alto do Moura, o artista – que cria, inventa – e o artesão – que sabe fazer e o faz com as próprias mãos –  com frequência são a mesma pessoa, ou seja, há aquele que é apenas artesão, há também aquele que é artista e existe o artista que também faz artesanato. 

Portanto, arte e artesanato não são atividades que competem entre si, mas que servem a propostas diferentes e que, de forma não rara, se complementam. Assim, não faz sentido pôr em uma mesma balança a obra artesanal de barro, definida como tradicional e figurativa da cultura regional, e a obra de barro com novos motivos e pretensões. São propostas diferentes e, por isso, a comparação sobre o que é melhor ou pior torna-se um equívoco.

Já a arte contemporânea, mais especificamente em sua vanguarda conceitual, é uma tendência artística surgida em meados do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, e se caracteriza pelo abandono das questões estéticas devido à primazia da ideia e do conceito em detrimento da imagem, do objeto. Ou seja, para a arte conceitual, o trabalho artístico não estaria concentrada na realização material e sim no processo de concepção da arte. Além disso, é um tipo de arte que explora os limites de sua própria definição e autoria, visto que aquele que observa passa também a participar do processo de criação uma vez que as sensações e reflexões suscitadas pelas artes contemporâneas e conceituais são um desdobramento da obra. Também se faz presente uma crítica à arte feita unicamente para fins comerciais.

O Rebuliço no Alto do Moura

Observar a produção do Alto do Moura sob a luz destes conceitos torna perceptível a existência tanto de obras de artesanato como de obras de arte na comunidade. Mas o que se está em discussão e aparentemente em dúvida é a existência da arte contemporânea de barro. Entretanto, é perceptível a existência de obras de barro que se distinguem da produção tradicional-figurativa do Alto do Moura herdada das criações do Mestre Vitalino. E antes que comecem a pesar ambos os modelos em uma mesma balança, lembro de que se trata, tal como explicado na relação arte-artesanato, de propostas diferentes, portanto nem iguais e nem competitivas entre si.

Apesar do debate, essas obras de arte em barro que não se encaixam na proposta figurativa se propõem a fazer de suas obras uma chamada à reflexão e não um reflexo do cotidiano.

Como exemplos dessa expressão contemporânea do Agreste podemos citar a exposição “O Grito da Natureza”, realizada em Caruaru por artistas do Alto do Moura e região que passou um mês trazendo uma reflexão acerca da destruição da natureza por meio de obras de barro. Ou seja, se criou um conceito da exposição e das obras a serem expostas antes mesmo da realização material, o que atribui um caráter contemporâneo e conceitual ao evento. Outra iniciativa também fomentada pelo conjunto de artistas da região foi a performance – uma forma essencialmente contemporânea de se expor arte – BarroEco, que refletiu sobre a existência de arte contemporânea na cidade e região e sobre o artista ser a sua própria obra. Esta última fomentada pela inauguração da segunda Bienal do Barro, quando os artistas pretendiam chamar a atenção para a existência da arte contemporânea em barro na região.

Já como exemplos de obras de artistas, pode-se citar Humberto Botão, cuja  produção abarca uma série de máscaras de barro com feições desconfiguradas, algumas com expressões faciais identificáveis, outras não, mas nenhuma igual à outra. Esse conjunto de máscaras funcionam como uma única obra em que cada máscara também é uma obra por si só. Além disso, o conjunto traz uma reflexão e, ao mesmo tempo, uma crítica sobre a produção em série de uma mesma obra de barro, nascida do lado mercadológico da arte. Também pode-se citar o trabalho de Cleonice Otília, mais conhecida como Nicinha, que ao mesmo tempo em que desenvolve um trabalho enquanto artesã de peças de barro figurativas, também cria obras que não se encaixam no trabalho tradicional do Alto do Moura.

Humberto Botão. Foto: Gabriel Vila Nova

Desse modo, o que há no Alto do Moura é uma hibridez artesão-artista e contemporâneo-tradicional que questiona os limites não só da arte, mas também da arte contemporânea-conceitual, cuja produção pauta-se justamente na abordagem dos limites da arte. Ou seja, a produção no Alto do Moura, por sua hibridez com a tradição, questiona os limites da arte contemporânea e conceitual, uma arte que se destaca por sua essência questionadora. Dessa forma, a produção do Alto do Moura seria contemporânea por essência, muito embora encontre dificuldade no reconhecimento enquanto contemporâneo.

A partir disso, é possível constatar uma contemporaneidade emergente dentro de um pólo tradicional no Agreste e poucas razões ainda impedem o reconhecimento dessa contemporaneidade nas produções dos artistas do Alto do Moura. Isso talvez se deva ao apego a definições estereotipadas no lugar de uma tentativa de compreensão dos efeitos concretos e práticos que a arte do Alto do Moura realiza e propõe. Ou ainda, tendo em vista o caráter popular da arte em barro e essa dificuldade de reconhecimento enquanto contemporânea e conceitual, cabe perguntar: quem define o que é arte contemporânea?

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