Samba de coco, presente: artistas de Arcoverde mantêm viva a cultura

A resistência do grupo das Irmãs Lopes e do Raízes de Arcoverde após dois anos de paralisação do São João

O mês de junho chegou com o clima frio e gostoso que traz à memória as lembranças do mais saudoso São João do mundo. Em Arcoverde, cidade localizada a aproximadamente 254 km de Recife, o clima de nostalgia da comemoração é constante na cidade que possui uma das melhores e maiores festividades juninas do interior do estado. Para muita gente, esse mês é aguardado o ano inteiro.

Pelo segundo ano consecutivo, o Portal do Sertão, como é apelidada a cidade, conhecida  também como Capital do São João na época junina, não terá sua grandiosa festividade com a animada e movimentada cidade cenográfica, a tão famosa cachaça carraspana, a diversidade de cores, sons, tradições, forrós, barracas e comidas típicas. 

O cancelamento do São João do maior polo do interior foi proporcionado pela persistência de casos ainda em alta em razão da pandemia da Covid-19. A mistura da tradição com o gostinho do interior deixa saudade no coração dos conterrâneos, dos turistas que já tiveram a oportunidade de visitar Arcoverde durante as festas juninas e dos artistas que são essenciais para a consagração da festa.

Até o ano de 2019, as atividades eram distribuídas em 10 polos, sendo voltados às apresentações musicais, poesia, teatro, gastronomia e ao público infanto-juvenil. O polo principal, o Multicultural, situado na Praça da Bandeira, recebe nomes de grande prestígio como Anitta, Priscila Senna, Elba Ramalho e Alceu Valença. O Polo Raízes do Coco, localizado no Alto do Cruzeiro, assim como o principal, carrega uma relevância valorosa.

Localizado a 2km do centro da cidade, o Polo Raízes do Coco é um dos mais visitados no São João arcoverdense. Conhecido também pelas referências nas músicas de grupos como Cordel do Fogo Encantado, banda nativa da cidade. 

É nele onde se reúnem a tradição do samba de coco, ritmo cultural da cidade, e a valorização da cultura popular. O Polo recebe grupos de coco, maracatu, samba e afoxé de todo o estado, além do pop, manguebeat e forró que fazem parte da identidade do cenário musical e cultural de Pernambuco. No lugar é possível assistir um pôr do sol com vista panorâmica de Arcoverde e um dos pontos turísticos mais visitados durante a época. 

Durante os dias de programação, segundo balanços divulgados pela prefeitura do município, a quantidade de pessoas que prestigiaram os eventos chegava a aproximadamente 60 mil, número que podia até ser ultrapassado, a depender da atração. Além de, no mesmo ano, ter injetado na economia mais de R$30 milhões e lotar os hotéis da região. 

Mas há dois anos já não se escuta mais o batuque do ganzá, do pandeiro, muito menos dos tamancos de madeira, componentes principais para o coco acontecer. Nesse cenário, encontra-se o Coco das Irmãs Lopes e o Coco Raízes de Arcoverde, figuras indispensáveis para tratar sobre preservação e valorização das raízes em tempos turbulentos para a cultura.

Anda a roda

O Samba de Coco Irmãs Lopes teve sua história iniciada em 1916 com a criação do Coco do Ivo (Lopes). Após a morte do mestre, considerado o rei do coco de Arcoverde, seus irmãos criaram o Samba de Coco Raízes de Arcoverde – lugar onde as irmãs Lopes saíram e criaram um novo grupo. Atualmente, sob o comando da mestra Severina, de  86 anos, seguem resistindo às intempéries.

Werner Lopes, neto da mestra Severina Lopes e um dos herdeiros do samba de coco, é produtor musical e cultural, músico, ator de cinema e de teatro. Junto à sua avó, iniciava e encerrava os shows antes da pandemia. Ele destaca a valorização das raízes nas músicas e a continuação dos trabalhos como uma forma de manter a cultura viva.

Ao falar sobre a trajetória do grupo, ele relata que a pandemia os deixou mais unidos. Nesse período, perderam a Mestra Dorada por enfermidade relacionada à idade avançada e uma das filhas da mestra Xica Mana, a mestra Lurdes. No momento, pararam as atividades em função das perdas e do isolamento social. 

Samba de coco das Irmãs Lopes

Parte do grupo das Irmãs Lopes, com dona Severina ao centro. Fonte: Arquivo pessoal

O grupo fixo é composto por 16 pessoas, mas sempre há mais pessoas envolvidas de todas as gerações, devido às oficinas que oferecem. Nessa ocasião, tiveram apoio financeiro para manter a tradição. Mas ressalta que, numa perspectiva geral, não são valorizados pelos governantes. Ele enfatiza também que “a cultura popular, em sua essência, é rica e dinâmica, pois antecede gerações”. Werner conta que o grupo tem projetos de lives, mas não para o São João deste ano, porque há pessoas em situação de risco.

