Reflexões sobre o sertão de nosso isolamento

Como três obras, de linguagens artísticas e tempos diferentes, podem ajudar a compreender nossa época e a nós mesmos?

Uma das peças narrativas do livro “Dog Days – Bogota”, do fotógrafo americano Alec Soth. Foto: divulgação.

Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
– “Genipapo Absoluto” (1989), de Caetano Veloso

Ao terminar de ler “Vento do Amanhecer em Macambira”, novela de 1987 do escritor pernambucano José Condé, não pude deixar de notar – com a consternação e a sensação de enorme lacuna que uma boa obra deixa – certa semelhança em relação a outra produção: o filme “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, dos diretores Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Entre formas específicas de se construir enredos e personagens, essas duas peças, de linguagens artísticas e tempos tão diferentes, parecem se comunicar.

De 2009, a produção cinematográfica retrata – guiada pela voz em off do protagonista – a viagem de um geólogo cearense a serviço do governo em direção ao interior do Nordeste: em meio a uma separação, o geólogo sai de Fortaleza em mil pedaços e, ao passo que executa seu trabalho, em meio àquela imensa planície sertaneja, e conhece inúmeras pessoas ao longo da estrada, vai, pouco a pouco, reconstruindo-se.

O romance de Condé, por sua vez, é ambientado nos anos 1950 e narra, também em primeira pessoa, os conflitos existenciais de um funcionário público que sai do Recife para o interior onde nascera para, também, executar uma missão do governo. Acompanhado inicialmente do colega Albérico, a personagem retoma o contato com lugares que, apesar de terem lhe testemunhado os primeiros passos, pouco se assemelham a ele: uma vez em Poti e, posteriormente, em Macambira, em busca de notícias de Lívia, um amor juvenil relembrado durante a viagem, as lembranças da infância e da adolescência emergem e começam a guiá-lo. Ele não consegue sair dali sem tentar descobrir o que acontecera com sua antiga – e até então pouco lembrada, diferente do drama do geólogo – paixão.

Assim, após essa breve apresentação, lhes convido ao questionamento: o sertão, mesmo que ligado a signos extensivamente utilizados, como a seca, a desigualdade, o coronelismo e as crendices populares, também pode se desconstruir semanticamente e configurar-se como o lugar do encontro do ser humano consigo mesmo, uma espécie de laboratório existencial e, à primeira vista, solitário? Por enquanto, nos contentemos em refletir sobre essas personagens que, por uma razão ou outra, se vêem obrigadas a realizar um trabalho qualquer e, tendo apenas como companhia o descampado sertanejo, começam a refletir sobre a vida, num exercício filosófico que demanda, antes de tudo, isolamento. 

Para lembrar um chavão exaustivamente usado por jornais, revistas e textos em geral, é seguro afirmar que, “em tempos de pandemia”, esse isolamento – sempre que é possível exercê-lo –, ainda que dentro de casa, nos leva a searas semelhantes às do geólogo e do funcionário público? De fato, pensamos em nós mesmos; no nosso lugar neste mundo; naqueles que nos cercam; e, continuamente, nas nossas experiências e lembranças. Somos, em meio ao caos de uma pandemia, impelidos à essa espécie de mergulho interior.

Dessa forma, destaco outro aspecto de “Vento do amanhecer…” e “Viajo porque preciso…”: o caráter essencial e misterioso da memória nas nossas vidas. Inventamos a linguagem para lidarmos com a natureza que nos cerca. Exercemos o ato de lembrar como parte do nosso eterno esforço enquanto raça humana de conferir sentido a essa mesma natureza. De levar, racionalmente, ordem ao caos. Esse sentido se aprofunda à medida em que a arte pode ser usada como uma forma de recriar a lembrança, numa busca incessante por uma experiência que não queremos que suma, como Serge Gainsbourg canta, sur la rivière du souvenir – pelo rio da memória.

A obra-prima de Marcel Proust foi publicada em sete volumes, os três últimos postumamente.

Tal procedimento estético tem um precedente célebre: “Em Busca do Tempo Perdido”, magnum opus extremamente debatido do francês Marcel Proust. Nele, somos imersos no universo de fins do século XIX que o Narrador, ora deitado em sua cama em Paris, ora após comer uma madeleine, tradicional bolinho francês, relembra: num átimo, provocado pelo que o autor entende como “memória involuntária”, a personagem se vê em Combray, pequena vila do interior da França em que nasceu e viveu a infância. As famílias do lugar, envoltas na rígida etiqueta francesa; as longas descrições das catedrais da vila; as reflexões acerca de sua curiosa decepção ao ver que a Duquesa de Guermantes, da aristocracia local, não se assemelhava aos reis e rainhas dos vitrais das igrejas, implicam numa busca para que aquilo tudo, existente apenas em seus pensamentos – já que todos que compartilharam daqueles anos em Combray se foram –, não se perca. Afirma um Proust nostálgico:

Em mim, tantas coisas foram destruídas, coisas que eu julgava fossem durar para sempre, e se construíram novas, dando origem a penas e alegrias novas que eu não teria podido prever então, assim como as antigas se tornaram difíceis de compreender (PROUST, 2016, p. 48).

Na obra de Aïnouz e Gomes, o geólogo se vê às voltas com as lembranças de um relacionamento acabado. Em “Vento do Amanhecer em Macambira…”, as experiências de infância, da família, e dos primeiros amores, obcecam e deslumbram o protagonista. Guardadas as devidas proporções, Macambira e o sertão, ou mesmo Combray, se assemelham como metáforas da reflexão existencial e se revelam de forma diferente para cada transeunte.

São nessas viagens em direção a nós mesmos, em nossa obrigatória reclusão, nos nossos quartos “escuros” e solitários, semelhante a Proust, que ativamos um pouco desse caráter extremamente criador e abismal da memória e do isolamento como chaves para tais meditações? Metáforas à parte, são em obras como a de Proust, de Condé e da dupla Aïnouz/Gomes, em uma estética introspectiva e íntima, que se produz aquilo que, afinal, parece cumprir uma das mais importantes funções da arte: antes de tudo, inquietar.

Referências

PROUST, M. Em Busca do Tempo Perdido: Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.