Recentemente foi lançado um mini documentário sobre a vida de Dona Severina Lopes. Sobre o curta, Werner conta, com muito orgulho, que sua avó merece todas as honrarias possíveis e que ela ficou muito feliz ao ver sua história sendo contada e eternizada pelos ensinamentos e canções que acompanham gerações. “Por ser uma mulher nesse espaço, acaba não levando o  devido crédito, mas eu estou aqui para que respeitem e preservem a história dela”, complementa. Werner afirma que as figuras políticas de Arcoverde precisam valorizar mais o samba de coco, em especial as mestras do brinquedo.

Severina é um mini documentário inspirado  no legado da Mestra Severina Lopes e sua paixão pela cultura popular iniciada no Sertão do Moxotó em Pernambuco, lançado em 31 de maio deste ano.

O filme é resultado do projeto Travessia, contemplado no Edital do Prêmio de Salvaguarda e Registro Audiovisual de Saberes Tradicionais e da Cultura Popular, da Lei Aldir Blanc em Pernambuco. Disponibilizado gratuitamente no YouTube e no Vimeo da Ojú Obá Filmes, produtora do curta.

O coco é um gênero musical tradicional do Nordeste e do Norte do Brasil, com raízes que remontam aos quilombos e dança que faz alusão à pisada do barro na construção das casas de taipa. Com letras que falam do cotidiano, do amor e do sagrado, Mestra Severina canta a beleza dos canários que enchem sua casa de música todos os dias.

A caravana não morreu, nem morrerá

O grupo de Samba de Coco Raízes de Arcoverde é outro símbolo que perpetua essa manifestação cultural. É o resgate de uma história, um retrato da poesia do sertão e do regionalismo nordestino. Formado em 1992 por Lula Calixto, o grupo passou a ser conhecido do público a partir de 1996, quando rompeu as barreiras da pequena cidade e passou a se apresentar Brasil afora, em países como Alemanha, Bélgica, Itália, entre outros.

Iran Calixto, vocalista e produtora do grupo, sobrinha do mestre Assis Calixto, eleito em 2019 como patrimônio vivo de Pernambuco e mestre que dá continuidade ao legado de seu irmão Lula, relatou que o período de pandemia está sendo de muita dificuldade para o grupo. Sem shows, não é fácil cumprir com os compromissos financeiros que o grupo demanda. 

Eles têm o auxílio de uma pessoa para o aluguel da Sede do Coco Raízes há 6 anos. Os componentes do grupo não têm outra renda fora do coco, e o que mantém sua  estrutura, é a perseverança de Iran. Não perderam nenhum componente do grupo, somente algumas pessoas contraíram o vírus, mas se curaram. 

Os benefícios recebidos do auxílio da Lei Aldir Blanc possibilitaram a execução online da 12ª edição do Festival Lula Calixto em fevereiro, que teve sua primeira edição em 2005, e se tornou um evento tradicional na cidade. Recentemente, receberam um auxílio da prefeitura da cidade e um do governo do estado.

Em relação ao sentimento de valorização, Iran enfatiza que, em dois anos de pandemia, somente há pouco tempo o grupo foi contemplado com um auxílio da prefeitura, além da “carência de criação de estratégias para os artistas poderem trabalhar”. Destaca também que o auxílio fornecido pelo governo do estado foi pouco para ser dividido para um grupo de 13 pessoas.

Samba de coco Raízes de Arcoverde

Parte do grupo Raízes em frente à sede. Foto: Arquivo pessoal

A vocalista fala que muitos jovens participam do grupo e exemplifica com o seu neto de 16 anos, conta com muito orgulho sobre o interesse por esse segmento cultural, o qual participa do Coco Raízes dançando, e toca também em outros grupos de coco e maracatu.

No dia 16 de junho, o grupo realizará uma live gratuita pelo Circuito Cepe de Cultura. No dia 23, uma live junto ao Festival Trivulina Internacional que será transmitida no Brasil e na Alemanha. Essa mesma live seria realizada no dia 12 de junho, mas teve que ser adiada devido às restrições da Covid-19 no Sertão. Para angariar fundos para a movimentação do grupo, estão sendo cobrados € 5,00 (euros) na Alemanha e R$ 15,00 (reais) no Brasil. As compras podem ser realizadas pelo pix cocoraizesdearcoverde21@gmail.com. 

Preocupada, Iran busca frequentemente por informações sobre lives de outros artistas para que o grupo possa participar, já que além dessas, não têm outras futuras previstas.

O grupo está com dois projetos aprovados pendentes, que deveriam ser executados em agosto e em novembro do ano passado, em Moçambique e São Paulo.  Mas em virtude da continuidade da pandemia, os projetos estão parados. Eles permanecem na esperança do retorno à vida normal com a vacinação em massa e imunização da população. Caso contrário, realizarão lives utilizando o dinheiro. “A principal esperança é que esse momento de tantas dificuldades acabe logo e que a gente volte a viver nossa vida na normalidade de antes, tendo maiores possibilidades de trabalhar e sobreviver de alguma forma”.

A história do coco merece ser eternizada e preservada por todos os ensinamentos e canções que acompanham gerações.

Para aliviar a saudade, fica aqui uma das mais famosas composições do memorável Mestre Lula Calixto, que faz alusão a pontos turísticos de Arcoverde e figuras de renome, além da mensagem de luta e esperança: A caravana não morreu nem morrerá.

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